As dificuldades do transporte urbano

* A edição deste final de semana do Jornal do Commercio traz uma série de reportagens sobre o trânsito e suas peculiaridades locais, aproveitando a Semana Nacional do Trânsito, que ocorre anualmente entre18 e 25 de setembro.

Dificilmente, em 1886, o alemão Karl Benz tenha imaginado a proporção de aceitação que teria a sua invenção: o automóvel moderno. Por outro lado o americano Henry Ford, em 1913, quando desenvolveu a linha de montagem para automóveis, queria tornar o produto mais barato e com isso, vendê-los em maior quantidade. Será que Ford chegou a imaginar que, nas décadas seguintes, os automóveis apinhariam as ruas das grandes cidades do mundo, tornando-se um problema contínuo até os dias de hoje, e sem perspectivas de ser resolvido?

        “Todas as cidades do mundo que chegam a essa quantidade de veículos hoje existentes em Manaus, enfrentam os mesmos problemas porque a malha viária não cresce na mesma proporção. É um custo muito alto, em qualquer lugar do planeta, abrir novas vias para a fluidez do trânsito”, falou o engenheiro Pedro Carvalho, especialista em trânsito urbano, ex-secretário da SMTU (Serviço Municipal de Transportes Urbanos).

        Dados do Sinetram (Sindicato das Empresas de Transporte de Manaus) mostram que atualmente a capital amazonense possui mais de 750 mil veículos circulando pelas suas ruas. Número que não para de crescer. De acordo com o Detran (Departamento Estadual de Trânsito), por mês são emplacados, em média, 4.000 novos veículos no Estado. A previsão do Sinetran é que até 2025 a cidade chegue a um milhão de veículos. Segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), o emplacamento de veículos no Amazonas, no primeiro semestre deste ano, teve um aumento de 27,95%, em relação ao mesmo período do ano passado. Isso representou mais que o dobro do crescimento nacional que foi de 12,37%.

        Investir no BRT
        “A primeira medida a ser tomada seria melhorar o transporte coletivo para torná-lo atraente àqueles que preferem dirigir seu próprio carro. Nos últimos anos Manaus vem perdendo usuários do transporte coletivo. Trata-se de um sistema de transporte ultrapassado, no qual é necessário se investir muito para melhorar”, falou Pedro.

        “O transporte coletivo precisa ter mais conforto, velocidade e segurança, além de uma tarifa que possa ser paga pela grande maioria dos usuários. Sabemos que é cultural o brasileiro ser apaixonado por carros, mas o preço da gasolina nos dias atuais está tornando inviável usar o carro a todo instante”, disse.

        “O melhor seria se investir no BRT (Bus Rapid Transit)”, afirmou. Em fevereiro, um consórcio de empresas apresentou para a prefeitura o projeto de um novo BRT, o CIVI (City Vehicle Interconnected) que, com três corredores viários interligaria as zonas Norte e Leste de Manaus. “Literalmente o caminho é por aí. Não adianta querer que as pessoas migrem para o sistema que está aí, mas para outro, melhor, moderno. Trata-se de um custo alto, que não pode ser arcado somente pela prefeitura, mas também pelo governo do Estado e até Federal”, completou.

        “Destaco ainda o sistema semafórico inteligente”, lembrou. Qualquer motorista sabe que o trânsito lento, ocorre em boa parte do tempo em que os semáforos atuam, alguns mal regulados ou não sincronizado com o seguinte, o que acaba obrigando os motoristas a não entrarem nos cruzamentos mesmo com ausência de trânsito no momento. Há alguns anos, havia apenas os semáforos que atuam com um temporizador individual, hoje existem semáforos que se adaptam às condições do trânsito em tempo real, estes por sua vez são pouco utilizados no Brasil.

        Só tende a se agravar
        Pesquisa realizada no início do ano pelo SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) para a CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) detectou que o brasileiro passa, em média, 2h28m por dia no trânsito para se deslocar, de casa para o trabalho, ou outros locais, nas capitais. Ao multiplicar a média diária pelos dias do ano, o tempo de deslocamento equivale a 37,5, ou seja, mais de um mês inteiro passados no carro, ônibus, metrô, moto, bicicleta ou a pé.

        “Só abrir, ou alargar mais as ruas, fazer viadutos ou passagens de nível, não resolvem a situação. Apenas a transfere de um ponto para outro. É assim em todas as grandes cidades do mundo. É um problema que só tende a se agravar”, esclareceu.

        “Coloco ainda na lista de sugestões para a diminuição, e não resolução, do problema o metrô e o transporte fluvial, mas ambos também necessitam de um investimento muito alto, e só resolveriam em parte. Um exemplo é o de um empresário que tentou este ano realizar viagens fluviais do Puraquequara até o centro da cidade. Não durou uma semana, sem falar que a cidade não é cortada por rios onde esses transportes pudessem adentrar”, finalizou.   

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