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Ata do Copom indica caminhos que podem reduzir a margem de recuperação da indústria amazonense

Economistas ouvidos pela reportagem do Jornal do Commercio se dividem em relação à ata do Copom. O Comitê de Política Monetária se mostra preocupado com as expectativas de inflação acima da meta e, em meio a um cenário macroeconômico mais desafiador do que o previsto anteriormente, não prevê novos cortes na taxa Selic no curto prazo. Para os membros do colegiado, a extensão e a adequação de ajustes futuros na taxa “serão ditadas pelo firme compromisso de convergência da inflação à meta”.

O único consenso entre os economistas é que, por ter seu PIB lastreado pelo PIM e pelo consumo interno, o Amazonas tende a se mostrar mais vulnerável diante de um cenário de retomada da contenção monetária, com impactos disseminados em toda a atividade econômica estadual. Os indicadores mais recentes do IBGE sinalizam uma retomada para a indústria, que avançou 4,4% no primeiro trimestre, sendo acompanhada por comércio (+4,3%) e serviços (+5,5%). Os números de abril (-10,9%, +3% e -2,6%, respectivamente), contudo, sinalizam perda de fôlego.

A ata frisa que as projeções para o IPCA divulgadas no último Relatório de Inflação do BC, em março, apontariam para uma diminuição da inflação em ritmo mais lento em 2024, pressionado pela alta dos preços de alimentos e combustíveis. Os possíveis motivos da recente “desancoragem das expectativas de inflação” seriam a piora do cenário externo; os recentes anúncios de política fiscal; e a percepção de agentes econômicos acerca do compromisso da autoridade monetária com o atingimento da meta ao longo dos anos. 

O Comitê reconhece que o cenário do mercado de trabalho e a atividade econômica brasileira apresentaram um desempenho mais dinâmico do que o esperado no primeiro trimestre de 2024 –impulsionado principalmente pelo setor de serviços. Por outro lado, destaca que a conjuntura sugere menor elasticidade do “hiato do produto (capacidade ociosa da economia)” à política monetária. Também alerta para riscos inerentes ao “esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal” e ao “aumento do prêmio de risco” arbitrado pelo mercado financeiro.

“Cautela e incerteza”

O vice-presidente do Corecon-AM, José Altamir Cordeiro, avalia que a decisão de suavizar a queda da taxa de juros com um corte de 0,25 ponto percentual, e não com o a redução de 0,50 p.p. empregada até aqui, aponta para uma preocupação com os cenários econômicos externo e interno. E acrescenta que os focos desses temores podem impactar a economia brasileira em geral e a amazonense em particular, “caso não sejam levados a sério”.

“Há uma apreensão com a flexibilização dos juros americanos e a taxa de inflação americana. Em relação ao cenário interno, temos a inquietação com a meta fiscal e as reformas estruturantes, que precisam ser feitas para que o país consiga seguir em busca do crescimento sustentável. Mesmo que a decisão tenha sido dividida, há consenso que existem preocupações que devem exigir cautela das autoridades monetárias. O PIM depende muito do aumento da atividade econômica e dos empregos”, ponderou.

Na mesma linha, a ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, concorda que o cenário é de expectativa de inflação acima da meta e de “descontrole dos gastos públicos”, e que a conjuntura sinaliza um breque no atual ciclo de cortes da Selic. A economista concorda que o cenário global inspira “cautela e incerteza”, mediante a continuidade dos conflitos no Oriente Médio e na Europa, assim como o “baixo desempenho da economia americana”.

Outra variável a ser levada em conta vem dos impactos econômicos causados pelas mudanças climáticas, tanto em âmbito mundial, quanto nacional. “O desastre ambiental causado pelas fortes chuvas no Rio Grande do Sul tende a impactar no abastecimento de produtos alimentícios e que compõem a cesta básica. Isso pode causar uma elevação de preços a ser observada nos próximos levantamentos do IPCA”, conjecturou.

Michele Lins Aracaty e Silva entende também que a interrupção na queda da taxa de juros também poderia elevar a preocupação entre as empresas do PIM. “Os produtos fabricados no Parque Industrial da Zona Franca são demandados por um mercado extremamente sensível e uma taxa de juros elevada contribui significantemente para a redução da demanda pois o crédito fica mais caro. Crédito mais caro afugenta o consumidor e retarda a decisão de investimento por parte do empresário, reduz as vendas no comércio e impacta negativamente no setor de serviços e na demanda por mão de obra”, alertou.

“Momento de estimular”

O conselheiro do Corecon-AM, consultor econômico, e titular da Secretaria Adjunta de Povos Originários e Mudanças Climáticas da Prefeitura de Presidente Figueiredo, Inaldo Seixas, destaca que a decisão do Copom sobre a Selic não foi unânime e que a ata anterior indicava um novo corte de 0,5 p.p. “Aqueles que isso, alertavam para os custos de oportunidade e o custo reputacional. Disseram que, para ter credibilidade nas comunicações futuras do Copom, deveriam seguir a orientação. Os que divergiram argumentaram pela situação do mercado”, comentou.

O economista observa que o Federal Reserve, cujos movimentos são sempre levados em conta pelo BC, tem suas arbitragens de juros amparadas não apenas pela inflação, mas também pelo compromisso com o pleno emprego. Argumenta também que o IPCA caiu de 10,01% para 5,8% entre 2021 e 2022, menos pela política monetária e mais pela regularização das cadeias produtivas globais, no pós-pandemia. “A expectativa deste ano é que o IPCA fique em 3,5%, pouco abaixo da meta que é de 3%”, completou.  

Seixas considera que “incertezas subjetivas” não justificam reduzir o ritmo da redução dos juros. “Acho que dava para aguentar umas duas ou três reuniões, pois ainda estamos com juros reais acima de 7%. A inflação segue reduzindo, só que em um ritmo mais lento, porque partiu de um patamar muito elevado. Temos ajuste de produção com auxílio da política monetária e a entrada de muitos investimentos estrangeiros, favorecendo a manutenção de um certo equilíbrio do dólar. O país precisa reduzir o custo dos financiamentos, para manter o crescimento e diminuir a pobreza”, defendeu.

Em sintonia, a consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, também questiona o diagnóstico e o prognóstico do BC. “Sempre vai ter essa justificativa do cenário internacional, que não está de todo modo errada. Mas, a gente não pode esquecer que o Brasil pratica uma das maiores taxas de juros do mundo. A nota cita a taxa dos Estados Unidos, mas os juros daquele país ficam lá embaixo”, justificou. 

A economista argumenta também que os cortes paulatinos da Selic realizados desde o ano passado geraram uma “pequena recuperação”, com melhores indicadores de empregos, produção e vendas. “Fica contraproducente você manter uma taxa de juros alta em função da geração de empregos e renda. Isso significa restringir consumo e estimular poupança. A atividade econômica tem de crescer, mesmo sob o risco de uma inflação, que não será galopante, mas pequena. O momento é de estimular o PIB, não frear”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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