Anísio Mello continua vivo na arte manauara

No sábado, 11, faz dez anos da morte de Anísio Mello, legado ao esquecimento como tantos outros nomes da cultura cabocla, artistas plásticos, escritores, poetas, cantores e compositores, depois que morrem, e olha que Anísio Mello atuou em todas essas artes citadas antes.

“Digo que Anísio Mello foi um multiartista. Ainda tentei com amigos dele executar algum movimento que pudesse lembrar a efeméride, todavia, não deu por variados motivos. O principal, o coronavírus, que escorraçou todos das ruas e praças, impedindo agrupamentos, para os imobilizar em casa”, lamentou o historiador Roberto Mendonça.

Anísio Thaumaturgo Soriano Mello nasceu em Itacoatiara, em 21 de junho de 1927, e morreu em Manaus, em 11 de abril de 2010.

O escritor maranhense Antonio Miranda vai mais além sobre atividades que Anísio exerceu ao longo da vida.

“Ele foi músico, professor, tradutor do russo, jornalista, um dos fundadores do Clube da Madrugada, bem como um dos fundadores da AAMAP (Associação Amazonense dos Artistas Plásticos) e ocupou a cadeira número 3 da Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Gonçalves Dias”, revelou.

Apesar de tantas atividades exercidas pelo itacoatiarense, talvez a que mais tenha lhe dado destaque foram as artes plásticas. Anísio aprendeu a desenhar e pintar no Liceu de Artes Cristo Redentor, com sua mãe Ester Mello. Quando ela morreu, em 1985, Anísio assumiu a direção do Liceu, que passou a ter o nome dela. Por mais de 20 anos, até sua morte, o artista esteve à frente da escola onde ensinou o desenho e a pintura. O Liceu ficava localizado num casarão, na avenida Joaquim Nabuco, no qual Anísio morava desde a adolescência. Por lá passaram dezenas de alunos que depois continuaram a exercer as atividades de desenhistas e pintores.

Os quadros pintados por Anísio Mello são bem peculiares, numa mistura de colagens e abstrações, geralmente com tintas escuras.

Chá do Armando

“Conheci-o mais amiúde quando a confraria lítero-cultural-filosófica (de cunho beberativo), denominada ‘Chá do Armando’, abrigou-se na residência dele, em frente à Beneficente Portuguesa. O endereço em si assustava, porém, a camaradagem do anfitrião fazia superar as carências, as penúrias do casarão secular”, lembrou Roberto Mendonça.

“Rotineiramente servido à noite de sexta-feira, lá pelas tantas, o eflúvio alcoólico consentia aos chazistas (o chá na realidade era whisky) superar os fantasmas multifaces para imunes, confraternizar com os anjos e os artistas de vários matizes que por ali desfilavam. De igual modo, semanalmente revíamos do dono da casa as composições artísticas e melódicas; as histórias de sua família e dos habitantes da floresta; sua produção em prosa e verso; os livros lançados e os ‘prometidos’; o jornal Folha do Norte, editado em São Paulo e o desastre do seringal em Eirunepé”, contou.

Durante vários anos Anísio Mello morou em São Paulo onde dirigiu e fundou jornais e revistas, e publicou diversos livros como ‘Estrelas do meu caminho’, ‘Remanso’, ‘Lira Amazônica’, ‘Vibrações’, ‘Sexagesima stella’, ‘Convite à poesia’ e ‘Rito selvagem’. Ao longo da vida participou de muitas exposições com seus quadros, mas a primeira delas aconteceu no Salão de França, em Paris, quando tinha apenas 21 anos.

Salutar pecado

Quando Anísio faleceu, ele estava morando com sua segunda esposa e o filho Anísio Mello Júnior, músico e produtor musical, vivia em São Paulo.

“Ele deixou muita coisa no casarão, material que, condenado ao entulho pela desídia de familiares, adotei quando de seu falecimento. Além de muitos quadros, tantos outros escritos. Consegui reunir várias poesias inéditas, que gostaria de publicar como uma homenagem ao poeta”, informou Roberto.

“Espanadas as teias de aranha e a poeirada, deparei-me com preciosidades, com relíquias que o descaso, o infortúnio condenava ao entulho da cidade. Aqui é o momento de registrar um ‘salutar’ pecado: levei do desprezado acervo o quanto pude”, revelou.

“Ao inventariar o butim, relacionei ao menos quatro projetos de livro. E, no intuito de expiar a minha infração, já retirei das sombras dois desses propósitos: o primeiro foi ‘Convite à Poesia’, em 2011, inaugurando as edições Chá do Armando e lembrando o primeiro ano do desaparecimento do seu autor.  O outro foi ‘Hemetério Cabrinha, poeta’, que as edições da Secretaria de Cultura deram vida, em 2015”, disse.  

“Enfim, diante dessa mobilização, sinto-me indultado pelo delito confesso”, completou.

Roberto Mendonça tem trabalhado para organizar uma amostra com o material reconhecido do artista, realizar uma exposição com o seu arsenal artístico ainda existente e editar um livro com suas poesias inéditas. Vamos aguardar a quarentena passar.

Fonte: Evaldo Ferreira

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