Artigo – Um pouco do passado

Fenômeno social instigante para reflexão e pesquisa sociológica é a curta vida das empresas brasileiras em geral e das amazonenses em particular, sobretudo ao se comparar com a longevidade das firmas europeias.

É comum constatarmos nas embalagens dos produtos europeus a existência do fabricante há mais de dois séculos. Quando se trata de cerveja, então, a coisa vai muito longe: os rótulos exibem cervejarias fundadas nos séculos 13 e 14. Isso significa que essas empresas, geralmente familiares, sobrevivem há mais de 700 anos!
Na minha infância meu pai contou-me que o meu nome era consequência de uma homenagem que o pai dele (naturalmente meu avô, que não conheci) havia feito ao seu maior cliente, senhor Friedrich Undüetsch, proprietário da firma importadora alemã F. Undüetsch & Co., de Bremen. Essa homenagem consistira no convite feito por meu avô ao empresário alemão, na segunda década do século passado, para ser padrinho do seu filho caçula que recebeu o nome do homenageado na versão portuguesa: Frederico.

Essa empresa era grande compradora de borracha amazônica que era redistribuída para a indústria alemã e provavelmente importava outras matérias-primas do Brasil e do resto do mundo. Operava algo parecido com o modelo de uma trading company atual. A relação de negócios entre meu avô e a firma alemã era bastante sólida e de confiança mútua, ao ponto de meu pai durante a adolescência residir três anos na casa do senhor Friedrich para onde viajou a convite deste para aprender a prática de comércio germânica e aperfeiçoar-se no idioma de Goethe, então em ascensão no cenário mundial, às vésperas da 1ª. Grande Guerra. Mais tarde, após a morte de meu pai, escutei de dois tios que o meu avô, Pio Veiga, costumava afirmar ser os alemães muito mais corretos nos negócios do que os ingleses e os americanos, visto que as Contas de Venda emitidas pelas autoridades comerciais alemãs ao procederem a pesagem da borracha exportada após o descarregamento no porto de destino sempre apresentavam resultados favoráveis à sua empresa, diferentemente das vistorias feitas nos portos de Londres e New York…

Em 2008, num momento íntimo de visita ao passado, remexendo as pastas velhas de correspondências do meu saudoso pai, deparei com uma carta dele endereçada à firma alemã datada de 1958. Tive a curiosidade de saber se a empresa ainda existia. Entrei no Google e pedi pesquisa. Rapidamente veio a resposta com a indicação do site da F. Undüetsch & Co. Entrei no seu sítio eletrônico e me surpreendi com o tamanho da organização comercial em que se transformou a velha e secular importadora de borracha do Brasil. Não é apenas comercializadora de commodities, mas também uma grande e sofisticada exportadora de máquinas, equipamentos e ferramentas alemães de alta tecnologia, chegando a vender e instalar fábricas prontas, principalmente para a Ásia, onde participa do boom econômico após a falência do comunismo, fornecendo plantas industriais para a China, Rússia, Índia, Indonésia, Coréia e Vietnam. Fornece também para a África. Dos países que lhe compram produtos tecnologicamente avançados, importa matérias-primas que revende na Europa e nos Estados Unidos, onde está estabelecido um braço da família que para lá emigrou ainda no século 19.

Minha constatação depois de conhecer parcialmente as informações constantes do site: a empresa de Bremen (conserva até hoje a sede da empresa nessa cidade portuária) soube evoluir e adaptar-se às transformações e inovações do mundo dos negócios, mesmo tendo enfrentado as tragédias e os danos irreparáveis das duas guerras mundiais deflagradas por seu país. Hoje, cem anos depois do auge do ciclo da borracha, é uma companhia de comércio de alto nível, participando ativamente da pauta de exportações que colocaram a Alemanha em primeiro lugar no mundo como país exportador até 2008, sendo superada apenas ano passado pela China, após 40 anos de liderança. Seguramente o caso F. Undüetsch não é fato isolado, é a regra na Europa.

No Amazonas, lamentavelmente não temos esse quadro. Posso estar equivocado, porém no nosso Estado temos apenas uma empresa da época do ciclo da borracha que sobreviveu: a sucessora da firma de José Tadros, avô do nosso estimado Dr. José Roberto Tadros, presidente da Federação do Comércio do Amazonas e administrador da empresa centenária que há muito tempo dedica-se à atividade de hotelaria em Manaus, abandonando o ramo de aviamentos. Não incluo a Empresa Jornal do Commercio por ser de natureza jornalística, não-comercial. As outras empresas do final do século 19 e início do século 20 – o grupo “J” português, como dizia o saudoso Prof. Samuel Benchimol, J.G. Araújo, J.S. Amorim, J. A. Leite, J. Rufino, as firmas inglesas, francesas e alemães, as firmas dos competentes judeus sefarditas – acabaram-se. Não tiveram capacidade para adaptar-se à evolução dos negócios que se deu de forma muito rápida no século recém-findo, decorrente das tecnologias de ponta adotadas pela atividade econômica no sentido mais amplo. Fica o desafio do estudo desse fenômeno para os sociólogos e economistas caboclos.

FREDERICO VEIGA é procurador da Fazenda Nacional aposentado e advogado.
E-mail: [email protected]

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