Existem pessoas que se tornam tão apaixonadas pela profissão que escolhem, que a exercem pela vida toda. É o caso do barbeiro Pedro Batista da Silva. Pedro aprendeu a fazer barba, cabelo e bigode aos 13 anos e até hoje, a caminho dos 82 anos, e gozando de plena saúde, nem pensa em parar.

Pedro nasceu no município de Maués, no beiradão do rio Mari Mari. Quando estava com 11 anos, um tio o trouxe para Manaus com as bençãos da mãe, mas contra a vontade do pai.

Em Manaus o barco que trazia Pedro e o tio atracou na ilha de São Vicente. Enquanto o tio veio pra terra, resolver um problema de saúde, o menino ficou no barco, aguardando a sua volta. Dois dias depois um amigo do tio apareceu no barco e avisou a Pedro que seu tio havia sido internado com malária, e morrido.

Esse amigo levou o menino para a sua casa onde, coincidentemente ele havia sido criado por um casal e esse mesmo casal ‘adotou’ Pedro.

“Foi esse meu ‘pai’ que me levou para o primeiro emprego, quando eu estava com 13 anos. Era pra eu ser alfaiate, mas o dono da alfaiataria só vivia bêbado e não me ensinava nada, aí ele me levou pra um salão de barbearia, na Rocha dos Santos, o Salão V8, cujo dono era o Luiz V8. Foi ele quem me ensinou a arte de cortar cabelos. Lembro dele dizendo que para ser barbeiro não bastava querer. Precisava ter dom. Me colocou do lado dele e disse: olha e presta atenção. Veja todos os movimentos que eu faço e você vai aprender. Com seis meses eu já dominava todos os cortes”, lembrou.

A Manaus daquela época, 1949, era uma cidade que teimava em não crescer. Já fazia quase 40 anos que o rico comércio da borracha acabara, e a economia não deslanchava. Ainda assim, o profissional sempre consegue trabalho.

“No Luiz V8 havia três cadeiras para seis barbeiros, e eu estava sobrando, então fui para outro salão. Por mais de dez anos exerci a profissão. Depois trabalhei num depósito dos Benchimol (1961 a 1963), ganhando mais, e fui para o Rio de Janeiro, onde atuei como barbeiro (1963 a 1966), voltei a Manaus, e continuei como barbeiro até o início da década de 1970”, lembrou.

35 anos depois
Empolgado com o sucesso da Zona Franca, Pedro abriu uma pequena loja de importados, mas fechou depois de dois anos. Foi trabalhar numa fábrica de compensados, e lá ficou por dez anos, depois mais um ano, noutra fábrica de compensados, em Itacoatiara, até resolver que seu negócio mesmo era ser barbeiro.

“Em 1982 voltei para a ativa e desde então passei pelo Salão dos Andradas, Barbearia do Porto, Tio Sam, e desde 2006 estou aqui no Salão Cristal. Nunca mais arrisquei outra atividade nesses 35 anos”, falou.
O Salão Cristal é outra relíquia histórica de Manaus, funcionando na rua Lima Bacury desde 1971, de propriedade do barbeiro Walter Amorim. Walter foi empregado no Salão Amazonas, ao lado do hoje seu, Salão Cristal.

Com 81 anos, memória em dia, pois lembra dos anos e os lugares onde trabalhou, e com a saúde em forma, Pedro não pensa em parar de trabalhar. “Até já tentei parar, mas não consigo ficar em casa sem fazer nada, e como gosto da minha profissão, vou ficando aqui enquanto puder”, garantiu.

Uma curiosidade sobre a atividade de Pedro é que ele nunca cortou cabelo de mulher. Somente de homens. “O corte é totalmente diferente, e como eu aprendi dessa maneira, nunca mudei. Até apareceram algumas clientes que insistiram para eu cortar seus cabelos, e eu tentei, mas preferi continuar no masculino”, disse.

Pedro garante que faz barba, cabelo e bigode exatamente do mesmo jeito que fez pela primeira vez, aos 13 anos. “Aparecem esses garotos, querendo fazer desenhos no cabelo, mas eu não gosto, nem sei fazer”, riu.

Importante é o profissional
No Salão Cristal, com raríssimas exceções, o tempo parece não ter passado. O material de trabalho dos dois únicos barbeiros, Pedro e Walter, é o mesmo de décadas atrás: o indefectível espelho em frente à famosa cadeira de barbeiro; tesouras dos mais variados tipos; a clássica escovinha (no formato de um pincel) utilizada para tirar os cabelos que ficam no cangote do cliente e o excesso de talco, este, outro produto que não pode faltar numa barbearia, pois aromatiza o ambiente; o pincel, propriamente dito, usado para passar o sabão no rosto do cliente antes de fazer a barba e o bigode; as gavetas das bancadas cheias de pequenas toalhas de rosto. “Mas o pulverizador mudou. Antes ele tinha uma bomba que produzia ar para o esguicho de água jorrar. Esses de agora são parecidos com aqueles de molhar plantas. E a navalha foi substituída pelo navalhete. A navalha precisava ser amolada constantemente, já o navalhete basta substituir a gilete. E tem a Aqua Velva, existente desde quando eu comecei, em 1949”, recordou.

A Aqua Velva, nas cores verde ou azul, é um perfume masculino, lançado em 1935, e desde então figura presente nas barbearias do mundo.

O Salão Cristal, com Pedro e Walter a postos, abre de segunda-feira a sábado, das 7h às 17h. “Mas a crise econômica derrubou nossa clientela. Antes recebíamos mais de 10 clientes/dia. Hoje esse número varia entre 4 e 6/dia, melhorando nos finais de semana”, acrescentou.

Sobre estar em alta, nos últimos tempos, o conceito de barbearia, Pedro falou: “para mim nunca esteve em baixa. Essas de agora têm bar, jogos, televisão e um monte de outros atrativos, mas o importante é ter bons profissionais”, ensinou.

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