Anteag como alternativa de renda

Este estudo promete fazer uma análise sobre um tema emergente. A Anteag surge como uma iniciativa ousada, pró-ativa e autônoma no âmbito da autogestão. A busca dessa perspectiva autogestionária foi amadurecida por um sindicato cutista, que em 1991 decidiu “assumir a direção da empresa Makerli em função do encerramento de suas atividades produtivas e da eliminação de 482 empregos diretos” (Nakano, 2000). É compreensível que um grupo de sindicalistas buscassem novas formas de fazer política, gestando métodos alternativos na organização do trabalho como resposta à reestruturação produtiva. Trata-se de uma associação civil sem fins lucrativos que congrega associação de trabalhadores em empresas de autogestão e co-gestão. Congrega atualmente 30 empresas e cerca de 3.500 trabalhadores praticando autogestão.

Construir esse modelo autogestionário não representou uma tarefa das mais fáceis, os desafios foram intensos. Para além dos mecanismos legais para a viabilização desse tipo de negócio, essa iniciativa exigiu a construção de uma cultura da cooperação e da autonomia e isto levou tempo para ser construído. Somente a partir da legitimidade política da organização é que os nós foram desatados. As empresas afiliadas foram se enfronhando mais na vida da Anteag, num processo de ampla participação. Está comprovado que esse tipo de empreendimento cooperativado requer a conjugação dos aspectos técnicos e políticos, que se imbricam como uma osmose. Esse é o segredo do sucesso da Anteag que, ao longo da sua história, não negligenciou essa união.

A racionalidade técnica não sobrepôs o campo político, ao contrário disto, é o domínio político que constitui o motor da organização. Essa modalidade de empresa sem-patrão tem a sua inspiração na vertente do novo sindicalismo, preconizada pelo sindicalismo combativo do pós-64 no Brasil. Trata-se de uma concepção que busca construir um sindicalismo pela base, autônomo e classista que possa expressar os anseios das classes trabalhadoras brasileiras. A organização horizontalizada por local de trabalho, constitui um dos fundamentos políticos dessa vertente sindical. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) traduz a expressão máxima do novo sindicalismo e constitui-se no referencial para o conjunto dos trabalhadores autônomos e combativos.

A perspectiva autônoma é, certamente, o cariz inspirador dos empreendimentos autogestionários na atualidade. Tudo acontece na empresa por decisão dos trabalhadores, o que pressupõe fóruns e instâncias na estrutura organizativa onde todos podem participar. Isto faz avançar os negócios à medida que as ações expressam decisões coletivas, pois como assinala Singer (2000), “a economia solidária é uma criação em processo contínuo de trabalhadores em luta contra o capitalismo”.Um aspecto importante que deve ser ressalvado é a diferença entre cooperativismo e autogestão.

Na iniciativa cooperativada o aspecto político é bem destacado, muitas vezes chega a assumir proeminência sobre os aspectos técnico-operativos. Uma cooperativa não opera, necessariamente, com o método da autogestão. Ela pode assumir peremptoriamente a forma de gestão, sob outras formas de organização do trabalho. A perspectiva autogestionária é diferente, porque supõe a participação e intervenção direta dos trabalhadores nos rumos da empresa. É uma cultura que ainda está sendo testada, avaliada, reavaliada e propensa a constantes mudanças. Por tudo isso precisamos fomentar esse tipo de geração de renda em nosso Estado.

Celso Torres é economista e mestre em sociologia do Trabalho pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas)

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