Brasil independência e morte

A independência do Brasil demorou muito a ser nacional. Sete de Setembro, até nossos dias, ainda questiona essa insurreição mediante um país apartado por desigualdades regionais tão gritantes. Aliás, a unidade da nação brasileira, ainda hoje, se baseia na cultura, economia e decisões políticas predominantemente exercidas a partir do Sudeste, Sul e Centro-Oeste do país. 

O grito e o blefe

Na Amazônia, formalmente, ela foi oficializada, no grito e no blefe, após um ano depois do vaporoso episódio do Ipiranga. Províncias do Norte e Nordeste estavam muito desconfiadas daquela súbita sublevação, sobretudo porque as notícias oriundas das Folias Cariocas retratavam um governo festivo e inconsequente. Há curiosidades picantes registradas nos subterrâneos da História. E esta recusa de submissão à Coroa verde-amarela encontrou seu último bastião de resistência exatamente na Província do Grão Pará e Rio Negro, que só assinou – compulsoriamente – o Termo de Adesão ao novo Império para salvar a integridade de sua população é negócios.

Grao-Pará e Rio Negro

Aqui já se destaca a “diplomacia” autoritária e inconsequente que ganhou status no quadro de princípios do Brasil nascente. Dom Pedro I, atento à importância do Grão-Pará e Rio Negro – nome pomposo da Amazônia de então – despachou para Belém um navio de guerra com a missão de comunicar seu ultimatum imperial: ou assina a submissão ou uma esquadra poderosa viria tomar posse da região, e obviamente de suas imensuráveis riquezas e com requintada violência. 

Cabanagem, a história do genocídio

A não-adesão ao novo governo se fundamenta em duas situações bem distintas. A primeira diz a respeito aos governantes e elite econômica, sobretudo comercial do Grão-Pará. Elas estavam permeadas de figuras ligadas à Lisboa, oficiais, políticos e homens de negócio da antiga Corte. Era mais fácil e proveitoso  interagir comercialmente com Lisboa e vizinhança do que iniciar novos negócios com a capital da nova matriz, o Rio de Janeiro. Dizem os historiadores que até os ventos sopravam generosamente no ir e vir de Belém a Lisboa. A segunda razão estava nas condições desumanas das populações excluídas do baile dos bacanas da época. Eram os cabanos, habitantes de moradias extremamente pobres na beira dos rios em torno de Belém. Habitavam os tapiris,  ou casas de palha, e eram constituídos de negros, índios e mestiços, o que se chama hoje de caboclos. Viviam em regime de escravidão e sabiam que aderir ou recusar a nova cidadania – e nada –  era a mesma coisa. Ou seja, eles seriam escravizados ou vitimizados pela violência em qualquer cenário. 

Opressão e resistência 

Os novos governantes trataram de reprimir as frequentes revoltas, muitas delas apoiadas e assumidas por militares e servidores públicos. Depois de 15 de Agosto 1823, as coisas só fizeram piorar para os esquecidos. E foi justamente essa adversidade que construiu um espírito de resistência que vai explodir em 1835, com a Revolta dos Cabanos. O império brasileiro não tardou em sufocar de forma violenta e implacável este movimento- A Cabanagem- uma revolta que está  ausente da maioria dos livros de história no ensino médio do país. O genocídio se assemelha aos crimes mais hediondos da história da humanidade, mais de 60.000,00 mil cabanos, a maior parte sendo do sexo masculino, todos dizimados sem clemência ou apelação.

Sem rosto e sem alma

Depois do bicentenário da independência, certamente não será celebrada qualquer homenagem às vítimas do genocídio, a não ser que os gestores da educação regional resgatem essa mancha histórica, para que os jovens compreendam porque, dois séculos depois, o Brasil central continua de costas e cócoras para a Amazônia e nos considera cidadãos sem rosto, sem alma, vivendo na Amazônia que a nação resiste a abraçar. 

*Alfredo é escritor, filósofo e editor geral do portal Brasil Amazônia Agora e consultor do CIEAM
Foto/Destaque: Divulgação

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