8 de maio de 2021

Há 70 anos, num de seus famosos editais, o Jornal do Commercio publicou: “A partir de 20 de Janeiro corrente até 10 de Fevereiro estarão abertas as inscrições para o curso regular de enfermagem de acordo com a Lei nº. 755 de 6 de Agosto de 1949. O curso terá duração de 36 meses ou sejam 1.099 dias. Para matrícula o candidato deverá apresentar: a) certidão de registro civil que aprove a idade mínima de dezesseis anos e máxima de trinta e oito; b) atestados de sanidade física e mental e de vacinação; c) atestado de idoneidade moral; d) certificado de conclusão do curso secundário (…) o número de vagas para o curso inicial é de 20 (…)”.

Começou ali, em 1951, a criação do curso de formação de enfermeiros na capital amazonense. Até então as enfermeiras, mais pela prática do que por formação, eram irmãs religiosas que auxiliavam os médicos, ou na Santa Casa de Misericórdia, ou na Beneficente Portuguesa.

Irmãs de Santana na Beneficente Portuguesa

Voltando algumas décadas, podemos perceber que a preocupação com a saúde da população manauara sempre foi deixada para segundo plano pelo poder público. Antonio Loureiro, em seu livro ‘História da medicina e das doenças do Amazonas’, mostra esse descaso.

‘Entre 1865 e 1867, funcionou precariamente o Lazareto do Tarumã (…) uma simples barraca de palha, para abrigar variolosos. Na grande epidemia de varíola, que se estendeu de 1872 a 1874, foi criada temporariamente a Enfermaria do Largo de São Sebastião’. Interessante que se criava uma enfermaria, mas um hospital parecia ser menos importante.

Religiosas auxiliavam na Santa Casa de Misericórdia, ou na Beneficente Portuguesa

Hospital mesmo até já existia, construído entre 1860 e 1861, mas atendia preferencialmente os militares. Um dos primeiros espaços a ficar pronto, no prédio, foi exatamente a enfermaria grande. Depois outras salas foram sendo inauguradas, entre elas, a enfermaria para presos, e a enfermaria de inferiores. Esse hospital ficava localizado na ilha de São Vicente, onde hoje funciona a Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental.

Filhas de Santana

Hospitais, idealizados para atender à população da cidade, surgiram praticamente ao mesmo tempo. Em 1º de janeiro de 1873 foi lançada a pedra fundamental do Hospital da Caridade, depois denominado de Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Em 16 de agosto do ano seguinte foi a vez da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas lançar a pedra fundamental do Hospital Beneficente Portuguesa. Em ambos os casos, a construção dos prédios, tão importantes para a cidade, se arrastou por falta de dinheiro. A Santa Casa demorou sete anos para ser concluída e foi inaugurada em 16 de maio de 1880, com a enfermaria feminina, primeira dependência a funcionar. Com o prédio da Beneficente Portuguesa não foi diferente. Ele só seria inaugurado 19 anos depois, e em outro local, a 17 de dezembro de 1893. Nos dois casos foi a sociedade civil organizada a responsável por fazer a construção dos prédios. No primeiro caso a administração da província organizou sorteios e listas de contribuições entre a população para conseguir dinheiro para as obras. Para as obras da Beneficente irem adiante, os portugueses abastados de Manaus, integrantes da Real e Benemérita Sociedade, foram seus principais financiadores.

Em 29 de novembro de 1904 vieram trabalhar na Beneficente Portuguesa as Filhas de Santana.

‘Vinham auxiliar na administração do hospital e nos cuidados aos doentes. O grupo era formado pela superiora Ana Aureliana Fanelli; Ana Clemente Maggioni, farmacêutica; e sete sorores enfermeiras: Ana Gregoria, Ana Simplícia, Ana Maria, Ana Robaldini, Ana Veridiana, Ana Eufrásia e Ana Amélia.

Incorporado à Ufam

O curso de enfermagem foi criado no Brasil em 6 de agosto de 1949, e pouco mais de dois anos depois, em 14 de dezembro de 1951, a Escola de Enfermagem de Manaus teve autorização do Ministério da Educação e Saúde para funcionar. O curso havia sido instalado alguns meses antes, em 16 de março 1951, com a inscrição de 15 candidatos, apenas um do sexo masculino, para o processo seletivo, sendo oito aprovados. Em 13 de dezembro de 1954 o curso foi oficialmente reconhecido pelo Ministério e, no ano seguinte, formava a primeira turma de enfermeiras: Aracy de Lemos Guimarães, Doralice dos Santos Demasi, Maria Tereza das Neves Campos e Raimunda Batista de Souza.

Uma curiosidade: desde o começo a Escola de Enfermagem funciona no mesmo local, uma casa que abrigava uma enfermaria para tratamento de cidadãos ingleses que trabalhavam na Manáos Tramways & Light Company Limited e na Manáos Harbour, e havia pertencido ao Dr. Thomas, médico, patologista, e pesquisador do Instituto de Medicina Tropical de Londres, que o havia vendido para o comerciante inglês George Clawson Browne, adquirido ainda no início do século passado.

Desde 27 de agosto de 1997 o curso de enfermagem foi incorporado à estrutura da então UA, hoje Ufam, tendo como sua primeira diretora a enfermeira Iracema da Silva Nogueira. O curso já teve doze diretoras e um diretor. 

Concluindo, vale lembrar das duas enfermeiras amazonenses que foram para a Segunda Guerra Mundial, Graziela de Carvalho e Semíramis de Queiróz. Integrando o grupo de 61 enfermeiras de todo o país, elas se dispuseram a, de livre e espontânea vontade, ir para as terras italianas cuidar dos pracinhas brasileiros.   

Graziela de Carvalho, primeira à esquerda

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