27 de maio de 2022

Atividades de bem-estar se alastra na zona Leste de Manaus

Refletores ligados, areia e suor na testa do lado de dentro. Olhares fixos, tensão e gritaria de fora. Para entender o que está acontecendo, só conquistando um espaço no concorrido gradil, cercado de espectadores concentrados. A tranquilidade fica por conta de algumas mulheres e crianças sentadas nas pequenas arquibancadas. Mas todas as atenções estão voltadas ao campo de terra. A competição? Futebol, das mais variadas categorias. Do juvenil ao master. O local? Depende. Essa atmosfera pode ser encontrada no Campo do Soldado, da Liga do São José 1, do Bahia, do Florestão, do Teixeirão e muitos outros campos da zona Leste de Manaus, onde as noites de jogos lembram o clima de Copa do Mundo.

Cada campo tem sua liga, com times do bairro ou de fora, sempre bem-vindos. Do sub-17, passando pela categoria principal até o campeonato dos cinquentões, torneios premiam de troféus a valores em dinheiro de R$ 20.000. A verba depende sempre do número de inscritos e apoio de padrinhos, de empresários a políticos. Nas camisas dos times, vereadores e deputados ganham publicidade, como patrocinadores. Não é por acaso. Dia sim, dia não, uma parte influente e considerável da comunidade se reúne para torcer nos campos.

Mas há também aqueles que usam esses espaços para aliviar a tensão. Em paralelo ou em horários alternados, um público com maior predomínio feminino busca manter a forma física, perder peso e aliviar o stress através da zumba. É assim nos campos, mas também em praças e na Bola do Produtor. Isso mesmo. A rotatória da antiga Grande Circular que marca os limites entre os bairros Jorge Teixeira, Novo Aleixo e Cidade de Deus recebe um público fiel e volumoso de segunda a sexta-feira.

Em dezembro de 2021, o Dança para Todos, criado pelo professor de educação física Márcio Prata, completará nove anos como a atração mais conhecida -e no local mais inusitado -das noites da zona Leste. “Comecei com quatro alunos. No segundo mês, foram mais de 40. Nosso público, em média, por aula, é de 600 pessoas”, estima Márcio, que mantém o projeto através de pequenas colaborações dos participantes. 

E a ocupação da Bola do Produtor não parou por aí. Além daqueles que buscam se exercitar através da dança, passaram a se reunir ali ciclistas, skatistas, religiosos, capoeiristas, funkeiros e jovens das mais diferentes tribos de rock, como o universitário Ausberto Silva, 21. “Antes o pessoal se reunia no Largo (São Sebastião, no Centro). Agora, vem para cá gente do Cidade de Deus, do Armando Mendes. Aqui é muito acessível”, explicou.

Essa reunião das mais diferentes vertentes atribui à localização o principal fator de ocupação da bola, a despeito do trânsito intenso da avenida Autaz Mirim. “É meio complicado, mas já criou-se uma cultura de quando as pessoas vão passar, o pessoal para. Nunca tivemos acidente, nada disso”, garantiu Márcio.

Depois de um dia intenso de trabalho, o espaço público, destinado ao esporte ou não, é destino certo de quem dá rosto, voz e personalidade à zona Leste. Seja o famoso rolê entre estudantes -que antes era na zona Sul -, seja na competitividade de um torneio em campo de areia até o público mais variado dos passos aeróbicos da dança rítmica, a população busca nas ruas o lazer como equilíbrio aos desafios pela sobrevivência no cotidiano.

Campinho, torcida e lazer

Liga do Campo do Soldado atrai muitos torcedores fiéis – Foto: Divulgação

Mineiro de Betim, João Batista Alves, 55, tem história para contar. Partiu para o México em 2004 para tentar entrar nos Estados Unidos de forma clandestina. Conseguiu. Trabalhou como pedreiro na Flórida, onde sentiu o impacto da queda do mercado imobiliário, em 2008. O jeito era voltar ao Brasil. Manaus foi escolhida como destino, mais precisamente o bairro Coroado, Conjunto Ouro Verde, onde se tornou presidente da liga do Campo do Soldado.

Em noites de jogos decisivos, a rua Luís Corrente acumula carros estacionados. Atletas e torcedores de toda Manaus estão envolvidos nos campeonatos, de categorias principal a máster. No meio, é comum identificar jogadores profissionais reconhecidos do Campeonato Amazonense. “Sempre quando eles não estão jogando, representam os times aqui do campeonato amador”, revela João, que no bairro é conhecido mesmo como Mineiro.

