‘As pessoas têm que estar em pé dentro das florestas’, diz Luiz Castro

O advogado e consultor Luiz Castro, ex-deputado estadual, afirma que o combate à pandemia teve muitas falhas, não só no Amazonas, como em todo o Brasil. Ele não culpa só o atual governo pelo caos que mergulhou o Amazonas na mais severa crise sanitária em toda a história do Estado.

O ex-deputado ressalta que a precariedade na área de saúde vem de muito longe. E envolve gestores que se revezaram no poder ao longo de anos, décadas, preocupando-se apenas em aumentar seus cacifes políticos para vencer as eleições.

“Os governantes têm que pensar nas próximas gerações, criando condições para uma melhor qualidade de vida à população. A corrupção precisa acabar. O dinheiro não é dos gestores, e sim do cidadão que paga regularmente seus impostos”, diz.

Com contrato com a FAS (Fundação Amazônia Sustentável), Castro ressalta que a instituição não só está envolvida em manter a floresta em pé, mas também desenvolve iniciativas que gerem empregos e renda aos ribeirinhos.

“O caboclo, o ribeirinho, precisa também ficar em pé, ter forças para trabalhar, mas para isso temos que criar condições para um desenvolvimento sustentável que beneficie tanto o meio ambiente quanto as pessoas”, acrescenta.

Não só sofrimento, dor, angústia, observa-se nesse cenário tão trágico de Covid-19, mas uma lição de todo esse drama humano converge agora para profissionais mais humanizados, com maior dedicação de médicos aos seus pacientes, avalia Castro.

“Todo esse legado servirá de aprendizado para as próximas gerações. Aprendemos no sofrimento, na dor e no amor”, diz.

Luiz Castro defende o fim do paternalismo do poder público. Para ele, o Estado passou a ocupar o lugar dos velhos patrões seringalistas que proviam de tudo, deixando as pessoas dependentes da ajuda do governo.

“Hoje, as prefeituras são os maiores empregadores nos municípios. Esse é o maior problema existente no Amazonas. Viciar cidadãos em pedir”, critica.

Segundo o ex-deputado, a Zona Franca é importante para o governo e a prefeitura, mas não é suficiente para suprir todas as necessidades do Estado.

Luiz Castro falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – O sr. foi sempre um deputado muito atuante, defensor da ética. Como está vendo, sem entrar na política partidária, o combate à  pandemia no Estado?

Luiz Castro – Desde o ano passado, venho acompanhando essa situação, como cidadão e trabalhando na FAS (Fundação Amazônia Sustentável), hoje muito voltada para  o trabalho da Aliança Covid, com mais de 110 instituições parceiras, que têm procurado apoiar a população do Estado no enfrentamento à Covid-19.

É claro que a gente enfrenta tudo com muito trabalho, mas também com muita apreensão, muita tristeza. Você tem o lado profissional, o lado humano, que afeta a todos nós.

Ainda recentemente, a nossa amiga Eliana Guedes, presidente da Associação das Merendeiras, uma mulher guerreira, faleceu vítima do coronavírus. E também nosso amigo Chicão, ex-procurador-geral. Minhas homenagens a eles e a outras tantas pessoas.

A gente fica triste, chora, mas também se entrega a Deus, pede apoio e continua trabalhando. O combate à  pandemia no Brasil teve muitas falhas, não adianta a gente negar. Não podemos continuar nesse bate-boca nas redes sociais.

Temos que enfrentar a situação como ela se apresenta. As falhas não foram só das governanças, mas também da sociedade. Houve um relaxamento geral nas atividades no Amazonas no final do ano e ainda em outros Estados do país.

Agora estamos pagando o preço em janeiro e fevereiro. O vírus é um inimigo invisível, que é muito mais perigoso.

JC – Isso afeta principalmente os ribeirinhos…Como está hoje a situação dessas comunidades do interior?

Luiz Castro – O trabalho da Aliança foi priorizado para aldeias indígenas e ribeirinhos, mas também está apoiando bairros de Manaus, onde tem pessoas mais vulneráveis.

Captamos doações de empresas, entidades, que são levadas pela FAS ou por outras instituições parceiras para aldeias, a ribeirinhos. Então, isso também ajudou no entorno da Região Metropolitana de Manaus.

Temos agora um programa de saúde na floresta. Fui chamado para coordenar esse trabalho desde setembro. Temos muitos contatos com as Secretarias de Saúde, lideranças de comunidades.

Com os Dseis (Distritos Sanitário) indígenas.

O que observamos nessa segunda onda é que ela atingiu muito mais forte alguns municípios do que outros.

Temos um mapa epidemiológico que atualizamos toda semana com base nos dados da FVS-AM. Logo em janeiro, Manacapuru e Iranduba foram atingidos com muita força, inclusive pela falta de oxigênio.

E depois isso se espalhou pelo Baixo Amazonas, rio Madeira, rio Negro e Médio Solimões, que hoje são as regiões mais afetadas pela Covid-19 nesse novo contágio. Alguns municípios têm índices alarmantes de contágios, internações e de mortes.

