Artigo – Acesso à cultura,nosso maior desafio

Economia forte, instituições políticas sólidas e boas perspectivas colocam o Brasil na posição de uma das nações mais promissoras do mundo neste começo de ano. No entanto, o pouco acesso à cultura continua a ser um dos nossos pontos frágeis.

São as constatações que podemos subtrair dos levantamentos feitos pela revista International Living, publicação norte-americana que, desde o começo da década, elabora a medição informal do IDH de quase 200 países. Em 2010, os primeiros colocados são, respectivamente, França, Austrália, Suíça, Alemanha, Nova Zelândia, Luxemburgo, Estados Unidos, Bélgica, Canadá e Itália.

O Brasil aparece em 38º — nada mal, tendo em vista que foram 194 avaliados, mas ainda assim numa posição abaixo de Uruguai (19º lugar), Argentina (26º) e Chile (31º). Nossas melhores pontuações ocorrem em liberdade e segurança (foram analisados riscos de guerra e de ataques terroristas, e não a questão da violência urbana). Nosso pior desempenho é em infraestrutura e acesso à cultura.

O que a International Living fez foi tabular aquilo que constatamos na prática. O Brasil incorporou valores democráticos e tolerância, mas ainda tem muitas lacunas. Na infraestrutura, um de nossos calcanhares-de-aquiles, investimos fortemente, mas continuamos distantes dos padrões que nos permitiriam suprir nossas demandas por energia, rodovias, ferrovias, hidrovias e fluxo portuário. Em habitação, nosso deficit é de aproximadamente 7 milhões de moradias.

Em Educação e da Cultura, é sabido que o Brasil superou problemas antigos, como falta de acesso à escola. Segundo o IBGE, em 2008, 56 milhões de pessoas de dez anos ou mais de idade acessaram a internet pelo menos uma vez por meio de um computador. Esse número equivale a 34,8% da população nessa faixa etária.
A pesquisa revela que o uso da internet foi maior entre os mais jovens. No grupo de 15 a 17 anos é usada constantemente por 62,9% dos jovens. A seguir, vem o grupo de dez a 14 anos de idade, no qual 51,1% da população tem acesso à rede. Já o grupo de 50 anos ou mais é o time dos desconectados, com apenas 11,2%.

O uso do celular também está mais difundido. Cerca de 53,8% da população de dez anos ou mais tinham o telefone celular para uso pessoal em 2008, segundo o IBGE.
Tudo indica que acompanhamos o restante do mundo no ganho de velocidade e encurtamento de distâncias. Mas é triste saber que o interesse por novas tecnologias não é acompanhado por um embasamento intelectual que, no mínimo, tornaria mais interessante e enriquecedor as palavras que atravessam os caminhos de fibra ótica…

Temos de nos empenhar no combate à má qualidade do ensino e favorecer acesso à cultura. Um bom começo para o enfrentamento do problema é a expansão do número de bibliotecas públicas. Hoje, ainda faltam bibliotecas em mais de 300 municípios. O desafio de zerar o déficit deve ser encarado como dívida histórica.
Além de disponibilizarem livros variados para todos os tipos de público, as bibliotecas funcionam, principalmente em cidades de menor porte, como espaços para a aquisição de cultura e exercício de arte e criatividade. Salas são aproveitadas para cursos de teatro, música e artesanato, e aquelas que recebem equipamentos para projeção se convertem em pequenos cinemas. Graças ao ambiente aconchegante e convidativo, são opções excelentes para convívio de crianças e jovens que, sem essa alternativa, acabariam ficando horas e horas na rua, expostos a toda sorte de riscos e estímulos negativos.

Infelizmente, ainda nos falta trabalhar o apreço pelo livro com a ênfase que ele mereceria. Talvez porque os livros não sejam promovidos por comerciais na TV, nem tenham marcas licenciadas a reforçar seu apelo comercial, eles só são lembrados, em boa parte dos lares brasileiros, quando os pais recebem a lista de material escolar. Dessa forma, transformam-se em símbolos da obrigação e da rotina, e deixam de ser identificados com aquilo que eles são de fato: companheiros para todas as horas, principalmente as de lazer.

Transformar os livros em objeto de desejo é uma missão que deve ser encampada por toda a sociedade. Eles são inigualáveis na sua posição de alimentadores de corações e mentes. E é importante trabalhar essa questão com uma ênfase bastante grande junto às crianças e aos adolescentes. Coloco ênfase nos mais jovens porque é justamente nos primeiros momentos da vida que as pessoas despertam para o novo e começam a cultivar os valores e as crenças que irão acompanhá-las pelo resto de suas vidas.

Se as crianças sonharem em ganhar livros com o mesmo ardor com que desejam as pistas de corrida, as bonecas e até as pistolas de brinquedo, estaremos mais próximos da construção de um país melhor. Pois não há riqueza maior do que o conhecimento, e é desse tesouro que o Brasil mais precisa.

Antoninho Marmo TRevisan é empresário, educador e consultor

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