Atualmente o Jornal do Commercio se divide em três editorias: Economia, Política e Cultura. Em pesquisa ao longo dos 110 anos de existência desse matutino, fiz um levantamento sobre os fatos, sob a minha ótica, mais relevantes que aconteceram em Manaus em cada uma dessas editorias nesse tempo todo. Cheguei à seguinte conclusão. Os fatos descritos fizeram parte das páginas do JC e o leitor poderá tirar suas próprias conclusões.

Na Economia, a Zona Franca
Desde o colapso do comércio da borracha, iniciado em 1910, a economia do Amazonas vivia uma crise. Visando tirar a região do atraso e fomentar o desenvolvimento econômico e social, o governo federal criou, em 1967, pelo decreto-lei 288, a Zona Franca de Manaus. Pelo decreto ficava estabelecida uma Zona de Livre Comércio em Manaus, tanto para as atividades de importação quanto de exportação de produtos, dotada de incentivos fiscais especiais. Esses benefícios depois se estenderam para as atividades industriais.
Até então possuíamos apenas pequenas indústrias artesanais, para a fabricação de gelo, beneficiamento de castanha, madeira, sorva, balata, de panificação e outros produtos regionais. A única indústria de peso na economia foi (é) a Refinaria de Manaus instalada no final dos anos de 1950.
A Zona Franca trouxe para a região empresas de várias partes do país e do mundo e criou um parque industrial estabelecendo na cidade empresas produtoras de bens finais constituído por vários polos: de eletroeletrônica, de duas rodas, relojoeiro e de componentes.
Atualmente o parque industrial de Manaus gera 127 mil empregos, porém, beneficia apenas uma pequena parcela da população de mais de dois milhões de pessoas com um exército de subempregados e desempregados.
Pela Constituição brasileira, o prazo de vigência da Zona Franca de Manaus se estenderia até o ano de 2013, mas uma Emenda Constitucional aprovada pelo Congresso Nacional prorrogou sua existência até o ano de 2023. No governo da presidente Dilma Rousseff, a Zona Franca foi prorrogada por mais 50 anos.

Na Política, a Rebelião de 1924
A Rebelião de 1924 foi o mais importante fato político ocorrido no Amazonas, mesmo que pouco publicitado. Produto de uma conspiração nacional, a quartelada ocorreu em agosto de 1924, no auge das revoltas tenentistas que acometeram o Brasil naqueles anos de turbulência. O movimento fazia parte do Tenentismo e se alastrou pelo país, chegando ao Amazonas nesse ano. No plano local as oligarquias regionais se revezavam no poder após disputas violentíssimas e, depois de vitoriosas, se apropriavam dos aparelhos do Estado para se locupletar e manter seus privilégios por meio de improbidades, negociatas e nepotismo. Contrariados com a anarquia que reinava no Estado, um grupo de oficiais comandados pelo tenente Ribeiro Júnior defenestrou do poder o governador em exercício Turiano Meira, membro do grupo comandado pelo corrupto governador Rego Monteiro. Depois de muita confusão na cidade, Ribeiro Júnior assumiu o governo do Estado, mandando prender componentes do governo envolvidos em práticas criminosas e instituindo o “Tributo da Redenção” confiscando os bens surrupiados do Estado e os revertendo em pecúnia para pagar obrigações da administração pública. Fracassado o movimento, Ribeiro Júnior e seus companheiros foram presos e condenados por insubordinação e afronta a ordem constituída pelas autoridades, sendo libertados anos depois. Mas para o povo amazonense a rebelião representou um ato de bravura e ousadia em desafiar o poder dos mandões da já corrupta república brasileira.

Na Cultura, o Clube da Madrugada
Considerado como o maior movimento da cultural do Amazonas do período pós-látex, o Clube da Madrugada surgiu no raiar do dia 22 de novembro de 1954, na praça Heliodoro Balbi, a popular praça da Polícia.
Fruto da vontade de alguns jovens vanguardistas da intelectualidade amazonense reunidos nesta madrugada naquele logradouro, ele nasceu com o objetivo de tirar do atraso as manifestações artísticas e culturais de Manaus, dominadas por uma elite de acadêmicos e bacharéis sem expressão e criatividade. Dentre esses jovens estavam: Celso Melo, Farias de Carvalho, Fernando Collyer, Francisco Ferreira Batista, Humberto Paiva, João Bosco Araújo, José Pereira Trindade, Luiz Bacellar, Saul Benchimol e Theodoro Botinelly.
Com o tempo o movimento prosperou e ganhou muitos adeptos de peso: Jorge Tufic, Alencar e Silva, Carlos Gomes, Luís Ruas, Erasmo Linhares, Elson Farias, Astrid Cabral e outros.
A atuação do Clube da Madrugada foi expressiva nos períodos populistas, denunciando as mazelas da sociedade amazonense e o pouco caso das autoridades com a coisa pública, bem como a produção de obras regionalistas exaltando as belezas naturais do Amazonas e a vida simples do homem amazônico.
Com a ditadura militar de 1964, o Clube arrefeceu limitando-se a produzir matérias jornalísticas redigidas por alguns membros mais ousados, ligados ao jornalismo “chapa branca” que sobreviveu ao tsunami de perseguições que se seguiu ao golpe. Depois desses períodos de represamento de suas atividades, nunca mais o Clube conseguiu revitalizar sua importância como instrumento de mudança e reflexão.

Aguinaldo Nascimento Figueiredo é amazonense, professor da rede pública de ensino, graduado em História pela Ufam. É autor dos livros “História Geral do Amazonas”, “História do Amazonas”, “História e Memória do Povo do Emboca” e “Samurais das Selvas: a presença japonesa no Amazonas”.

Qual sua opinião? Deixe seu comentário

Gostou do Conteúdo? Assine nossa Newsletter

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp
Email

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email