As ruas da liberdade do Amazonas

Praticamente ninguém sabe por que as ruas 24 de Maio e 10 de Julho têm estes nomes com datas, e olha que elas marcam datas bem significativas para Manaus e o Amazonas, no primeiro caso a libertação dos escravos na cidade, e no segundo, a redenção dos cativos em todo o Estado, então província, através do Auto de Declaração de Igualdade de Direitos dos Habitantes da Província do Amazonas assinado pelo governador, na época presidente, Theodoreto Carlos de Faria Souto, em 1884, quatro anos antes do resto do país.

Theodoreto Souto era cearense e governou o Amazonas de 11 de março a 12 de julho de 1884. Seu interesse era promover a libertação total dos escravos em 5 de setembro, data maior do Amazonas, mas quando soube que havia sido afastado do cargo pelo ministro dos Negócios do Império após libertar os escravos em Manaus, apressou-se em assinar o Auto de Declaração, indo embora da capital amazonense. No dia 13 de julho o jornal ‘O Liberal’, de Belém, noticiou a sua passagem por aquela capital rumo à corte, no Rio de Janeiro.

Outro símbolo que marca a data de 10 de julho (esse é que as pessoas desconhecem mesmo o significado, apesar de seu gigantismo) é o quadro ‘Redenção do Amazonas’, imenso, mede 6,65m x 3,65m, pintado pelo pintor, escultor, desenhista, caricaturista e escritor paraibano Francisco Aurélio de Figueiredo e Mello, exposto no hall da Biblioteca Pública há mais de cem anos. O quadro foi pintado em 1888, mas no alto de sua moldura está aposto o símbolo da república brasileira. Na Amazônia, ‘Redenção do Amazonas’ só perde em tamanho para ‘A conquista do Amazonas’, de Antônio Parreiras, que mede 8m x 4m, e está exposto no Museu Histórico do Estado do Pará, em Belém.

A título de curiosidade, Aurélio de Figueiredo é irmão de Pedro Américo, autor de outro quadro gigante no tamanho e no valor histórico, ‘Independência ou morte’, que mede 7m60 x 4m15, e está exposto no Museu Paulista da USP.

No mesmo lugar

“Quando visitei a Biblioteca Pública pela primeira vez, há quatro anos, assim que deparei com o quadro, em sua posição de destaque e tamanho imenso, fiquei admirado pela sua magnitude”, recordou Adriel França, autor do projeto ‘Guerreiros do Amazonas’.

“A partir de então comecei a pesquisar sobre sua história e curiosidades que o cercam e fui descobrindo pequenos detalhes. Uma foto antiga de quando o presidente da república Nilo Peçanha (1909/1910) esteve em Manaus, em visita à Biblioteca, mostra ao fundo um quadro onde aparece o Marechal Deodoro, que hoje está no Museu Tiradentes, e uma parte do ‘Redenção do Amazonas’, ou seja, já estava lá no mesmo lugar. Pesquisando, descobri que o quadro está lá desde 1907”, disse.

Uma tabuleta na parte inferior da moldura tem as inscrições: ‘Lei Áurea votada pela Assemblea do Amazonas em 24 de abril de 1884 – Redempção total da província em 10 de julho de 1884’.

“De acordo com o livro ‘Síntese da História do Amazonas’, de Antonio Loureiro, a data de 24 de abril se refere à liberação pelo governo de 300 contos para a alforria de escravos existentes em Manaus. Um mês depois, Theodoreto assinou a lei dando-lhes a liberdade”, disse.

“Na parte superior da moldura, em destaque, o símbolo da república, apesar de o quadro ter sido pintado um ano antes da proclamação, mas só chegou a Manaus após esse acontecimento e trazendo a propaganda do novo governo”, revelou.

Adriel ainda descobriu outros quadros de Aurélio de Figueiredo existentes em Manaus.

‘O banho de Ceci’, de 1888, exposto na Pinacoteca; retratos da princesa Isabel e de D. Pedro II, também de 1888, expostos no Igha; e ‘O último baile do Império – Baile da Ilha Fiscal’, de 1903, este, um estudo em versão menor do original existente no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Em Manaus, o quadro está na Pinacoteca. Aurélio de Figueiredo visitou a capital amazonense por três vezes entre fins do século 19 e início do 20.  

Descrevendo a obra

O quadro ‘Redenção do Amazonas’ pode ser dividido em quatro composições. Na primeira delas, no lado esquerdo, um negro, enrolado numa bandeira branca onde está escrita a palavra ‘Redempção’ como que agradece aos brancos a concessão da liberdade. Ele está junto a uma indígena toda paramentada com cocar, brincos e colares. Estranhamente esta composição foi pintada com tinta escura, mal dando para distinguir os detalhes.

Na segunda composição um homem parece ser um mercador de tecidos, vasos e bandejas importados. Na caixa ao seu lado a palavra Amazonas e M, possivelmente de Manaus, dão a entender que aqueles produtos chegaram para serem comercializados aqui. Ao fundo, um barco, talvez o navio transatlântico que o trouxera.

A terceira composição é a mais alegre e festiva. Tem muita claridade, incenso no ar e música. Várias mulheres brancas representam as artes, escultura, música, pintura, literatura. Seu caminho é florido.

A quarta composição é a mais enigmática. Um velho de barba e cabelos longos e brancos parece escrever e produzir textos logo repassados para uma jovem com roupas humildes, uma empregada, que os levará para a máquina impressora. Em seguida, uma criança nua distribui os impressos, com a palavra Boletim no alto.

Fonte: Evaldo Ferreira

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