Braga descarta a Amazonino e prega renovação da política no Estado

Pergunta – Como foi a sua trajetória até chegar à liderança do governo federal no Senado?

Senador Eduardo Braga – Fiz boa amizade com o ex-presidente Lula e com a presidente Dilma Rousseff, ela ministra das Minas e Energia e depois chefe da Casa Civil do governo. Depois, eu ousei com projetos sobre sustentabilidade, falando em seqüestro de carbono, mudanças climáticas, serviços ambientais, pagamento de serviços ambientais, valorização do manejo da floresta, atividades sustentáveis. Isso tudo era fronteira nova do conhecimento e da atividade política. Isso acabou repercutindo muito nacionalmente e internacionalmente. Quando cheguei ao Senado, as pessoas já conheciam esse meu lado, e tinham informações da minha trajetória de uma década na política, tendo passado pela Câmara de Vereadores de Manaus, pela Assembleia Legislativa do Estado e pela Câmara dos Deputados, no Congresso Nacional. Mas, eu estava 18 anos afastado do Parlamento. Com firmeza de pensamento e coragem de posicionamento, a gente foi abrindo espaço, ao ponto de a presidente, confiante no trabalho que a gente já vinha desenvolvendo, acabou me convidando para a Liderança do governo no Senado. E a gente ta trabalhando, participando de embates com bom senso, discernimento e respeito. Eu sou daqueles que se eu não sei, eu não falo. Agora, se eu falo sobre um assunto é porque estudei, é porque procurei aprender sobre esse assunto. Assim fui ganhando experiência e cheguei ao cargo máximo de líder no Senado. E isso foi também a vontade de Deus. Quando a gente merece, Deus dá a oportunidade.

Pergunta – Como governador, o senhor teve um lado bastante técnico. No Senado, como é que o senhor age?

Braga – No Senado, eu consigo controlar o meu lado cartesiano, o meu lado pragmático com o meu lado muito humano, pois sou uma pessoa que tem muita emoção nas coisas que faz. Por outro lado, quando eu estava no começo da minha formação, fui influenciado pelos livros que o meu pai me fazia ler. E meu pai foi um autodidata e me ajudou na formação do meu lado humanista, importante na minha atividade parlamentar. E assim fui levando a minha vida pública até hoje. Eu fui vice-prefeito, no início da década de 90, e peguei uma Secretaria Municipal de Obras que estava desmontada, totalmente destruída, e, ao conseguirmos reestruturá-la, criamos para a cidade de Manaus um planejamento que ela não tinha. Depois, eu passei dois anos sem mandato, quando disputei eleições pelas oposições e não ganhei. Ficou a lição, esses anos me deram a oportunidade de ouvir muito as pessoas. E, como eu ouví muito as pessoas, quando chegamos ao governo, tínhamos, então, um grande planejamento, tínhamos um plano de gestão muito técnico, mas que não era acadêmico, era popular, participativo e humano. Esse é o grande segredo e o grande equilíbrio,e agora no Senado também está sendo assim. Pelo fato de ter sido governador, pelo fato de ser engenheiro, e pelo fato de ter dez anos de Parlamento, eu consigo equilibrar uma interlocução com os governadores, de um lado, e do outro com as diversas bancadas que compõem o Senado, onde eu tenho amigos pessoais. Por exemplo, eu fui governador junto com Aécio Neves e sou senador junto com ele, ele que é a principal liderança das oposições no Senado. Logo, temos uma excelente amizade pessoal. Temos posicionamentos diferentes sobre o Brasil, mas temos pontos de convergência importantes, temos uma relação pessoal boa. Da mesma forma, temos boas relações com outros líderes como Blairo Maggi, Jorge Viana, Welington Dias. Eu tenho exemplos de vida e de estilos em que me espelho, com os quais aprendo a ter inspiração e transpiração, fórmulas vencedoras de sucesso. Eu me dou muito com o Romário, grande craque, hoje deputado federal. Ele é diferenciado, ele não treinava, mas quando ele estava ali, dentro da área, ele resolvia. O Romário era diferenciado. Assim é na política, a gente tem que se dedicar e contar com companheiros batalhadores, que ajudem. Mas, você tem que ter talento para resolver as coisas na hora certa. Outro exemplo é o Bernardinho, técnico da Seleção Brasileira de Voleibol Masculino. Ele era reserva de Wiliam na Seleção Brasileira de Vôlei da década de 80, mas, como treinador, ele é um dos maiores do mundo, campeão olímpico, dono de um cartel ímpar de grandes vitórias.

