BR-319: o governo precisa ouvir mais a academia

Em entrevista ao programa “JC às 15h” do Jornal do Commercio,  o biólogo, Mestre em Ciências Florestais e Ambientais o Professor Rogério Fonseca, falou da importância do trabalho em conjunto da academia com o governo federal. O intuito da parceria é buscar soluções de desenvolvimento de infraestrutura de transporte alinhado a preservação ambiental de forma sustentável.

Ele destacou a importância de criar multi modais na região amazônica, alinhando investimento nos canais de transportes hidroviário, ferroviário e rodovias, com o objetivo de dar várias opções para o escoamento da produção local para o resto do país. Defensor de política de estado para o desenvolvimento da região, o professor falou da importância do diálogo de todas as esferas de poderes constituintes brasileiro com os profissionais técnicos da academia e área de desenvolvimento econômico e preservação do meio ambiente.

Jornal do Commercio – Para sociedade no geral qual a importância de ter uma data para lembrar sobre a preservação do meio ambiente?

Rogério Fonseca – É sempre importante destacar o seguinte, que algumas pessoas creem que essa data que nós emblematicamente criamos, não tem uma utilidade real. Mas, ela tem sim uma utilidade muito importante porque é uma oportunidade que nós, que trabalhamos com questões ambientais possamos sensibilizar as pessoas para as questões ligadas a esta grande causa, que não deveria ser uma causa exclusivamente de pessoas pessoas que trabalham em uma área ambiental, mas sim de toda a humanidade. Por isso a ONU  declarou em 1972 um dia de junho, como dia mundial do meio ambiente. Assim temos a oportunidade de poder falar um pouco dessas relações que a natureza tem conosco, por que a contrário do que muito nós imaginamos, o que está no prato de comida nosso vem do meio ambiente. Então temos que conversar sobre esses assuntos.

JC – Falando da importância da BR-319  como uma opção logística importante para o mercado interno do Amazonas. É possível colocar na balança a questão da preservação do meio ambiente e o desenvolvimento da região?

R.F- A BR-319 durante mais de uma década, ao invés de ter sido uma solução modal ela se tornou um grande problema de modal, na interpretação de grupos biocentristas. Dentro da grande questão ambiental temos núcleos profissionais que entendem do gerenciamento ambiental e sabem da importância que tem a questão ambiental e a questão do desenvolvimento. Então de um lado tem os biocentristas e de outro os antropocentristas. O que a gente precisa fazer nesse exato momento para que uma um rodovia, tão importante para fazer a ligação do nosso estado com as demais partes de nosso país. Temos que fazê-los entender que o que falta na BR-319 é governança. Sendo mais claramente, o projeto BR-319 até esse exato momento não permitiu que profissionais (como eu) pudessem fazer parte desse núcleo de profissionais atual, para poder fazer com que esse projeto seja implementado. Porque? Quando eu estou falando em governança, né? A gente tem que pensar de forma muito conglobante. Porque existem inúmeros territórios ao longo da BR-319 que são divisões políticas administrativas. Que são municípios, unidades de conservação (que muitas das vezes se sobrepõem a município), terras indígenas (que são territórios originários e indiscutíveis do ponto de vista jurídico), e é muito importante que todas essas conjunções administrativas elas recaiam no ponto só para podermos fazer uma análise de desenhabilidade. Quando se trata de BR-319, o grande paradigma a ser vencido, é que não façamos no Amazonas a mesma coisas que aconteceu em estados como Rondônia, Acre e Maranhão, aquele fenômeno conhecido como “Espinha de Peixe”: Abre um eixo rodoviário e daí se faz toda aquela abertura de ramais. Hoje se estivermos discutindo a BR-319 como projeto modal para a nossa região, com governança, assim teríamos esse projeto implementado. As questões meras ideológicas têm afetado muito a vida do caboclo amazônico.

JC –  O investimento nas hidrovias do estado e na BR-319 com um ferrovia, todas analisada com as questões técnicas, não seria o ideal para o Amazonas ganhar em desenvolvimento econômico? O que você pensa sobre isso?

