29 de junho de 2022
Prancheta 2@3x (1)

“Há de aparecer um líder, vários líderes, uma nova corrente de opinião que venha de uma educação democrática, uma educação positiva, realista, objetiva que criasse no espírito dos jovens condições para que eles assumissem o poder.” Os versos de Carlos Drummond de Andrade ilustram paradoxalmente uma utopia e um fato. A participação de jovens nos assuntos da política nacional e internacional é tema de fundamental importância nas sociedades modernas fundadas em regimes democráticos. É no nosso tempo que as diferenças geracionais entre jovens e adultos na esfera pública se estreitaram e, em certo sentido, reduziram as diferenças na questão do recrutamento, assimilação e participação dos jovens nas organizações políticas e nos quadros partidários. A relativização do conflito geracional é uma característica em si marcante no fortalecimento do grau de participação política e abriu possibilidades para o maior engajamento dos jovens nos processos decisórios.

A participação precisa, contudo, ter método, consistência teórica e senso prático. Nada se cria sem a devida experiência e aprendizado contínuo, como bem explanado pela ratio studiorum, o método pedagógico dos padres jesuítas. É por isso que devemos ter me mente que a formação política depende fundamentalmente do estudo sistemático, do desenvolvimento técnico e da orientação profissional com qualidade. Ao mesmo tempo em que a política se amplia e incorpora novos atores, é perceptível o seu nível de especialização. A política moderna tornou-se uma sofisticada tecnologia social que conta com um eficaz aparato de comunicação, propaganda, organização, financiamento etc. Ou seja, as democracias alargaram as margens de participação e inclusividade, bem como definiram parâmetros constitucionais e políticos do que chamamos de Estado Democrático de Direito.

Assim, pode-se dizer que o universo das democracias apresenta duas grandes tendências. A primeira é a liberalização e institucionalização na qual as instituições ganham relevo e importância. Já a segunda é caracterizada pela inclusividade e participação popular num contínuo processo de legitimação e soberania. Em poucas palavras, podemos entender o regime democrático pleno como um sistema satisfatoriamente institucionalizado e inclusivo que permite, possibilita a incentiva de modo amplo a participação de todos os cidadãos de todas as gerações no processo político. Como um país ainda jovem, o Brasil precisa mais do que nunca de participação e representação da juventude na política. O aumento da quantidade de jovens nos movimentos sociais e na militância dos partidos políticos é uma condição precípua para qualificarmos e educarmos a elite política de amanhã.

A estrutura do ensino médio anterior à reforma, bem como a atual, não contemplam nos seus fundamentos curriculares temas específicos de formação política para a cidadania – muito menos aqueles relacionados ao estudo da política internacional ou diplomacia. As estruturas curriculares de Filosofia, Sociologia, História, Geografia, por exemplo, abordam temas relacionados à política e à cidadania de um modo geral. Porém, acreditamos que a formação política, em si, deva ser de responsabilidade da sociedade civil, sobretudo dos partidos políticos que já recebem dinheiro do fundo partidário e, por isso, devem assumir esta responsabilidade. São os partidos que treinam e direcionam a sua militância para a atividade fim da política. Além dos partidos, movimentos sociais são importantes elos de formação política dos jovens. Movimento Brasil Livre (suprapartidário), União da Juventude Socialista (PCdoB) ou Juventude da Social Democracia (PSDB), por exemplo, são canais importantes de socialização dos jovens na política. Outros partidos possuem escolas de formação exclusivamente para jovens que desejam participar da vida política.

O ativismo jovem na política internacional é, hoje, uma bem-vinda realidade. As redes sociais ajudaram a deslocar o eixo da política internacional para as novas plataformas digitais. Tal mudança foi fundamental para a construção de uma identidade internacional cada dia mais engajada nas agendas internacionais, como questão ambiental, direitos humanos, saúde pública, assistência humanitária, educação etc. A liberalização e inclusividade da ordem internacional deram as condições para a consolidação de uma diplomacia civil.

Por fim, o papel da diplomacia civil permite criar canais de interseção entre a sociedade civil e os governos em uma estrutura de governança global. Afinal, a diplomacia civil permite, entre outras coisas, promover e incentivar a participação de jovens líderes, profissionais liberais e inovadores. É um elo fundamental para a inovação educativa e profissionalizante à medida que propicia a o desenvolvimento humano e a troca de experiências internacionais. Cria um programa de cooperação e capacitação entre jovens lideranças, os regimes e as organizações internacionais. Por fim, mas não menos importante, faz com que a internacionalização se torne um incentivo, um ganho humano e uma direção profissionais para os futuros líderes.

Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político e professor de política internacional do Diplô Manaus (curso preparatório para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata)

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