15 de abril de 2021

Aumento do consumo esbarra no gargalo energético

A cada ano, repete-se um ciclo que o manauense já se cansou de viver: com a chegada do verão, o consumo de energia aumenta e os apagões se tornam uma constante em diversos pontos da capital

A cada ano, repete-se um ciclo que o manauense já se cansou de viver: com a chegada do verão, o consumo de energia aumenta e os apagões se tornam uma constante em diversos pontos da capital. Em grande parte, isso ocorre em função da aquecida de turbinas da indústria para atender a crescente demanda para as festas de fim de ano. É mais um obstáculo ao crescimento do setor, responsável pelo carreamento de investimentos, empregos e receitas para a economia amazonense. Somados aos permanentes gargalos de logística e transporte da região, as deficiências no setor energético amazonense constituem mais um fator do chamado Custo Brasil a comprometer a competitividade da indústria, ainda dependente do arcabouço da ZFM (Zona Franca de Manaus) para sobreviver –e permanecer– em solo amazonense. Cansadas de esperar pelo Estado, muitas fábricas não podem abrir mão de geradores próprios como um paliativo para continuar operando, mesmo diante da perspectiva de longos cortes de luz.
O aumento da demanda da indústria no terceiro trimestre é um evento sazonal e perfeitamente previsível pelas autoridades detentoras do poder decisório sobre investimentos na expansão do sistema de energia da região. Embora a Amazonas Energia tenha anunciado, no final de agosto, o aporte de R$ 300 milhões na aquisição de grupos geradores a serem implantados em duas etapas até outubro, a medida é claramente paliativa. Em especial quando se leva em conta que o maquinário está sendo destinado também ao interior, onde o problema é muito mais grave. A própria estatal admitiu, na semana passada, que o problema vai persistir pelo menos até 2014, mas ressaltou que as quedas se devem ao aumento do consumo residencial e não à demanda da indústria.

Consumidor é transformado em vilão

Por esse caminho, conclui-se que os apagões são um subproduto dos bons ventos que sopram na economia brasileira nos últimos meses, não apenas do lado da oferta, como também da procura. Diante do calor amazônico, tradicionalmente, o uso de ventiladores e condicionadores de ar é mais intenso a partir do terceiro trimestre. O diferencial deste ano é que, graças ao aumento da massa salarial e das condições de crédito ainda favoráveis para aquisição de bens de consumo, o número de consumidores com acesso a eletrodomésticos aumentou consideravelmente, elevando a demanda de energia. Os Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, formulados pela Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) e referentes ao acumulado até julho, informam que as vendas locais de condicionadores de ar de janela totalizaram 62.914 aparelhos e faturamento de US$ 17.25 milhões. Unidades condensadoras (7.724 peças) e evaporadoras (6.088) também alcançaram bons resultados no período.
O aumento das vendas é um triunfo para a indústria, cujo aumento da demanda –e também da concorrência, vale ressaltar– permite expandir a escala de produção e oferecer preços mais acessíveis. É também uma vitória do consumidor de estratos sociais mais baixos, que, graças à estabilidade econômica, está tendo condições historicamente inéditas de aquisição de bens duráveis.
A persistirem as atuais condições precárias de fornecimento de energia em Manaus, essa dinâmica fica comprometida. É razoável supor que, à medida em que o consumidor adquirir massa crítica, poderá se indagar se vale o esforço de sacrificar poupança futura para adquirir um produto que pode ser danificado por uma súbita queda de tensão. Quem já passou por isso, como muitos moradores das zonas leste e norte da cidade, sabe o quanto é difícil conseguir ressarcimento da concessionária de energia por eventuais prejuízos. O que é mais lógico: aumentar investimentos na estrutura para atender a demanda ou reduzir a demanda para adequa-la a aportes esquálidos e aquém do esperado pela sociedade amazonense. Pelo raciocínio da Amazonas Energia, que aponta o consumo residencial de condicionadores de ar como vilão na história, a solução está na segunda opção.

Falta de diversidade limita voos mais longos do PIM

Se há um consenso em torno de resultados positivos da indústria para 2010, ainda paira a dúvida sobre a continuidade do crescimento do PIM (Polo Industrial de Manaus) no médio e longo prazos. Em um cenário de provável estouro da bolha de crédito – em virtude do endividamento crescente das classes C, principal motor do consumo nacional–, das incertezas trazidas por uma nova mudança na gestão do Planalto e de prováveis turbulências no cenário econômico internacional, as incertezas crescem.
A virtual falta de diversidade de produtos do PIM, apesar do potencial regional para o florescimento de polos como o de biotecnologia, é preocupante, surge como Calcanhar de Aquiles para voos mais longos. A despeito dos esforços da Suframa e de lideranças regionais do setor, o foco das linhas de produção do parque industrial da capital amazonense ainda reside majoritariamente em bens duráveis de elevado valor agregado e excessivamente dependentes de financiamento na ponta de consumo.
Isso fica claro quando se verifica que os polos eletroeletrônico –incluindo bens de informática– e de duas rodas respondem, juntos, por 65,1% do faturamento da indústria manauense (US$ 12.09 bilhões), conforme números apurados pela autarquia federal nos sete primeiros meses deste ano (US$ 18.57 bilhões). Os dados apontam ainda que os segmentos somam 58.522 empregos, 59,13% do total do PIM no período (98.963).
Faz-se necessário aumentar o leque de segmentos atuantes no polo e cuidar para que os segmentos remanescentes não sejam erodidos por condições adversas de mercado, a exemplo do que o ocorreu com o setor de brinquedos, vítima da importação maciça de produtos importados –principalmente chineses– durante o processo de abertura econômica dos anos 1990. Nas atuais circunstâncias de dólar baixo e ausência de uma política que contemple o setor –sem cair no protecionismo, vale ressaltar–, a indústria de base (termoplásticos, mecânico e metalúrgico) é a mais vulnerável.

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