R.F – Eu sou um defensor ferrenho na ideia da ferrovia. Como eu vejo a BR-319 como professor? Eu vejo a BR-319 como ferrovia aos moldes da que está sendo a transbrasiliana e a própria ferroeste do estado do Paraná. Lá no Paraná, a gente ver os trens transportando todos os recursos de produção do interior do estado para a região litorânea. E o que isso tem a dizer para a gente? Isso demonstra que, nós tivemos uma habilidade, um conhecimento e uma atitude necessária para que em um determinado tempo a gente não ficasse escravos de um único modal. Vamos ao exemplo das greves do caminhoneiro.  Não discutindo o mérito e os direitos de nossos irmãos caminhoneiros. Só falando da questão de estradas que ficaram totalmente intransitáveis devido ao fechamento dessas estradas. Cidades ficaram sem alimentação, ou seja, isso porque ficamos refém de um único modal: o modal rodoviário. Se nós tivéssemos multi modais operando na região: como rodoviário, hidroviário e ferroviário, um completando o outro. Isso não teria ocorrido. Teríamos uma conjunção de multi modais transitando em outras regiões. O custo de manutenção de uma ferrovia é de cinco em cinco anos. E o da rodovia? Ou seja, uma manutenção de uma rodovia em uma região que chove muito como a nossa é muito caro. Aqui temos volumes de chuvas que equivale a meses de chuvas em outras regiões do Brasil. Então, no único dia de chuva poderemos ter uma estrada destruída por conta disso. Solo saturado que estraga a estrada inteira. Vemos isso na própria BR-174. Isso comprova para nós que estamos no meio acadêmico, que o governo precisa ouvir mais a academia. Estamos tendo um sério problema. Nós da academia não somos 100% ideológicos. Muito de nós somos técnicos. E a gente não está sendo ouvido em várias situações. E uma delas é essa que a ferrovia é uma saída multi modal para o nosso estado.

JC – A questão ideológica dentro da academia ainda pesa e confronta com governos conservadores como do presidente Jair Bolsonaro. Como romper os muros entre academia e governo federal?

R.F – Nós que somos servidores públicos de carreira temos uma função de estado. Ou seja, porque estou falando isso? Nós não mudamos de quatro em quatro anos. A importância disso é de que as políticas que foram estabelecidas são independente do governo que estava. Nós como estado permanente, estamos fazendo com que elas sejam implementadas e chegam às pessoas que demandam de determinada política. Então, toda a sociedade brasileira deveria entender essas lógica. O servidor público não é uma pessoa que quer ter um cargo para ficar rico. Essa é uma falácia que muita das vezes as pessoas criam. Mas, falando da questão objetiva do governo federal, eu penso o seguinte: eu sou um grande entusiasta da municipalização da gestão. O que eu sempre quis ver durante a minha vida de cidadão brasileiro?  É que o município fosse algo grande em torno de gestão, o estado algo médio e a união algo menor. Em países de primeiro mundo é assim que funciona. Porque estamos falando isso? O município conhece a intimidade do território e conhece a intimidade socioeconômica da região. Muitas das vezes a gente crer, que o chefe do executivo municipal, o chefe do executivo estadual, ele que deve prorrogar sozinho o governo federal. Eu já reafirmo ao contrário, porque nossa constituição diz que o poder emana do povo, mas por meio de seu representante. E por conta dessa frase, quem são os representantes do povo na esfera Municipal? Os vereadores. Da esfera estadual, os deputados estaduais. E na esfera federal os deputados federais e senadores. hoje, emblematicamente você se sente satisfeito com a atuação deles? Eu não. O que eu vejo é que eles querem cada vez mais aparecer na televisão para dizer que estão fazendo alguma, ou justificar o salário que ganham, e muitas vezes não propõe o que o país, o estado e o município precisa em torno de legislação. Por que, como a gente sabe o executivo deveria executar as políticas propostas em lei, e o judiciário que faz uma função, que deveria ser uma função única e exclusivamente, quando provocado. É muito recente na história do nosso país que o judiciário resolveu legislar e executar. Mas não quero entrar muito nessa polêmica, que é uma polêmica sadia, que a gente começa a perceber que o pacto federativo proposto no Brasil ele foi rompido recentemente. Isso a gente tem que entender? Qual foi o motivo desse rompimento? Porque lá no artigo 23 e 24 da constituição do Brasil é muito claro qual é a função do estado, município e da união. Para ter uma ideia eu trabalho nas áreas de parque e manejo de fauna. Durante 53 anos, o Brasil não regulamentou uma lei para que o cidadão brasileiro possa acessar proteína oriunda de fauna silvestre sem ser criminalizados por órgãos de comando e controle de gestão ambiental. Na nossa região onde nós vivemos a maior extensão territorial do planeta terra com área de floresta mantida em pé, pelo caboclo amazônida, que não pode acessar de forma legal o recurso de proteína de fauna silvestre. É da ironia sádica por parte dos representantes do legislativo brasileiro de não regulamentar uma lei. eu poderia falar de milhares.

JC – Tem o que festejar no mês que se comemora o dia mundial do meio ambiente? Ou existe muito mais o que se preocupar e refletir?

R.F – Sim temos que comemorar e celebrar a vida em todo momento. O meio ambiente brasileiro é um grande protagonista na conservação da natureza no planeta terra. Nós estamos tendo alguns desvios né? Que boa parte da população não entende, a política de estado e a política de governo. Mas, a gente vai ter que ter em algum momento, como sociedade, se reorganizar e discutir isso de forma mais madura, mas principalmente, chamando os técnicos verdadeiros para fazer as coisas.

Fonte: Antonio Parente

Qual sua opinião? Deixe seu comentário

Gostou do Conteúdo? Assine nossa Newsletter

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp
Email

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email