Falar sobre o Centro de uma cidade, principalmente se é a nossa cidade, é assunto delicado. Sim, porque mexe com sentimentos, mesmo que pretendamos ser objetivos. Não é por acaso que o Centro é o coração da cidade. 

No livro de Heródoto Barbeiro, “Meu Velho Centro”, contam-se “histórias do coração de São Paulo”, espraiadas em fases da vida do autor, começando com “Batismos”, avançando com “Infâncias e Juventudes”, “Roteiro Sentimental”, “Idade da Ação”, “Idade da Razão”, alongando-se em “Outras Dimensões do Centro Velho” e, concluindo com uma “Cronologia Histórica de São Paulo”. As imagens apresentadas são bonitas e significativas, e a prosa do autor, agradável e cativante. Pode-se dizer que seja um livro à glória da cidade de São Paulo, sem mascarar as mudanças que a vida pós-moderna impõe aos prédios e aos logradouros públicos.

Do nosso lado, o livro de Gaitano Antonaccio, “Entidades e Monumentos do Amazonas”, faz um levantamento de nosso patrimônio arquitetônico, listando cinquenta monumentos, alguns desaparecidos, outros modificados. O brado de Antonaccio parece ser não deixar que fiquemos sem testemunho histórico e, através da história dos prédios antigos, buscar o nosso passado.

Sem querer ser nostálgica, fecho os olhos e me lembro da Manaus de minha infância, à época em que os bondes não iam além dos antigos bairros da Fábrica de Cerveja ou da Bandeira Branca. Na Rua Costa Azevedo, uma priminha foi atropelada pelo bonde que circulava pelo Centro, tendo sido salva pela mão de Deus e pela habilidade do motorneiro. Assim, todos os monumentos e lugares antigos têm histórias a contar.

O Cine Guarani com seus jardins laterais era lugar de lazer para jovens e adultos. Para os alunos do Colégio Estadual do Amazonas era uma maravilha, pois bastava atravessarem a Praça da Polícia para assistirem a filmes memoráveis naquela bela sala de cinema engolida pela modernidade. Foi no Cine Politeama, do outro lado da rua, que minha geração assistiu à encantadora trilogia “Sissi”, com os filmes “Sissi”, “Sissi a Imperatriz”, “Sissi e seu Destino”.

A que tantas outras histórias não serviram de palco outros prédios e monumentos! Era na Praça do Congresso que os alunos do Instituto de Educação do Amazonas e os da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em frente ao Luso Sporting Clube, se reuniam nos intervalos das aulas. A bela residência da família Matos Areosa, primeira sede da Faculdade de Filosofia, foi palco da aula inaugural de Estética, ministrada pelo cônego Walter Nogueira à minha turma. Era ao Teatro do Luso que nossa mãe nos levava para assistirmos à Pastorinha da época natalina. Quem não tinha medo do “Cão do Luso”? 

Foi no Instituto Cultural Brasil Estados Unidos, o ICBEU, que comecei minha carreira de estudiosa da língua inglesa. Naquela época, o ICBEU funcionava à tarde e à noite no prédio da Escola da Divina Providência, pertinho da Praça do Congresso. Lembro-me das aulas, é claro. Tive o privilégio de ser aluna do Professor Ruy Alencar. Mas também restam em minha memória as Square Dance da época junina, assim como os English Seminars abrilhantados com a presença de professores nativos da língua.

Hoje, ao lado de belos prédios erguidos à época do esplendor da borracha, muitos demolidos ou em ruínas, vamos encontrar edificações de linhas modernas, como o prédio onde outrora existia o palacete art nouveau da família Miranda Corrêa. Além desse, outros prédios modernos surgiram, desbancando as casas em estilo colonial português, que fizeram de Manaus durante certa época uma cidade charmosa, chamada “Cidade Sorriso”. 

No decorrer dos tempos, Manaus foi tomando outros ares, com novos encantos e atrativos.  Como cidade cheia de arranha céus, de condomínios luxuosos, de shopping centers, Manaus procura conviver com a tradição e a inovação. O Teatro Amazonas, apesar das agressões sofridas ao longo de sua história, continua sendo nosso templo de arte maior, onde importantes eventos culturais acontecem. Conforme ressalta a poeta Gilma Limongi Batista, em seu livro, “O ceu por entre a renda caprichosa das folhas da Amazônia”, “O teatro, criado pela exigência da cultura da cidade que crescia, lá pelos 1892, dizem alguns, cujas restaurações, diz a maledicência de outros, foram os únicos acontecimentos culturais da região, durante vários anos…agora, funcionando lindo de tão iluminado…” 

Enquanto isso, estádios de esportes espetaculares são construídos. Sem falar na Ponte sobre o Rio Negro, construída em plena Baía do Rio Negro, modificando, dramaticamente a paisagem.

Com a evolução arquitetônica de nossa cidade, o que se espera é que às belas avenidas, como a Eduardo Ribeiro, seja restituído o charme de outrora. E que nossas calçadas possam proporcionar caminhadas seguras aos pedestres, para que, ao lado dos afazeres diários, possamos apreciar as belezas do Velho Centro, ao qual dedicamos esta crônica, ao homenagearmos nossa bela cidade em seus 351 anos de existência.

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