Os protestos em apoio ao governo, realizados em todo país, no último dia 15 de março, mesmo com a ameaça do Coronavírus (COVID-19), mostrou que o presidente Bolsonaro ainda controla parcela expressiva do eleitorado e da militância. Não foi um movimento político trivial: foi, sim, uma demonstração de força que surpreendeu a todos por sua consistência e lealdade à agenda presidencial que saiu vitoriosa das urnas em 2018.

As manifestações populares guiadas principalmente pela classe média marcam uma nova fase nas lutas políticas do país, pois o que temos agora é a organização política do eleitorado conservador via redes sociais e nas ruas. A expansão do acesso às redes de internet e aos aparelhos de smartphone pode transformar definitivamente aqueles cidadãos passivos e reféns das estruturas burocráticas, partidárias e tradicionais em sofisticados cyberativistas que, engajados na luta política cotidiana, arrastam multidões por meio dos fluxos de informação da web.

A virtualização da política e todas as suas consequências – infowar, fake news, inclusividade digital, cyberativismo, entre outras tantas variedades de luta pelo poder – deram um novo contorno à nossa experiência democrática.

Desde sua longa transição, iniciada em 1985, formalizada com a Carta Magna de 1988 e concluída com a eleição presidencial de Fernando Collor em 1989, a experiência democrática brasileira passou por todas as etapas daquilo que o cientista político Bernard Manin definiu como as “metamorfoses do governo representativo”.

Na taxionomia de Manin, o sistema de governo representativo atravessa algumas fases até chegar ao sistema participativo, a saber: a democracia dos notáveis, a democracia dos partidos e, por fim, a democracia da audiência.

No primeiro caso, explica o autor, o sistema é marcado pela institucionalização de eleições periódicas, centrada na confiança pessoal do líder político que goza de inquestionável autonomia, uma vez que a opinião pública está fora do parlamento. Em outras palavras, o parlamento detém em ampla medida a capacidade decisória exclusiva, sem precisar prestar conta de suas ações para a opinião pública.

Progressivamente, num segundo momento, depois da consolidação das regras eleitorais, há uma forte partidarização do regime democrático. A megaconversão eleitoral massifica e populariza o processo político – isto é, inclui amplos setores da sociedade no processo político formal dos partidos políticos – produz programas partidários e identificação ideológica. A expansão das elites partidárias tem, portanto, como consequência, a dominação do grau de pluralismo da sociedade.

Num terceiro momento, finalmente, Manin esboça aquilo que ele denomina de democracia de audiência. É justamente nessa fase que temos a preponderância da mídia, onde representantes e representados estabelecem relações dialógicas, tendo como foco relações de confiança entre o político e seu eleitorado. O debate parlamentar move-se entre o governo e os grupos especiais de interesse, o que faz com que as relações midiáticas ganhem cada vez mais importância no jogo de poder.

Lá do fundo da sala parlamentar, lá do baixo-clero, Bolsonaro conseguiu compreender perfeitamente esse fenômeno amplo e o transformou numa síntese ideológica: o bolsonarismo. 

Em termos claros, o bolsonarismo pretende ser um fenômeno político e ideológico tão bem sucedido e duradouro quanto o lulismo. Jogando à direita, o bolsonarismo aposta alto na estratégia da confrontação, na polarização e no antiesquerdismo; radicaliza o discurso, tensiona o prolongamento da guerra cultural e a divisão sectária entre direita e esquerda, governo e oposição.

Em outra palavras, o bolsonarismo é, a médio prazo, o mais significativo teste de resistência às nossas instituições políticas.

O desprezo do bolsonarismo pelos partidos tradicionais é evidente. Afinal de contas, Bolsonaro já passou por tantos e nunca se preocupou com a criação de um para chamá-lo de seu. O descaso com uma unidade partidária é uma liberalidade que permite amplo poder de movimentação por grupos de interesse corporativistas, populares e empresariais.

Dessa maneira, o mito-partido é diluído em prol da ideia de um mito-humano, um personagem historicamente determinado capaz de se sobrepor às instituições, aos partidos, aos poderes, e a tudo o que está aí. O bolsonarismo é uma ideologia, um momento de massas e um símbolo de unificação da direita nacional.

Bolsonaro entrou definitivamente neste labirinto. E como todo labirinto, pode encontrar rapidamente o caminho ou, de repente, se perder, dando voltas e mais voltas, sem conseguir encontrar a saída… O problema de tudo isso é que o futuro do Brasil está em jogo.

*Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político

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