17 de agosto de 2022
Prancheta 2@3x (1)

“As empresas do PIM ficaram muito aquém das expectativas”

Na análise comparativa da região Norte, o Amazonas apresentou resultados favoráveis em relação ao ritmo de crescimento de empregos durante o mês de julho, com saldo positivo de 2.794 postos, crescimento de 0,82% em relação ao mês anterior

Na análise comparativa da região Norte, o Amazonas apresentou resultados favoráveis em relação ao ritmo de crescimento de empregos durante o mês de julho, com saldo positivo de 2.794 postos, crescimento de 0,82% em relação ao mês anterior. O superintendente regional do Ministério do Trabalho e Emprego, Dermilson Chagas, no entanto, considera o resultado “vergonhoso”. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, o dirigente falou deste tema e analisou ainda assuntos polêmicos sobre emprego e renda no Estado, como a ampliação do extrativismo mineral na região e o comportamento da indústria em relação à evolução ao emprego formal.

Jornal do Commercio – Como o senhor analisa a taxa de emprego nos sete primeiros meses. Os números o surpreenderam?

Dermilson Chagas – Não. A geração de empregos vai razoavelmente bem, se analisarmos que o mercado interno (e o volume de empregos no Amazonas é reflexo disso) se ressentiu de uma crise internacional. Evidente que não dá para comparar os parâmetros de contratação deste ano com o de 2008, mas digo que poderiam ser melhores. Os gráficos deste ano em setores como indústria e comércio fizessem sua parte.

JC – Em que exatamente esses setores impactaram na evolução da mão-de-obra local?

Dermilson Chagas – Todos sabem que falta mão-de-obra qualificada em diversos setores, mas o volume de desempregados faz o Amazonas ter um saldo de pessoas com experiência suficiente para serem reabsorvidas pelo mercado. O problema é que isso não está ocorrendo.

JC – O que as empresas alegam para não contratarem?

Dermilson Chagas – De um lado, a indústria não teve aumento de pedidos, o que inviabilizou novas contratações. No comércio, dizem que faltam pessoas mais qualificadas para exercerem as atividades. É algo questionável, assim como o que ocorre na construção civil, onde incorporadoras e construtoras estão mandando buscar mão-de-obra barata em outros Estados, preterindo os operários locais.

JC – Mas falta mão-de-obra especializada ou não em Manaus?

Dermilson Chagas – Veja bem, para todos os setores, a capital tem cadastro de trabalhadores com experiência e desempregados, a maioria por falta de oportunidade. Não digo que não haja setores onde exista carência de profissionais mais capacitados, mas repito: diversos segmentos estão mandando buscar trabalhadores em outras regiões em substituição à massa trabalhadora local.

JC – O senhor quer dizer que a construção civil não está contratando apenas especialistas, mas todo tipo de operário?

Dermilson Chagas – Exatamente. Os números oficiais mostram claramente esse fato.. No ano passado, em plena fase de contratação, entre admissões e desligamentos, a construção civil ficou com um saldo de 248 pessoas. Este ano, o setor tem 427 operários de saldo. As empresas aproveitam a falta de mão-de-obra especializada no mercado local para trazerem também trabalhadores comuns, serventes, mão-de-obra barata para Manaus. E onde estão os operários dispensados no ano passado? As empresas estão trazendo substitutos de outras regiões do país e ainda usam dinheiro público para isso.

JC – E quais as consequências dessas contratações para Manaus?

Dermilson Chagas – Isso vai gerar impacto social com o inchamento da cidade e falta de moradia, porque esses trabalhadores, vindos do interior do Piauí, Ceará, Maranhão ou de outra região brasileira, não estão retornando para suas terras. Isso eleva o volume de desempregados na capital.

JC – Mas então, esse resultado positivo de 2.794 empregos não é motivo para comemoração?

Dermilson Chagas – Veja bem, trata-se de um estoque de empregos que aumentou, isto é, não se trata de geração de emprego formal no mercado amazonense. Significa que do estoque de empregos disponíveis, 2.794 pessoas foram inseridas nas frentes de trabalho disponíveis no Estado.

JC – O que é estoque de emprego?

