Bumbás de Manaus e o Garanhão

Este ano, o Garanhão, um dos bumbás de Manaus que resiste ao tempo, completou 30 anos de existência e, se depender de seus criadores, continuará bailando por muito mais décadas ainda. Quem conta a história deste bumbá, lá da cidade alta, é o historiador e folclorista Raimundo Nonato Negrão Torres, que vivencia a história folclórica do bairro de Educandos desde que se entende por gente.

Nonato nasceu na ilha de Terra Nova, município do Careiro da Várzea, mas com três anos de idade foi trazido por uma tia para morar no bairro.

Nonato, nos tempos da Caninha Verde – Foto: Divulgação

“O bairro do Educandos sempre foi um bairro folclórico, principalmente no mês de junho, mas acredito que meu interesse pelas manifestações populares tenha suas raízes na Terra Nova. Sempre voltei à ilha e, ainda menino, ficava com medo das danças de batuque que eles realizavam lá, mas gostava das festas religiosas, das novenas. Minha tia era ‘tiradora’ de reza. Achava interessante a tradição da derrubada dos mastros nestas festas”, recordou.    

No Educandos, Nonato lembra das festas juninas. Na véspera e nos dias de Santo Antônio, São João e São Pedro as calçadas e as ruas de barro ficavam repletas de fogueiras em homenagem aos três santos, além de enfeitadas com bandeirinhas e balões, sem falar das comidas típicas: canjica, bolo de fubá, curau, pé de moleque, bolo de milho, maçã do amor, vinho quente, quentão e arroz doce, entre outras. E as quadrilhas animavam as noites.

“E ainda tinha a aguardada procissão, de barcos, de São Pedro, vista aqui de cima. Até hoje a procissão existe”, contou.

Pelas ruas escuras

Mas uma das brincadeiras mais aguardadas por Nonato era a apresentação do bumbá Tira Prosa, do bairro de Santa Luzia.

“De noite ouvíamos o batuque deles se aproximando, e a molecada corria para ver o boi se dirigindo para o curral do seu Rafí. Quando eu era pequeno, tinha medo da ‘Mãe Catirina’, porque ela corria atrás dos moleques que ficavam ‘patetando’ vendo o boi, ameaçando-os com um terçado de madeira. Quando cresci mais, passei a acompanhar o boi, sem o medo de antes”, lembrou.  

Em suas pesquisas sobre o folclore no Amazonas, Nonato descobriu a primeira referência a um boi bumbá feita em Manaus, em 1859. O médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant estava hospedado num hotel quando viu a brincadeira passar pela rua e se admirou, descrevendo o inusitado.

As décadas passaram e a brincadeira continuou. Nonato procurou saber se haviam existido bumbás no Educandos e, publicadas no O Jornal, de 1948, encontrou matérias sobre o Diamante, o Dois de Ouro, o Veludinho e o Curinga brincando pelas ruas não só do bairro, mas em currais de outros bairros. Esses bois não resistiram ao tempo, tanto que Nonato não os conheceu.

“O Festival Folclórico de Manaus, de forma organizada e com a escolha dos melhores, só aconteceu a partir de 1957, ou seja, os bumbás que existiam antes brincavam pelo simples prazer de brincar. Naquela época as ruas da cidade viviam às escuras e esses bois entravam pela noite, varando a madrugada, com os integrantes dançando e cantando, levando archotes (lamparinas) à frente, para iluminar os caminhos”, disse.    

Apresentação impactante

Em 1977 Nonato estava com 14 anos e o Educandos não tinha mais nenhum bumbá, mas existiam diversas danças. Uma delas era a Caninha Verde.

“Acredito que tenha surgido no final da década de 1960, ou início da década seguinte. Tinha vontade de dançar na Caninha Verde, até que os colegas me chamaram, e eu fui. Fiquei lá por uns seis anos. Quando a dança acabou, os integrantes quiseram continuar com outra brincadeira, mas não sabiam qual. Era o início da década de 1990. O Festival Folclórico de Parintins estava em alta. O grupo resolveu criar um boi”, revelou.   

16 amigos da ex-Caninha Verde, entre eles, Isac Freitas, puxador oficial; Edna Morais, puxadora da ala feminina; Ivo Morais, cantor; Ricardo Morais e Zé Maria, tocadores de tarol e zabumba; e Vanderlan Marques, brincante, se reuniram e ‘nasceu’ o Garanhão, o boi peralta da cidade alta.

Os 16 fundadores do Garanhão em foto histórica – Foto: Divulgação

“Na reunião, realizada em 1991, deram várias sugestões de brincadeira: Tipiti, Dança Nordestina, Quadrilha aí decidiram pelo boi, diferente do tradicional, que não agradava mais, mas ao estilo de Parintins, que fazia muito sucesso. No dia 16 de junho daquele ano a agremiação foi fundada e uma parte do grupo foi até a Ilha Tupinambarana para ver in loco como eram os bumbás de lá, trazendo muitas idéias”, falou.

Durante um ano os amigos prepararam cuidadosamente o Garanhão. Para participar do Festival Folclórico de Manaus eles precisavam se apresentar por três anos na Categoria Extra, mas sua primeira apresentação pública, no festival do Parque Dez, em 19 de junho de 1992, foi tão impactante, que o bumbá acabou convidado a integrar a Categoria Especial, e está lá até hoje.

Eterno enquanto dure

Sinhazinha da Fazenda faz carinho no touro negro – Foto: Divulgação

Garanhão é uma homenagem aos bumbás de Parintins. Garan, de Garantido, com as cores pretas do couro do Caprichoso. O verde e branco homenageiam a Eco 92, Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, acontecida naquele ano.

Desde o início do Garanhão, seus grandes rivais no tablado têm sido o Corre Campo, da Cachoeirinha; e o Brilhante, da zona Leste. Ainda havia o Gitano, mas este acabou. O Tira Prosa, um dos grandes das décadas de 1940, 50 e 60, junto com Corre Campo, existe até hoje, ainda defendendo a apresentação tradicional. Ele é contemporâneo do Mina de Ouro, do Boulevard; e do Caprichoso, da Praça 14 de Janeiro, que há muito deixaram de existir.

O Garanhão guarda histórias curiosas em sua existência. Em 1996, Jorge Miranda, um dos primeiros compositores de toadas do touro negro, inscreveu a toada ‘Boitatá’, nos dois bumbás de Parintins, e os dois aceitaram a toada sem saber que o contrário havia feito o mesmo, defendendo-a em suas respectivas apresentações.

“Nos primeiros anos do Garanhão, horas antes de nossa apresentação no Festival, aparecia um homem, que aparentava ser de idade, no galpão, fantasiado de Cazumbá. Ele ficava lá ajudando no que fosse preciso, e nunca tirava a máscara. Ninguém o conhecia. Depois de alguns anos ele não mais apareceu e nunca soubemos quem era. E aqui todo mundo se conhece”, falou.

Nonato na batucada do boi peralta da cidade alta – Foto: Divulgação

Curiosidades e mistérios à parte, em 30 anos de existência, o Garanhão acumula 14 títulos no Festival Folclórico de Manaus.  

“Sempre estamos nos renovando para que, parafraseando Vinícius, o Garanhão seja eterno enquanto dure”, finalizou.

Foto/Destaque: Divulgação

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