Balança comercial do Amazonas desaba sob os impactos da vazante histórica 

A vazante histórica aumentou a queda da corrente de comércio exterior do Amazonas, em outubro. A soma dos valores das exportações e importações não passou de US$ 649,08 milhões, correspondendo a praticamente a metade (47,65%) do patamar atingido no mesmo período de 2022 (US$ 1.24 bilhões). O novo tombo contribuiu para um decréscimo de 7,84% no volume de total de transações da balança comercial do Estado, no acumulado do ano, de US$ bilhões 12.63 bilhões (2022) para US$ 11.64 bilhões (2023). É o que revelam os números do Mdic, disponibilizados no site Comex Stat.

Os impactos vieram tanto das aquisições de partes e peças importadas para o PIM, que compõem a parte majoritária da balança comercial, quanto das vendas externas de manufaturados. O maior tombo do mês foi registrado justamente no modal marítimo, posto em xeque a partir da interrupção dos atracamentos de navios cargueiros em Manaus. Os valores dos embarques (US$ 184.20 milhões) caíram 75,67% em relação a setembro de 2022 e 73,72% diante de outubro de 2023. Em contrapartida, o modal aéreo (US$ 445.01 milhões) aumentou sua participação e registrou alta de 8,94% sobre o mês anterior e queda de 14,55% na variação anual.

A base de dados do governo federal confirma que as vendas externas somaram US$ 44.84 milhões e já vieram 50,58% abaixo de setembro (US$ 90.73 milhões) – que teve dois dias úteis a menos. Também ficaram 41,61% inferiores a outubro de 2022 (US$ 76.79 milhões). O mesmo pode ser dito sobre as compras do Estado. Totalizaram US$ 604.23 milhões, caindo 45,07% ante o mês anterior (US$ 1.10 bilhão), e recuando 47,91% no confronto com o mesmo período do ano passado (US$ 1.60 bilhão). Em dez meses, as importações (US$ 10.84 bilhão) se mantêm negativas em 8,70%, em sentido inverso ao incremento de 6,18% nas exportações (US$ 801,08 bilhões).

A análise trimestral, que é usada para captar tendências, também mostrou dados pouco animadores para o comércio exterior amazonense. As vendas externas ficaram em US$ 225.75 milhões no trimestre encerrado em outubro, configurando um retrocesso de 9,95% frente o acumulado de maio a julho (US$ 250.70 milhões). As importações caíram de US$ 3.44 bilhões para US$ 2.90 bilhões, indicando uma diferença de 15,70%. O confronto com o mesmo trimestre do ano passado também confirmou quedas no nível de vendas (-7,57%) e compras (-22,46%) externas do Amazonas.

Insumos e manufaturados

A lista de importados segue dominada por insumos para o PIM, mas combustíveis, minérios e manufaturados prontos aumentaram sua participação. Em outubro, ela foi encabeçada por circuitos integrados e microconjuntos eletrônicos (US$ 194.83 milhões), mas foi secundada imediatamente por celulares (US$ 50.14 milhões), platina (US$ 40.98 milhões) e óleos de petróleo” (US$ 37.69 milhões), em meio a 522 itens. Os quatro citados, no entanto, registram recuo na comparação com outubro de 2022. 

A China (US$ 178.67 milhões) confirmou liderança no ranking de fornecedores para o PIM, embora tenha desabado 62,83% na comparação com o valor de um ano atrás (US$ 480.72 milhões). Na sequência estão Estados Unidos (US$ 103.70 milhões), Vietnã (US$ 86.66 milhões), Coreia do Sul (US$ 55.65 milhões), Taiwan/Formosa (US$ 48.45 milhões), Bélgica (US$ 23.02 milhões) e Japão (US$ 15.08 milhões), entre 76 nações que vendera produtos ao Estado, no mês passado. 

Do lado das exportações, a Venezuela (US$ 16.41 milhões) continua no topo de um ranking, que no período se restringiu a 53 países, com expansão de 23,67% na variação anual. Mas, embora tenha sido liderada por concentrados, a lista de compras priorizou produtos básicos não fabricados em Manaus. Foi seguida pela Argentina (US$ 9.27 milhões), Alemanha (US$ 7.77 milhões), Bolívia (US$ 6.67 milhões), Paraguai (US$ 2.17 milhões), EUA (US$ 1.39 milhão) e Colômbia (US$ 1.26 milhão). As compras do país europeu se restringiram basicamente a ouro e itens primários, enquanto os demais compraram principalmente manufaturados do PIM.

A pauta de exportações do Amazonas foi liderada pelas preparações alimentícias/concentrados (US$ 13.12 milhões), embora o valor tenha retrocedido 34,69% no confronto com o dado de 12 meses atrás. O pódio foi dividido com ouro (US$ 7.69 milhões) e motocicletas (US$ 5.14 milhões), em um rol desta vez restrito a 303 itens. Em função da primarização da pauta e da presença de muitos produtos acabados, os próximos manufaturados do PIM aparecem na quinta, oitava e 11ª posições em diante – barbeadores (US$ 1.99 milhão), celulares (R$ 876.668) e canetas (R$ 629.957), entre outros. 

Efeito seca

Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o diretor adjunto de Infraestrutura, Transporte e Logística da Fieam, e professor da Ufam, Augusto Cesar Rocha, já havia apontado que a corrente do comércio exterior do Amazonas vinha sofrendo com os efeitos da redução dos fluxos internacionais e a volatilidade cambal. Em nova entrevista, o especialista reforçou que a seca afetou muito o PIM e que a dimensão das perdas vai comprometer o indicador anual, que apontava para um desempenho positivo. 

“Minha expectativa para os próximos meses passou a ser negativa, por conta de toda uma dinâmica de custos que foi acrescentada o problema. Todo este cenário é desolador. Precisaremos repensar com brevidade que ações serão tomadas para o fenômeno sazonal da seca. Não poderemos mais ser surpreendidos. Pelo lado das empresas, será necessário pensar em rotas e modais alternativas. Pelo lado do governo, será imperativo começar a dotar a Amazônia de hidrovias, pois hoje só temos rios, que dependem de chuvas para encher. Isso é um problema secular que precisa ser enfrentado”, frisou.

Na edição mais recente do Painel da Economia Amazonense, divulgado pelo Cieam, o contador e professor André Ricardo Costa assinalou que alguns dos maiores efeitos da seca não serão identificáveis em plataformas de dados públicas, principalmente os custos com “redirecionamento das cargas não transitadas”. “Os impactos na arrecadação variam conforme o tributo. O Imposto de Importação deve ser o de queda mais rápida. O recolhimento do ICMS deve ser afetado posteriormente. A arrecadação que sofrerá perdas definitivas será a do IRPJ [Imposto de Renda Pessoa Jurídica] do PIM”, frisou.

Em texto de sua assessoria de imprensa, o titular da Sedecti (Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Serafim Corrêa, mostrou mais otimismo. “Para 2024, se a Costa do Tabocal e a Enseada do Madeira estiverem dragadas, e se  os serviços de dragagem começarem a ser feitos já no início da vazante, não teremos mais problemas. Nem para o comércio, nem para a indústria. Por isso, buscamos manter viva a articulação com o governo federal”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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