Bem Comum: acima das divergências

Penso que a “guerra” deve ser contra o vírus traiçoeiro, não entre nós. A humanidade toda padece com a pandemia, que não poupou pobres e ricos, no Oriente e no Ocidente, nos dois hemisférios, em países de diferentes níveis de desenvolvimento e governos de regimes diversos.

Uma das coisas que aprendi ao longo destes meses é que “ninguém é dono da verdade”, nem mesmo os mais renomados cientistas, que ainda não conseguem explicar bem certos “porquês” fundamentais, como o dos mecanismos dos diferentes graus de imunidade dos indivíduos, em que para muitos a covid 19 foi assintomática ou com efeitos leves, enquanto para outros foi devastadora. Trata-se da questão central da imunidade diferenciada, por derivação do DNA e/ou adquirida, que se relaciona com a capacidade de resistir – ou não – ao ataque proveniente das invisíveis gotículas de coronavírus.

 Nesse mesmo diapasão, a polêmica sobre “tratamento precoce”. Observo que também neste campo o paradigma de “verdades absolutas” – contra ou a favor – foge à razoabilidade. Neste momento, o uso da ivermectina na primeira fase da infecção parece ter sinais promissores, mas também hepatites medicamentosas sérias são cada vez mais presentes. Estamos falando do território da experimentação clínica de fármacos num “campo de guerra” epidemiológica global, espaço de decisão profissional e ética dos médicos, mas também, muitas vezes, de seus pacientes.

 Por outro lado, parece cada vez mais patente que a “atenção precoce e contínua” com as pessoas acometidas pela covid, com ou sem tratamento precoce, tem se mostrado positiva, destacando que tão importante quanto o tratamento hospitalar é o diagnóstico e monitoramento dos sinais da Covid desde o início de sua manifestação. Essa atenção permite enfrentar ou minorar os efeitos da doença já na primeira semana, orientando os procedimentos ambulatoriais e até mesmo hospitalares, antes do agravamento da síndrome.

Outra polêmica recorrente está centrada na palavra lockdown, muitas vezes erroneamente comparada com as recomendações de isolamento social. Na realidade há diversas graduações de lockdown. Se bem aplicado propicia, em regra, diminuição de contágio geral, mas com um relevante custo econômico e social. E seus efeitos positivos não parecem uniformes, considerando, por exemplo, os bairros mais vulneráveis de grandes cidades, como Manaus. Nesses locais, famílias grandes se aglomeram em casas pequenas. E não há como evitar que alguns de seus membros saiam de casa, às vezes interagindo em ambientes de espaço exíguo, como becos e ruelas, pequenos comércios e feiras, o que aumenta o risco de contaminação familiar. Assim, o bloqueio funciona melhor para os mais aquinhoados em renda e com habitações mais amplas em locais arejados, do que para famílias mais vulneráveis, que residem em condições precárias.

Redução de atividades econômicas e deslocamentos pode ser necessário, principalmente quando o número de pessoas que necessitam de atendimento hospitalar chega próximo da capacidade máxima das unidades de saúde. Em alguns casos, como Manaus, essa demanda transcendeu – e muito – à esta capacidade instalada! Acabou sendo indispensável recorrer ao lockdown, porque o “caos” já estava instalado e o sofrimento chegou a níveis absurdos.

No entanto, penso que a lei do bom senso não deve ser revogada pelos governantes nem pela sociedade. O egoísmo hedonista de uma parte da população, que se preocupa apenas com seus interesses e/ou prazeres, sem ter um olhar para o bem comum, atrapalha as tentativas de tornar mais suportável a pandemia. Assim, os conflitos de interesse econômico e social exacerbados por “brigas” políticas e ideológicas só atrapalham.

Uma pena que não tenhamos uma liderança como a chanceler alemã Ângela Merkel, que toma decisões compartilhadas com as demais esferas de poder em todo país, com assessoramento técnico e científico e permanente interlocução com o parlamento e a própria sociedade. Da mesma maneira, a chanceler da Nova Zelândia e líderes de outros países democráticos como Coréia do Sul, Noruega e Australia. Em todos esses países em que a pandemia foi debelada ou contida num nível de menor  impacto, a gestão epidemiológica foi efetivada sem grandes dissensos e com forte interação entre as decisões governamentais, a iniciativa privada, o setor científico e a sociedade civil em geral. Bons exemplos que deveriam ser seguidos no nosso país.

Não é tão fácil como parece. Nem tão difícil. No passado, o Brasil obteve sucessos expressivos na área de saúde, como na estruturação do PNI – Programa Nacional de Imunização, responsável pela erradicação de doenças como a poliomielite e o Programa Nacional HIV/AIDS, com os antirretrovirais. Dois exemplos de competência brasileira de referência mundial. Ou seja, nosso país não é neófito no enfrentamento de desafios de grande escala, mas infelizmente iniciativas excelentes podem ser boicotadas por interesses menores de quem busca lucro fácil ilícito ou apenas ganho político.

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