18 de abril de 2021

Telhas contam histórias, principalmente as dos casarões antigos de Manaus que, aos poucos estão ruindo, levando junto suas coberturas de barro.

Os oleiros portugueses José de Souza Grillo e Manoel de Souza Grillo chegaram a Manaus, vindos da cidade de Braga, possivelmente no início do século passado. Trabalhando no seu ofício, os primos empreenderam no ramo por décadas e as telhas fabricadas em suas olarias cobriram os casarões de Manaus por mais de meio século. Agora, através de um neto de Manoel, algumas dessas telhas estão se tornando peças de coleção e a história dos empreendedores sendo conhecida.

“Nossa família achava que eles eram irmãos, mas depois de eu vasculhar alguns documentos descobri que eram primos”, contou o professor de História, Maurício Gonçalves Grillo, o neto de Manoel.

Mesmo pesquisando a vida do avô, Maurício não conseguiu descobrir o motivo de sua vinda para Manaus, mas soube, através da internet, que existem mais membros da família Grillo em outros estados.

“O certo é que ambos eram oleiros e montaram suas olarias aqui no bairro de Aparecida, quase no início da Leonardo Malcher. Tudo começou com a Olaria Cachetas, pertencente a Bento Domingos Cachetas. Documento de 1894 mostra Bento comprando o terreno onde construiria sua olaria”, contou.

Anúncio no Jornal do Commercio, de 1917, já mostra José Grillo como proprietário da Olaria Cachetas e documento de 1929 atesta que Manoel Grillo adquiriu esta empresa, possivelmente criando o nome de fantasia Fábrica Cachetas.

No início da década de 1930 Manoel casou com a também portuguesa Emília de Paiva e tiveram três filhos: Flávio (1933); Jorge (1935), pai de Maurício; e Celina (1937).

“Não sei quando foi fundada a Fábrica Cachetas, mas na telha mais rara que eu tenho consta o ano de 1949, além de ser a única que consta seu nome: Manoel S. Grillo”, disse.

A telha maia rara, com o nome de Manoel e o ano de fabricação

É aí que começa a história das telhas do professor.

Formando a coleção

Em 2010, caminhando pela rua Ferreira Pena, próximo à praça da Saudade, Maurício viu uma casa sendo restaurada e várias telhas retiradas, estavam na calçada prontas para serem jogadas fora. Ele pegou uma das telhas onde constava a gravação ‘Fábrica Cachetas’. Foi então que o professor percebeu que o passado e a história da olaria de seu avô estavam sendo apagados com aquela atitude.

“Aí tudo passou a acontecer naturalmente. Andando pelas ruas do centro antigo, não raro passei a encontrar telhas jogadas fora e quando ia verificar, tinham a marca da olaria do meu avô, e a do primo dele”, falou.

E assim Maurício foi formando sua coleção: achou outra telha na rua Henrique Martins, num casarão em frente ao Sesc; a sua irmã achou mais uma na rua Visconde de Porto Alegre que, apesar de ser distante do Centro, possui vários casarões antigos; e o mais novo achado aconteceu na rua Itamaracá, há três semanas.

“Esta foi encontrada dentro do antigo bar ‘O Regedor’, que está fechado e quase desabando, mas um anúncio do início do século passado registra que era um bilhar e botequim: ‘uma das primeiras casas do gênero’, afirmava o anúncio. Fica exatamente atrás do terreno onde um dia existiu a casa (demolida em 1960 devido estar desabando) na qual o presidente João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, oficialmente criou a província do Amazonas”, revelou.

Atualmente Maurício possui sete telhas, cada uma com uma inscrição diferente, tanto da Fábrica Cachetas quanto da Olaria Grillo. A mais recente, que ele considera a mais rara, tem até uma similar pregada próxima ao altar externo da igreja de Aparecida.

“Um dia o padre mandou retirar todas as telhas de barro da igreja, substituindo-as por telhas de alumínio. Eu as encontrei na lateral da igreja, empilhadas, um monte. Quis uma e me venderam por um real”, riu.

“A igreja de Aparecida tinha um pequeno museu e um exemplar similar dessa telha estava exposto nesse museu, mas inexplicavelmente o espaço foi desativado. Qual não foi minha surpresa quando um dia passando pelo local vi a telha fixada próxima ao altar externo. Ainda está lá não sei até quando”, lembrou.

Nunca se entenderam

Voltando aos dois primos Grillo, por motivos desconhecidos, José, que começou trabalhando com Manoel, se separou do primo e abriu a Olaria Grillo, do outro lado da rua, bem em frente à Fábrica Cachetas. De acordo com familiares, os dois nunca se entenderam, certo é que as duas olarias passaram a ser concorrentes. José morreu em 1945 e a família manteve a empresa em funcionamento.

“Meu avô morreu em 1953, mas minha avó Emília e os filhos continuaram tocando o negócio, e muito bem. A família chegou a ter imensos terrenos em Manaus e nas proximidades. O barro para a olaria vinha, em barcos próprios, de um terreno que eles tinham no Cacau Pirêra. Paravam aqui na beira e o barro era trazido para a olaria”, informou.

“Quando eu era menino ia à Fábrica. Era um prédio imenso, com telhados de duas a quatro águas, cobertos pelas telhas que fabricavam, e cinco fornos produzindo telhas, tijolos, canos de esgoto, cerâmicas, pias, vasos sanitários, vasos, e outros objetos.

Atualmente, não mais existe vestígio algum da Olaria Grillo, enquanto da Fábrica Cachetas restou apenas a fachada do prédio, com o nome no alto. A Fábrica Cachetas foi vendida em 1980, após a morte de Emília, e a Olaria Grillo fechou poucos anos depois.

Fachada, só o que restou da Fábrica Cachetas

“Enquanto eu encontrar telhas da fábrica de meu avô e do primo dele, jogadas pelas ruas, vou guardando. Infelizmente elas representam não só o fim de suas histórias enquanto empresários, mas da história da própria cidade de Manaus”, lamentou Maurício.      

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