Pergunta – Senador, e a política municipal em Manaus? Como o senhor vai participar do processo político em nossa capital? O senhor tem nomes para indicar?

Braga – Efetivamente minha candidatura à Prefeitura de Manaus é complexa por conta dos meus compromissos com o governo federal, que estão trazendo resultados positivos para o Estado do Amazonas., inclusive o problema da guerra fiscal que prejudicava o nosso Estado e a nossa ZFM. O que eu percebo no povo é que o povo quer um projeto para Manaus diferente do que está aí, ou seja, o povo quer mudanças. O Amazonino, falando muito francamente, tem o seu valor, já fez muito pelo Amazonas, eu mesmo já fui seu aliado. No entanto, o mundo hoje gira em uma velocidade diferente, é o mundo da informática, da cibernética, do planejamento estratégico, das novas tecnologias. Nós não vemos isso na Prefeitura de Manaus, não vemos na busca de um modelo de transporte coletivo para a cidade, na melhoria da tecnologia do trânsito. Nós somos hoje o quarto PIB per capta do país e até hoje não temos semáforo inteligente em Manaus. Vivemos ao lado do maior rio em volume d`água do mundo e mais de meio milhão de pessoas não têm água encanada em suas casas. Eu acho que há coisas que deveriam ter sido feitas e ficaram pelo caminho em Manaus. O Amazonino já foi prefeito três vezes e , se ele não fez em doze anos, não será com mais quatro anos que ele irá fazer. Com todo o respeito que eu tenho a ele, a função de prefeito não é pra ele. Talvez o Amazonino fosse um grande senador da República, pelo conhecimento que ele tem da Amazônia, já que se trata de um intelectual refinado. Mas, nas práticas de planejamento, etc, sinceramente acho que o Amazonas e Manaus precisam de novas ideias pra vencer tantos desafios. Não estou falando nada de errado, porque faço esta análise de forma honesta. Não dá mais para jogarmos fora as oportunidades. Vejam a Copa do Mundo.Deus fez com que Manaus fosse uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014. Eu saí do governo tem dois anos. E pergunto: O BRT já começou? O monotrilho já começou? O Omar, coitado, está fazendo o que pode, mas é difícil, o diálogo é difícil, eu só não quero é ser conivente com os erros que estão aí, eu tenho uma responsabilidade muito grande com o povo. Eu me preocupo com o esforço muito grande que o Omar tá fazendo, porque o Omar foi indicado por mim. O Lula queria o Alfredo Nascimento e eu fiz um esforço imenso pra mudar as coisas. Falei ao então presidente Lula dos projetos que estávamos implantando no Amazonas e que eu ia apoiar o Omar. Então, quando vejo o Omar bem avaliado, o Omar comandando as coisas, pra mim é uma satisfação enorme, porque eu não estava errado. Apostei certo, as coisas estão caminhando. O Omar não é o Eduardo Braga, ele não é igual a mim, a formação dele é diferente da minha, mas ele deu continuação aos nossos projetos essenciais. Eu não posso dizer a mesma coisa em relação ao Amazonino. Alguém consegue me explicar porque o Mercado Adolpho Lisboa está em reforma há uma década? Já fizemos a ponte sobre o rio Negro e o Adolpho Lisboa continua abandonado. Alguém consegue me explicar por que o centro de Manaus está literalmente destruído? Alguém me explica por que a sede da prefeitura está abandonada? Os camelôs não têm uma alternativa melhor de vida, a não ser um tomando o espaço do outro. Estamos falando de uma cidade que é o quarto PIB per capta do Brasil, não falamos de uma cidade pobre. Então, eu defendo algo novo, algo diferente, algo que faça bem ao povo, um nome novo, com novas ideias, que tenha compromisso com o povo. Eu tenho o maior respeito pelo Amazonino, respeito as relações do Omar com o Amazonino, mas eu não vou avalizar um projeto que não deu certo para a cidade de Manaus. Eu tenho que ter o espírito público, nem que seja para ficar sozinho, na defesa daquilo em que eu acredito. Tomara que agente possa construir uma aliança em cima de um nome novo , de novas práticas e novas condutas pessoais que possam resultar em ganhos reais para o povo.

Pergunta – O senhor já tem o nome novo em sua cabeça?

