Arte solidária em tempos de isolamento social

Nunca Manaus teve tantos artistas plásticos quanto nos últimos anos, alguns dividindo a arte com alguma profissão, outros vivendo exclusivamente dos trabalhos que fazem. São estes últimos que estão sentindo mais fortemente os efeitos da quarentena.

O maranhense Noleto Silva, 66, é o típico artista que vive para a arte. Se depender dele, pinta seus quadros durante 24h num centenário casarão, a Mansão dos Belos Quadros, localizado na avenida Joaquim Nabuco. Mas estes últimos dias não estão sendo fáceis para o artista, tanto que ele postou um pedido desesperado em seu Face informando que já estava sem comida em casa. O apelo de Noleto fez outros artistas se mobilizarem para ajudar os colegas que estão precisando.

“Até sair pra comprar comida está difícil. Eu moro só. Um dia desses saí aqui de casa pra comprar sal e policiais militares me pararam perguntando minha idade. Quando respondi que tinha 66, eles disseram que eu não poderia estar andando pela rua. Voltei pra casa sem o sal. Fiz uma máscara pra mim, mas agora não tenho mais dinheiro pra comprar comida”, lamentou.

Noleto mora em Manaus há 50 anos e sempre viveu de pintar e vender seus quadros. Há algum tempo coloca os quadros na frente do casarão e sempre aparece algum comprador.

“Agora não tem ninguém nas ruas pra ver e comprar meus quadros. Também dava aula para quatro senhoras, que estão de quarentena, bem como os universitários, que sempre visitam meu ateliê e ajudam bastante, inclusive trazendo ração para meus cães e gatos, não estão mais vindo. A situação está triste”, revelou.

Ação atrás de ação

Desde quando os dias de quarentena começaram e a artista plástica paraense Rosa dos Anjos observou que as coisas só estavam piorando, ela passou a articular uma forma de ajudar os mais necessitados, não só artistas plásticos, mas pessoas que direta, ou indiretamente, trabalham com estes artistas, inclusive artesãos. Uma das soluções encontradas foi pedir que os artistas negociassem quadros em troca de cestas básicas.

“Todos que contatei aceitaram de imediato. Já estamos com quadros da Eliane Mezari, Eliana Chaves, Sidney Silva, e outros estão finalizando seus trabalhos”, informou.

Rosa, há 34 anos atuando na pintura, escultura e produção de peças de decoração, tem um grupo no WhatsApp onde reúne mais de 150 artistas plásticos e já está acostumada a organizar e realizar ações que envolvam essa classe de artistas como o ‘Pintura ao vivo’, no Largo de São Sebastião; ‘Arte em movimento’, no mercado Adolpho Lisboa; ‘Manaus das artes’, na Ponta Negra; abraço da Santa Casa de Misericórdia e exposição fotográfica do prédio; além de fazer acontecer exposições em instituições, como faculdades, e praças.

Em seu Ateliê de Artes & Galeria Etnia, na rua Tapajós, reúne obras de arte de mais de 60 artistas, de todo o Amazonas e até de outros estados da Amazônia.

“Agora vou publicar a foto dos quadros nas minhas redes sociais junto com o telefone do artista. Os interessados vão ligar e negociar diretamente com o artista quantas cestas básicas podem dar em troca do quadro. Depois trarão a cesta básica aqui no meu ateliê provisório (rua Paul Adan, 75, casa 8 – Parque Dez de Novembro) onde também pegarão o quadro. Nós vamos direcionar a cesta básica para quem estiver necessitando”, esclareceu Rosa.  

Homens de rolha

A catarinense Eliane Mezari se antecipou às ações de doação de quadros e um de seus trabalhos já está exposto no ateliê de Rosa dos Anjos.

“Faces épicas é o nome da pintura. São edificações com rostos de homens e mulheres. As pessoas deixam suas impressões nas edificações dos locais onde vivem”, explicou.

É um óleo sobre tela medindo 60cm x 60cm.

“Este é o primeiro quadro que estou trocando por cestas básicas, mas farei outros de uma fase que estou desenvolvendo agora, homens feitos com rolhas de garrafa. É um trabalho barato e rápido de se fazer, mas que tem um efeito decorativo muito bom”, disse.

Eliane é psicóloga, mas há cinco anos cada vez mais se dedica à pintura dos seus quadros. Sua mais recente exposição está no Rio de Janeiro, num shopping que está fechado.

Comunidade indígena

Em fevereiro o parintinense Rubens Belém comemorou 20 anos como artista plástico inaugurando uma exposição com 25 quadros na galeria do Icbeu e um mural na área interna do Instituto. Na ocasião Rubens começou a promover o sorteio de um dos quadros, mas o evento foi suspenso devido a instituição, incluindo a galeria, ter fechado as portas por causa da quarentena.

“Agora estou pintando o quadro ‘Cerâmicas regionais’, medindo 1mx50cm, para participar desta ação em prol de artistas mais necessitados. Penso ajudar uma comunidade sateré mawé, que vive no conjunto D. Pedro I. Eles vivem das vendas de seus artesanatos e agora estão sem poder negociar esse material”, falou.

Rubens se propôs a pintar outros quadros para manter a ação em evidência enquanto durar a quarentena.

Aguardando ligações

Neleto Silva, 9 9382-3660

Rosa dos Anjos, 9 8118-3640

Eliane Mezari, 9 9989-4580

Rubens Belém, 9 8414-4129

Fonte: Evaldo Ferreira

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