Dermilson Chagas – Estoque de emprego é a disposição que o mercado tem em relação aos empregos formais. O polo industrial, por exemplo, demitiu mais de 65 mil trabalhadores, o que significa que o Amazonas tinha, até julho, um estoque de pelo menos 65 mil frentes de trabalho. São postos que já existem e não foram preenchidos ainda. Em igual período do ano passado, em plena força de empregabilidade da indústria local, 50 mil pessoas entraram com pedido de seguro-desemprego. Isto significa que, com a crise, 14,81 mil pessoas a mais entraram com seguro-desemprego este ano. Esta crise realmente abalou as estruturas, mas mostra que o empresário foi cauteloso.

JC – Como o senhor analisa a relação da política ambientalista e a geração de emprego no setor do extrativismo mineral?

Dermilson Chagas – Veja bem, sabemos que a atividade extrativa, quando não segue planos de manejo, degrada a natureza e o meio social, tanto pelo acúmulo de dejetos poluidores quanto por incentivar a migração desordenada. Em todos os países que trabalham com essa atividade, existem planos de exploração sustentável e reposição das espécies que foram tiradas. Não é uma contradição que tenhamos um extrativismo mineral mais forte no Amazonas. Não podemos é deixar essa riqueza inexplorada por falta de ações ambientais.

JC – Mas o senhor concorda que este setor é um dos mais impactantes ao ambiente e ao meio social?

Dermilson Chagas – Sem dúvida. Ele agride tanto o meio ambiente externo quanto o subterrâneo, além de influenciar diretamente no deslocamento de populações inteiras em busca de emprego ou renda. Mas isso poderia ser evitado com estudo de manejo sustentável e planejamento de ações ambientais. Não podemos é deixar que o extremismo ecológico prejudique uma atividade que poderia significar mais emprego e renda para o Estado.

JC – Em termos gerais, como o senhor avalia o papel na evolução do emprego na indústria neste primeiro semestre?

Dermilson Chagas – As empresas do polo industrial ficaram muito aquém das expectativas, porque a demanda não acompanhou o volume de contratação. É vergonhoso dizer que o Amazonas teve saldo de apenas 984 frentes de trabalho com todos esses incentivos fiscais. Rondônia e Pará, onde as indústrias não dispõem dessas regalias, obtiveram, respectivamente, saldo de 2.972 e 1.057 empregos formais.

JC – Historicamente, em julho e agosto começam as contratações da indústria local. Por outro lado, o senhor disse que o volume ficou abaixo da expectativa. O que podemos esperar até o fim deste ano?

Dermilson Chagas – Para setembro, esperamos o crescimento do setor eletroeletrônico e o avanço da metalurgia impulsionada pelo setor de duas rodas com a produção de bicicletas. No ano passado, houve contratação positiva em quase todos os períodos do ano, mesmo durante o terceiro quadrimestre com início da crise. A quantidade de solicitantes do seguro-desemprego do ano passado é algo surpreendente, mas é bem inferior ao volume de contratações. Este ano, o que temos é um crescimento pífio em termos de contratação e o número de desempregados baixou. Se houve menos demitidos que o esperado ou se os números não batem, talvez seja por conta do volume de informais na indústria.

JC – Esse resultado faz parte das medidas anticíclicas do governo?

Dermilson Chagas – Provavelmente. Não é que isso esteja errado, mas o emprego no setor privado ainda não está dando sinal de melhora. É como eu disse: o copo está meio cheio e meio vazio. Parou de diminuir e já é alguma coisa. Mas não retomou e congelou. Há duas maneiras de uma pessoa deixar de ser considerada tecnicamente desempregada: achar um emprego ou desistir de procurá-lo. Pelo jeito, o que está acontecendo em maior escala hoje é a segunda opção.

JC – Qual é a tendência para o emprego?

Dermilson Chagas – Imagino que, daqui para frente, haja melhora. O que se pode dizer é que a atividade industrial precisa melhorar em todas as dimensões para depois se refletir no aumento do emprego. A decisão de contratar é sempre tardia. O empresário precisa ter muita certeza para voltar a admitir. O que houve no primeiro semestre foi muita cautela.

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