Mas observei que os municípios que foram mais rigorosos no lockdown desde o final de dezembro e janeiro obtiveram mais resultados positivos. É muito claro isso pra nós.

Fomos convencidos de que as medidas restritivas, infelizmente, são necessárias.

Tem municípios ainda em situação dramática, melhorou o fornecimento de gás medicinal, mas ainda tem muita internação, muitas mortes.

JC – O sr. passou a fazer parte do rol de articulistas do Jornal do Commercio, onde pode levar informações relevantes através deste fórum. Como avalia essa colaboração num momento em que as redes sociais criam um ambiente tão segregador?

Luiz Castro – Quero agradecer à direção do Jornal do Commercio por me incluir nesse rol de articulistas. O jornal já é uma instituição de peso, com valor cultural e histórico muito grande, com muita respeitabilidade.

É uma alegria poder participar junto com outras pessoas que escrevem para o jornal. É uma maneira de me conectar com outras pessoas, de poder compartilhar minhas ideias, reflexões, um exercício que gosto de fazer.

Fui um parlamentar de oposição, mas sempre independente das forças políticas hegemônicas. Eu não entrava nessa guerrinha dos caciques, até ofende chamar assim.

E o jornal me permite fazer isso sem política partidária. Comunicação, cultura, saúde e política. Mas nem tudo é política no parlamento. A gestão pública é importantíssima, como também as ONGs.

Parece que o Estado quer impor sua vontade, é ao contrário, é a sociedade que tem que determinar. O Estado tem que existir em função da sociedade, tem que estar articulado e defender os interesses da população.

JC – A situação dos municípios do interior é muito precária, com jovens sem perspectivas de nada, as prefeituras sendo os grandes empregadores. Existe ainda alguma luz no fim do túnel, possibilidades de melhorias da qualidade de vida da população das cidades ribeirinhas?

Luiz Castro – A gente precisa sempre ter um olhar relativizado pelas circunstâncias da evolução. Houve evolução do ponto de vista de educação, saúde no interior.

Houve, sim, alguma evolução, principalmente porque o índice de escolaridade cresceu muito nos últimos 30 anos. Também melhorou a área de saúde. Aumentou a longevidade, diminuiu a mortalidade infantil.

Mas infelizmente aconteceu um fenômeno de uma dependência excessiva em relação às figuras das prefeituras. Agora, os velhos patrões dos seringais transferiram essa dependência para os prefeitos. Isso gerou um paternalismo muito grande, sem perspectivas para os jovens.

Chega-se ao interior e se vê um professor de nível superior trabalhando como auxiliar de pedreiro. Um pedagogo carregando carga como estivador. Então, ao mesmo tempo que foram geradas mais expectativas na educação, elas não se concretizaram no processo de desenvolvimento econômico e social.

Entra e sai governo e não acontece nada. E quando começa, o outro não dá continuidade, as equipes mudam, tendo que começar tudo de novo.

Tem esperança? Tem sim.

A grande esperança do ponto de vista da saúde é a vacinação contra essa calamidade que está acontecendo.

Precisamos ter uma autocrítica como sociedade.  Não dá só pra continuar dependendo da Zona Franca. Temos que ter um potencial de desenvolvimento no turismo, na mineração, com controle ambiental.

Agricultura sustentável, pecuária também, coisas bem organizadas, dinamizadas.

Vamos desenvolver uma bioeconomia organizada

O Amazonas vai perdendo as oportunidades.  A Costa Rica não perdeu.

Não adianta governos ricos e sociedade pobre. A desigualdade no Amazonas é assustadora, é o segundo Estado mais desigual do Brasil. Não se cria uma sociedade próspera com tanta desigualdade como uma capital inchada como é Manaus.

Então isso é um dos motivos da alta letalidade da Covid-19. Temos muitas famílias morando com dez pessoas num único cômodo, enquanto outras têm que sair pra tentar ganhar algum dinheiro. Não é possível fazer prevenção assim.

Não tem como nessa miséria ter políticas sociais justas. Nosso Distrito Industrial é importante para sustentar verbas pro governo e o comércio, mas não é suficiente para todo o nosso Estado.

Aí você vê Estados como Acre, Rondônia, com resultados econômicos e sociais muito mais justos, equitativos, que o Amazonas

A gente tem que aprender essa lição. Na minha opinião, isso é o maior problema no Amazonas, viciar cidadãos em pedir e suplicar aos governantes como se fossem eles da Idade Média.

Cidadãos precisam de oportunidades, não de esmolas.

JC – O sr. teve seu nome durante muito tempo como alguém que lutou pelo meio ambiente, na busca de um desenvolvimento sustentável. Hoje, o grande desafio é alavancar a bioeconomia na região. Nas nossas atuais condições, existem possiblidades para o incremento dessas atividades?

Luiz Castro – Sim, é possível, desde que tenhamos uma governança pública realmente voltada para estruturação de um plano de médio e longo prazos.

De que realmente haja um compromisso ético dos que estão no topo da sociedade, pensando no futuro. E não jogar mais fora as oportunidades e aprender.

