Bancada evangélica no Congresso terá divisão de poder entre aliados

A bancada evangélica da Câmara dos Deputados revezará seu comando nos próximos dois anos: em 2021, seu líder será Cezinha de Madureira (PSD-SP), que carrega no nome um dos ramos mais políticos da maior denominação evangélica do Brasil, o Ministério Madureira da Assembleia de Deus.

No ano seguinte, convergindo com o pleito que poderá reconduzir Jair Bolsonaro à Presidência da República, será a vez de Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), membro da igreja do pastor Silas Malafaia, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

A decisão foi anunciada nesta quinta-feira (17) pelo atual presidente da bancada, o deputado Silas Câmara (Republicanos-AM).

“Se aceitarem a sugestão, diz amém”, ele pediu, e foi atendido pelos parlamentares presentes. Em seguida, reuniram-se para uma foto “sem máscara!”, como queriam alguns -este pedido nem todos atenderam.

A solução pôs fim ao clima de disputa que se instaurou ao longo dos últimos dias, algo malvisto na frente, que sempre escolhe seus líderes por aclamação: em vez de votar, todos entram em acordo em torno de um nome.

A eleição para o biênio de 2019/2020 foi assim, quando cinco concorrentes -entre eles Cezinha, Sóstenes e Flordelis (PSD-RJ), a deputada que caiu em desgraça entre os pares após ser acusada de tramar para matar o marido pastor- abriram mão em prol de Silas.

“Se Jesus não andou sozinho, não sou eu quem vai andar”, disse Cezinha, num aceno a Sóstenes, na reunião que se seguiu à aclamação, num dos plenários do Congresso: o Culto da Santa Ceia do Senhor. Nele havia uma mesa com pão, uva e cálices de vinho, tal qual o banquete de Jesus com apóstolos que, segundo arqueólogos, teve também de cordeiro a pasta de nozes.

Foi o primeiro encontro presencial em meses, já que os deputados evangélicos vêm realizando virtualmente as pregações que sempre aconteciam na Casa às quartas-feiras, por conta da pandemia.

A crise sanitária foi puxada por João Campos (Republicanos-GO), deputado que já havia comandado duas vezes o bloco evangélico antes do colega homônimo do PSB e agora prefeito eleito de Recife chegar à Câmara.

“A coisa mais aterrorizante que a mídia colocou neste ano, para fazer propaganda da morte, foi a pandemia”, afirmou Campos, para depois exaltar o número de infectados que se curaram em vez de focar nos mais de 180 mil mortos por Covid-19.

Um deles, contudo, foi homenageado no culto: o senador Arolde de Oliveira (PSD-RJ), primeiro congressista a morrer com a doença.

Fundador do Grupo MK de Comunicação, um dos maiores do mercado gospel, o senador de 83 anos havia criticado em abril “a inutilidade do isolamento social” adotado por “autoridades, alarmistas por conveniência, [que] destruíram o setor produtivo”. Sua morte, em outubro, foi lembrada com um minuto de silêncio.

O vírus não é bissexto entre os integrantes da frente. Cezinha foi o primeiro parlamentar a contraí-lo.

O caso de Sóstenes foi mais grave: perdeu oito quilos nos 11 dias em que ficou internado. Ele compara a “sensação da morte” que sentiu com as três vezes em que chegou a se debater na cama, tamanho o mal-estar, como os frangos degolados que via abaterem quando morava em cidades pequenas.

“Destinada a assegurar os direitos do povo cristão”, como diz seu estatuto, a Frente Parlamentar Evangélica foi instituída em 2003, quando a movimentação política no segmento ainda ganhava tração.

Um ano antes, tiveram seu primeiro candidato ao Palácio do Planalto, Anthony Garotinho (à época no PSB), cujo razoável desempenho eleitoral foi creditado ao apoio de evangélicos: 18% dos votos válidos no primeiro turno, atrás de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e José Serra (PSDB).

A atual composição da bancada tem 195 signatários, mas na prática são pouco mais de cem deputados evangélicos. No núcleo duro mesmo, que frequenta os cultos, menos de meia centena -quase todos de direita, mas há exceções, como Benedita da Silva (PT-RJ) e Liziane Bayer (PSB-RS).

Seu próximo líder seguirá alinhado a Bolsonaro, que recebeu a frente nesta quarta-feira (16), durante solenidade no Palácio do Planalto. Circula entre membros do bloco a ideia da colheita: querem agora ver a agenda conservadora avançar, após dois anos respaldando o presidente da República em outras agendas, como a econômica.

Quando Bolsonaro vetou o perdão a dívidas tributárias das igrejas, por exemplo, muitos disseram ter compreendido a postura dele e se entusiasmaram com o estímulo que o próprio presidente deu para que o Congresso derrube a decisão.

“Trabalharemos para continuar a pauta conservadora. Acima de tudo, o Brasil precisa dar certo”, disse Cezinha à reportagem. “Com certeza trabalharemos por união e paz no Brasil.”

Temas que dividem o país, contudo, continuam sendo prioritários na bancada, e aí entram aborto, questões de gênero e drogas.

No meio do culto, por exemplo, Sóstenes saiu às pressas para falar com seu colega de partido Rodrigo Maia (DEM-RJ). Um deputado postara no grupo de WhatsApp da frente que o presidente da Câmara colocaria em pauta um projeto de lei do PT para legalizar o plantio da maconha. Maia, que tenta mobilizar a esquerda para emplacar seu sucessor na liderança da Casa, negou a intenção.

“Somos alvos de pancadas, críticas e tudo o que todos já sabem”, afirmou Pastor Eurico (Patriota-PE), capelão da frente, no culto. “Mas a graça de Deus nos faz caminharmos juntos e triunfarmos.”

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