O espaço na localidade vai além do campo, mas se resume apenas ao terreno, onde eventualmente acontecem shows e, três vezes por semana, aulas de Zumba que atraem grande parte dos comunitários. Em noites de jogo, a praça esportiva se torna o grande ponto de encontro do conjunto, com espectadores, alunos da dança rítmica e atletas. 

Na gerência das competições, Mineiro tem a satisfação pessoal de envolver a comunidade e a pessoal de desenvolver o que admite ter como deficiência: a leitura. “Foi nos campeonatos que comecei a trabalhar a minha leitura. Meu grau é bem baixo. Nesse envolvimento de súmulas das partidas, eu me desenvolvi muito. Foi uma aula, um aprendizado”, avalia. 

O Narrador oficial da comunidade

Silva Júnior, narrador do Campo do Bahia – Foto: Divulgação

Uma boca de ferro, dois auto-falantes, um amplificador ligado a uma bateria emprestada do carro do pai de um amigo -sem ele saber -e um telefone improvisado como microfone. Conectando tudo numa verdadeira gambiarra, Francisco Santos da Silva narrou uma pelada em campo improvisado atrás do Hospital João Lúcio, no bairro São José Operário, em 1999. Ali, nascia Silva Júnior, ou Borracha, como é conhecido o narrador das comunidades.

Hoje, aos 48 anos, Silva Júnior é comerciante e motorista de aplicativo nos dias de semana. De sexta a domingo, ele pausa as vendas, interrompe as viagens para dar protagonismo ao que mais ama: transmitir emoção por meio da voz. Por jogo, ele fatura entre R$ 200 e R$ 300, geralmente em partidas decisivas, como semifinais e finais. “Fazia até cinco jogos por final de semana. Saía de um (campo) para o outro, numa correria constante”, detalhou.

Morador do São José, tem como principal local de trabalho o Campo do Bahia, espaço que conta com quadra, academia ao ar livre, ponto comercial, Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e o campo de areia. Como diferencial, o espaço conta com uma cabine própria para as transmissões, onde Borracha pode trabalhar com uma estrutura incomparável àquela da primeira experiência, há 22 anos.

“Sempre fui apaixonado pelo rádio. Ficava fascinado com as transmissões. Até hoje assisto os jogos pela TV, mas não abandonei o radinho de pilha”, admitiu. A magia que encantou Silva Júnior é repassada aos apaixonados pelo futebol no São José, onde a pequena arquibancada e o gradil são disputados pelo público. Dentro de campo, um gol narrado para toda comunidade ouvir tem valor especial, o que faz dos finais dos campeonatos da Liga Esportiva do São José 3 eventos imperdíveis.

Jogos da comunidade fazem sucesso

Jogadores reservas se aglomeram para assistir a partida decisiva no Campo do Bahia – Foto: Divulgação

A pandemia de Covid-19 afastou o público dos estádios no futebol profissional. No universo amador da periferia de Manaus a situação não foi muito diferente. Independente disso, o supervisor de serviços gerais Wellington Silva, 33, criou uma página do Campo do Teixeirão no facebook em abril deste ano, com o objetivo de divulgar as competições e eventos no local. Foi então que veio a ideia de transmitir os jogos, ao vivo, e receber uma surpreendente audiência de amigos do Jorge Teixeira e até de outras cidades.

Nas lives, Wellington é narrador, comentarista e torcedor, com muita irreverência. “Olha o tamanho desse campo aqui, meu irmão. Ontem, brincamos aqui com os caras e perdemos de 6 a 0”, comentou aos risos durante a transmissão de um evento em homenagem ao Dia das Crianças, onde centenas delas ocupavam o Teixeirão para soltar pipa, na noite do dia 10 de outubro.

“O pessoal sempre interage, está conversando. Eles gostam da transmissão. É mais para divulgar o campo que eu gosto, né? Sempre gostei de fotografar, filmar. Tenho ambição em aprender mais sobre isso”, admitiu. Wellington afirma que o interesse em transmitir as partidas é 100% pessoal, mas que depois recebeu o apoio da Liga responsável pelo campo.

Carinhosamente conhecido como Silvio ‘Doido’, o assessor parlamentar Silvio Cardoso, 57, é o principal gestor do espaço, que conhece desde quando ele era “nada”, até começar a receber os festivais folclóricos, há 22 anos. Hoje, se celebra uma praça esportiva com bebedouro, ponto comercial, brinquedos para crianças, quadra de vôlei na areia e gradis e arquibancadas revitalizadas. “Não tinha nada de criança aqui. Hoje, temos dois projetos de escolinha de futebol”, disse.

Foto/Destaque: Divulgação
Reportagem de Bruno Tadeu

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