Como a experiência do Fundo Alasca, que é belíssima, criado pelo povo do Alasca, fiscalizado por uma auditoria independente gerido de forma profissional.

Arrecadou dinheiro primeiro das vendas de baleias e depois do petróleo que passou a receber uma taxa de cada litro explorado do mineral. Isso possibilitou uma mensalidade à população do Alasca muito superior ao do Bolsa Família, sem pesar um centavo nas contas do governo.

Tem que ser algo pertencente à  sociedade e gerido pela sociedade. Por que os esquimós naquele frio abaixo de zero têm uma qualidade vida superior a nossa? Porque fizeram o dever de casa.

Existe falta de vontade. Não só quando acontecem as eleições, tem que ter um compromisso de amor ao próximo, respeito a Deus. Pensar nas futuras gerações.

JC – A Fundação Amazônia Sustentável tem uma grande participação em programas ambientais.  Dá impressão que ela não só dá o peixe, mas acima de tudo dá a vara de pescar. É essa a ideia da instituição para incentivar o desenvolvimento sustentável?

Luiz Castro – Exatamente, posso apontar duas instituições como exemplo nessa questão no Amazonas, que são a FAS e o Idesam, sem desmerecer outras que fazem um trabalho também belíssimo.

Eu sou suspeito porque trabalho na FAS. Mas por que a FAS e o Idesam fazem um bom trabalho? Porque eles têm essas características. Vamos trabalhar para construir soluções econômicas.

Mas não só proteger as florestas. As florestas em pé são importantes. Mas as pessoas têm que estar em pé dentro das florestas. Tem que ter saúde, educação e perspectivas de empregos, renda. Esse trabalho a FAS vem desenvolvendo. Já ganhou prêmios e reconhecimentos internacionais.

Na área de turismo, por exemplo. E o Idesam também. Todos voltados para o polo econômico.

Tem um grande mostruário desse trabalho. Temos que defender o direito do ribeirinho, do caboclo, com mais saúde, educação.

Estamos desenvolvendo o SUS na floresta. Temos muitos especialistas envolvidos nesses trabalhos, comitês científicos. A vacina vai ajudar a economia a se reerguer, dar tranquilidade pra todos, todos  os segmentos. Como o turismo, que foi o setor mais afetado de todos.

JC – Recentemente, o governo do Amazonas disse que saímos da fase roxa da pandemia. Mas o interior continua ainda na pior etapa. Como avalia essa situação?

Luiz Castro – Estamos em contato constante com prefeitos, como em Nova Olinda, onde 15 pessoas morreram só em uma semana.

Tem esse drama humano que perpassa a vida desses grandes heróis, os profissionais de saúde que não conseguem transferir pacientes para Manaus porque não tem vagas.

Alguns prefeitos são ágeis, enquanto outros, não. Isso faz uma grande diferença. Apuí tem um forte setor primário, não é muito afetado. A situação é pior nos municípios que só desenvolvem o comércio.

Há municípios como Envira, onde fui gestor, onde ainda a pandemia não chegou tão severa, mas tem casos de dengue e malária. É uma situação triste, mas ao mesmo tempo esperançosa. As equipes de saúde no interior melhoraram muito.

O governo do Estado, eu não vou culpar só este governo, ainda não implantou os polos de saúde para os próximos dez anos.

Fazendo com que tenha UTIs em Tabatinga, em Tefé, e a gente não passe por tanto sofrimento. Já estamos com 28 municípios do interior com usinas de oxigênio.

A FAS ajudou nesse processo. Alguns municípios compraram oxigênios com os próprios recursos. Não temos só sofrimento, os profissionais de saúde aprenderam muito, estão mais próximos das pessoas, eles se tornaram muito mais humanizados, reconhecendo valores de todos, médicos dedicam mais atenção aos pacientes.

Então, esse sofrimento todo vai ajudar a melhorar o sistema de saúde. Que os governantes aproveitem essas lições. Porque se aprende pelo amor e também pela dor.

JC – Essa experiência na FAS com a Aliança Covid pode ser um grande aprendizado para o Luiz Castro voltar à política partidária?

Luiz Castro – Só Deus sabe, eu realmente não sei responder. Não tenho essa bola de cristal. Não vou dizer que dessa água não beberei.

Vou continuar minha caminhada até setembro nessas funções. Aí vou amadurecer uma decisão de algum tipo de protagonismo político.

Na produção com o Evangelho, no amor de Jesus, aprender, crescer, eu preciso melhorar como ser humano, como cidadão, ser mais humilde.

Poderei sim voltar à política, mas não tenho essa decisão tomada ainda.

Tem que acabar com a corrupção. Entender que o dinheiro não é dos gestores, mas sim da sociedade. Não temos o direito de tirar o dinheiro que não é nosso. Precisamos desenvolver políticas públicas. O amazonense e o brasileiro são muito criativos para desenvolver interesses comuns.

Isso precisa ser massificado. Quando tivermos os interesses coletivos preponderantes, a nossa sociedade será mais próxima e mais fraterna. Eu sonho com uma sociedade mais justa e mais fraterna.

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