Apesar da crise logística aberta pela vazante histórica, Amazonas fechou ano passado com crescimento

A indústria amazonense conseguiu fechar 2023 no azul, apesar da crise logística aberta pela vazante histórica. O Estado ficou entre as dez unidades federativas que conseguiram crescer em todo o país, e com o dobro da taxa de expansão da média nacional. O incremento, no entanto, não passou de 2,1%, e foi o menor da série histórica desde 2020 (-5,4%) –o ano inicial da pandemia. Apenas metade dos segmentos industriais conseguiu fechar o ano no campo positivo, com destaque para combustíveis, motocicletas, produtos de metal, produtos químicos e bebidas. O dado negativo veio principalmente das linhas de produção de eletrônicos e informática.

Em sintonia com a subida dos rios, e com a desorganização logística proporcionada pela estiagem, a produção industrial do Amazonas avançou atipicamente, entre novembro e dezembro. A elevação de 7,4% foi a segunda maior do país. Mas, não foi suficiente para conferir crescimento em relação a dezembro do exercício anterior, e acabou configurando queda de 1,5%. O resultado foi puxado para baixo por sete dos dez segmentos, com destaque para refino de combustíveis. Na média brasileira, o setor expandiu 1,1% e 1%, respectivamente. Os números são da Pesquisa Industrial mensal e foram divulgados pelo IBGE, e foram divulgados nesta quinta (8).

A progressão de 7,4% ante novembro fez o Amazonas decolar do penúltimo para o segundo lugar do ranking nacional, ficando atrás apenas de Pernambuco (+11,6%). Em um mês com apenas cinco quedas entre as 17 unidades federativas investigadas pelo IBGE, o pior desempenho veio do Rio de Janeiro (+4,7%). Apesar da queda de 1,5% na variação anual, o Estado subiu da 17ª para a 13ª posição, em um rol liderado pelo Espírito Santo (+31,4%) e encerrado pelo Maranhão (-11,4%). Com 2,1% de expansão, a indústria amazonense caiu da quinta para a oitava colocação no acumulado do ano, que teve Rio Grande do Norte (+13,4%) e Ceará (-4,9%) nos extremos.

Motocicletas e bebidas

Na comparação com dezembro de 2022, a indústria extrativa (óleo bruto de petróleo) escalou 5,2%, depois de subir 2,8% no mês anterior. Em contraste, a indústria de transformação mergulhou 2,1%, aprofundando as perdas de novembro (11,1%) , outubro (-7,9%) e setembro (-1,9%). Só três de seus dez segmentos avançaram, com as altas se restringindo a “outros equipamentos de transportes” (motocicletas e suas peças, com +34,2%); bebidas (+21,9%); produtos de metal (lâminas, aparelhos de barbear, estruturas de ferro, +16,8%); 

O pior desempenho veio da divisão de petróleo e combustíveis (gás natural, com -30,8%), que vinha crescendo ininterruptamente nos meses anteriores. A lista vermelha incluiu também máquinas, aparelhos e materiais elétricos (conversores, alarmes, condutores e baterias, com -20,8%); máquinas e equipamentos (condicionadores de ar e terminais bancários, com -19,5%); produtos químicos (metais preciosos, inseticidas, nitrogênio e desinfetantes, com -19%); equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (celulares, computadores e máquinas digitais, com -9,3%); produtos de borracha e material plástico (-7,4); e “produtos diversos” (artefatos de joalheria, isqueiros, lentes oculares, lápis, e fitas para impressoras, com -1,2%). 

No acumulado dos 12 meses, a indústria de transformação expandiu 2,3% e a extrativa ficou negativa em 0,9%. Os incrementos de produção vieram de derivados de petróleo e combustíveis (+18,4%); produtos de metal (+13,5%); “outros equipamentos de transporte” (+9,1%); produtos químicos (+6,7%); e bebidas (+0,6%). No outro extremo ficaram os segmentos de “produtos diversos” (-6,8%); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-6,4%); equipamentos de informática e produtos eletrônicos e ópticos (-2%); máquinas e equipamentos (-2%); e borracha e material plástico (-1,2%).

“Ritmo lento”

O chefe de disseminação de informações do IBGE-AM, Luan da Silva Rezende, considerou que, embora o crescimento registrado pela indústria amazonense tenha ficado abaixo do atingido em 2022, o índice foi “satisfatório”, depois de um ano com “muitas altas e baixas”. “Em dezembro, o indicador que compara com o mesmo mês anterior teve alta considerável, indicando melhoria de produção em algumas plantas. Por outro lado, na comparação de dezembro, os dados demonstram queda. Consequentemente, o acumulado do ano reduziu de 2,4% para 2,1%”, ponderou.

O pesquisador salienta que vários produtos da indústria local colaboraram com o crescimento da produção anual, a exemplo de gás natural, xarope para refrigerantes, gasolina, querosene de aviação, poliestireno, metais preciosos, forno micro-ondas, ar condicionado, motocicletas, rebocadores e isqueiros. Mas, avalia que a tendência de curto prazo ainda é de ressalvas para o setor. “A média móvel trimestral registrada em dezembro, está negativa. Por isso, a previsão é que a indústria local inicie o ano de 2024 em ritmo lento de produção”, alertou.

Em texto postado na Agência de Notícias IBGE, o analista da pesquisa, Bernardo Almeida, aponta que 2023 foi marcado por um arrefecimento não só do ritmo da indústria regional, mas da indústria como um todo. “A evolução de determinados fatores conjunturais relacionados à taxa de juros e ao mercado de trabalho permitiu, a partir do segundo semestre, uma melhora no comportamento da produção, mas ainda distante de patamares mais significativos. Predominou um ritmo de produção arrefecido e moderado”, analisou.

“Melhora gradativa”

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, ressaltou que os números do IBGE vêm atendendo aos prognósticos do setor. E reforça que desde os meses iniciais de 2023, o entendimento do setor era que o ano seria “de estabilidade, com leve tendência positiva”. Para o dirigente, o impacto da estiagem histórica contribuiu para os “indicadores mais tímidos”, mas as questões econômicas e estruturais pesaram mais. 

“No cômputo global, os números denotam uma relativa estabilidade do PIM, sendo altamente suscetível, contudo, a fatores exógenos, como a seca. Dezembro ainda foi um mês afetado pela estiagem, mas nossas expectativas são de que os indicadores começam a apresentar uma leve recuperação, devendo se estender em ritmo lento durante o primeiro trimestre de 24, desconsiderados os efeitos sazonais sobre esses resultados”, afiançou.

O presidente da Aficam, Roberto Moreno, diz que o fato de o fechamento de 2023 ter sido positivo já é digno de comemoração. “Tivemos os desafios logísticos, tributários em discussão ainda e, os que estão por vir. Após o período de comparação pós pandemia, entendo ser uma condição de normalidade os índices não serem altos, ou próximos de dois dígitos. Claro que é o que queremos, mas entendo que temos de avançar, mesmo em percentuais menores. O importante é não recuar. Acredito que podemos ter uma gradativa melhora nos índices durante o decorrer do ano, mas não tão vertiginosa como gostaríamos”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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