Amazonidades – Duas faces do trânsito

Na semana passada, contei minha passagem pelo curso de direção defensiva como um dos requisitos para renovação da carteira de motorista. Hoje, relato algumas histórias dessa experiência que durou apenas cinco dias, mas foi suficiente para me fazer refletir sobre uma das faces do caos do trânsito em Manaus, que reflete a falta de educação (doméstica e escolar) de grande parte dos motoristas. A outra face, evidentemente, é a incompetência do setor público que aboliu o principio da autoridade (sem autoritarismo) tornando-se incapaz de resolver este e todos os outros problemas sociais, econômicos e ambientais.

A indústria da multa foi um dos principais alvos dos alunos do curso e, enquanto ouvia um rol de bobagens fiquei pensando que todo processo industrial depende de matéria prima e que o único alimentador das máquinas de multar é o erro e o desrespeito às leis. Por isso, a indústria da multa é a única no mundo que se extingue em proporção direta à melhoria da qualidade da matéria prima. Ou, em outras palavras, a melhoria do insumo diminui a produção.

Educação e civilidade

Durante as aulas, grande parte da plateia (classe?) revelou imensa falta de raciocínio lógico e de condições técnicas e educacionais para dirigir veículos, pois essa atividade só pode ser saudável se for feita pessoas que tenham noções de civilidade. Como esses princípios só podem ser adquiridos através de um adequado processo educacional (formal, informal e não formal) o trânsito que é uma questão individual, vai continuar sendo caótico, porque os motoristas estão socialmente distantes dos princípios de educação e civilidade.

Alguns exemplos são emblemáticos: 1) durante os três dias de aulas de legislação, toda informação repassada pela professora Dalva Mota, era recebida com um gesto de reprovação por uma mulher que, ao meu lado, repudiava os preceitos da lei, demonstrando que ela, nas ruas, tem a inegável capacidade de decidir o que vale e o que não vale. Quer dizer, é mais uma pessoa a definir uma nova norma a cada nova circunstância, sempre de acordo com seus interesses (normalmente pequenos).

O ápice da insanidade

Durante o curso são passados alguns vídeos e dois deles, provocaram gargalhadas da plateia (alunos?) insana. Um deles mostrava um homem, completamente embriagado caminhando tropegamente por uma estrada levando sua bicicleta e ameaçando a vida dele e dos outros. Gostosas gargalhadas. No outro um carro ultrapassa um sinal vermelho, bate em outro veículo e mata um pedestre. (Gostosas gargalhadas). Difícil classificar esse tipo de gente que se diverte com cenas humanisticamente degradantes. A meu juízo os que riram estão prontos para produzir cenas “humorísticas” similares.

A outra face

Dias desses, foram colocadas, na Praça do Congresso proibindo o estacionamento de veículos no trecho que recebe o fluxo da Eduardo Ribeiro. Na manhã seguinte um carro com três “azulzinhos” chegou para multar os carros estacionados em todas as faces da praça provocando revolta dos moradores e motoristas que moram por ali, já que as placas indicavam a proibição apenas em um pequeno trecho.

Entusiasmados com sua autoridade, os guardas disseram que o Código de Trânsito proíbe estacionar no lado da calcada das praças e que por isso iam multar todo mundo. E ainda orgulhoso de seu feito, um deles mostrou um monte de multas aplicadas nos carros estacionados irregularmente do centro da cidade. Ainda que meu carro não estivesse nessa lista argumentei que isso era um absurdo, pois os moradores do prédio onde moro (80 apartamentos e 16 garagens) seriam muito prejudicados e a lei não pode prejudicar. Para mostrar condescendência, o inteligente intérprete das leis disse que de noite eles poderiam dormir ali.

Lembrei à ele que a lei não estabelece escalas temporais para sua obediência, que no entorno da praça existe uma universidade (quantos mil votos?), que na  praça São Sebastião existe um ponto de táxi (quantos mil votos?) que no Eldorado e D, Pedro (quantos mil votos?) o estacionamento ao lado da calcada das praças é permitido, etc. Ele, do alto de sua sabedoria hermenêutica disse que essas eram praças de alimentação e eu não pude conter o riso, pois não existe em Manaus uma única praça que não tenha vendedores de comidas imundas.
As duas faces do transito caótico de Manaus têm, de um lado os motoristas insanos e do outro, muitas “autoridades” incompetentes.

Esta coluna é publicada na edição do final de semana e
é elaborada sob a coordenação do professor da UEA e ex-diretor do Inpa Ozório Fonseca [email protected]

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