Braga – Eu não tenho um nome, tenho vários nomes, e de onde eu tiro os nomes? Eu ouço muito as pessoas, e tem alguns nomes que se encaixam dentro do espírito de pesquisas feitas junto ao povo. E uma outra questão: Olhando para o futuro, o Amazonas precisa de uma nova geração de políticos. Não podemos repetir o erro de vinte anos em que as lideranças ficaram sendo Mestrinho, Amazonino, Arthur…Depois, ficaram sendo Arthur, Alfredo, Eduardo, Serafim, Omar Aziz. Todo mundo já foi prefeito e vice-prefeito. Precisamos criar uma nova geração de políticos, competentes, comprometidos com o povo. Tenho 51 anos e já não tenho mais a força física que tinha com 33 anos. Fico imaginando o Amazonino com pouco mais de 70 anos, ele não tem mais a mesma disposição que tinha com 40 anos. E ser prefeito é ser um grande capataz. Alguns querem construir plataformas políticas em cima de relações pessoais, enquanto eu sempre construí minhas plataformas em cima de projetos para gestões comprometidas em mudar a história buscando o melhor para o povo. Foi assim que eu trouxe a Escola de Tempo integral, o ensino interativo, a política da ciência e tecnologia com a Fapeam, a política da infraestrutura e da logística satelital, gasoduto, fibra ótica, uma série de estratégias importantes. O que muda não são ônibus novos quando não há ruas para os ônibus andarem.O que muda são reformas estruturantes. Por isso, defendo um nome novo. Tomara que eu tenha capacidade para sensibilizar lideranças como o Omar, como o PT, PP, PSD, para acompanhar a gente nesse pensamento. Uma vez eu fiquei sozinho na oposição, mas o tempo mostrou que aquilo em que eu acreditava era o certo para o Amazonas. E de novo eu digo que o povo precisa de novas práticas, de um nome novo. Estou abdicando de me candidatar a prefeito porque estou numa função nacional importante para o Amazonas. Sei que a candidatura majoritária demanda muitas coisas, mas eu ainda não perdi o espírito sonhador.

Pergunta – Se o governador Omar Aziz apoiar o prefeito Amazonino Mendes, o senhor não vai acompanhar o jogo?

Braga – Eu não estarei nessa aliança. Com todas as letras, eu não estarei nessa aliança. O povo precisa de um novo paradigma na cidade de Manaus. Acho que o Amazonas não pode voltar para trás, temos grandes problemas na saúde básica, problemas para tornarmos Manaus uma cidade verdadeiramente turística, não podemos ter o Porto de Manaus entregue numa negociata que se arrasta há dez anos. Não podemos continuar com isso. Eu bato de frente com a água porque não aceito que 500 mil pessoas vivam sem água ao lado do maior rio do mundo, simplesmente porque uma empresa francesa comprou a Águas do Amazonas e seus empresários vivem roubando o nosso Estado. Não posso subir em um palanque para defender isso. Se eu tiver que voltar a vender banana, voltarei a fazer isso, mas com dignidade, com fidelidade a princípios.

Pergunta – Como o senhor vê o PIM diante da fúria avassaladora dos países asiáticos?

Braga – Acho que o PIM vai durar ainda por muitos anos, talvez não com os mesmos produtos. Porque não vai demorar muito não haverá diferença entre uma televisão, um tablet, um computador, um telefone celular. Por causa da evolução tecnológica. Tudo evolui em segundos, é a convergência tecnológica. Depois, há outro detalhe. É que alguns produtos estão se transformando em commodities, e outros produtos, como CDs, estão desaparecendo. Daqui a pouco ninguém vai comprar CD pra ouvir apenas duas ou três músicas de sua preferência. O cara vai à internet, paga R$ 3 e baixa as músicas que bem entender. A indústria de CD está prestes a acabar. Mas, há uma nova gama de produtos surgindo por aí. A tecnologia veio e descobriu a síntese química, os medicamentos alopatas. Agora, estamos entrando na era dos medicamentos da biogenética, envolvendo animais e plantas, e o Amazonas é o lugar adequado para a produção desta que será a terceira geração de medicamentos, os medicamentos da biogenética das plantas. Temos que ajustar o nosso CBA para isso, e estamos articulando esse novo CBA com o novo superintendente da Suframa, Tomaz Nogueira. Temos que transformar o CBA num Instituto de Tecnologia para trabalharmos, também, a nanotecnologia da biodiversidade. Então, a Zona Franca de Manaus, daqui a 40 anos, estará de pé acompanhando o desenvolvimento tecnológico do país e do mundo.

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