28 de junho de 2022
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Amazônia oferece desafios ao avanço da C&T

Diante da crise ambiental que assola o mundo, o Brasil tem uma oportunidade histórica e única para criar um modelo inovador de desenvolvimento econômico em bases ambientalmente sustentáveis

Diante da crise ambiental que assola o mundo, o Brasil tem uma oportunidade histórica e única para criar um modelo inovador de desenvolvimento econômico em bases ambientalmente sustentáveis. E a Amazônia, pela riqueza de sua biodiversidade, poderá ser o “laboratório” desse novo modelo. A questão é que não há respostas para a maioria dos desafios, mas somente uma certeza: sem competências científicas e tecnológicas na região não haverá como alavancar esse processo do qual o Brasil poderá ser líder ou ser arrastado.
Esse foi, em síntese, o resultado das discussões do painel “Amazônia: Desafio Científico e Tecnológico para o Século 21”, realizado na segunda-feira, 16, durante o seminário “Amazônia: Desafios e Perspectivas da Integração Regional”, organizado pela ABC (Academia Brasileira de Ciências) e pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina, na Fundação Memorial da América Latina, em São Paulo.
O evento foi moderado pelo diretor do Inpa, Adalberto Val, e pelo pesquisador do Inpe Carlos Nobre, além do próprio presidente da ABC, Jacob Palisque, e teve como debatedores o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho; o copresidente do Conselho de Administração da Natura, Guilherme Leal; o diretor de Programas e Bolsas no país da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Emídio de Oliveira Filho; e a diretora-geral do Instituto Amazônico de Investigações Científicas, da Colômbia, Luz Marina Mantilla Cárdenas.

Desafios obstáculos

Nos debates, ficou claro que os desafios para o Brasil se posicionar adequadamente dentro desse processo são tão grandes quanto os obstáculos. Explorar a floresta, mantendo-a em pé, não será fácil. De acordo com Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a pecuária rende de US$ 20 a US$ 70 por ano/hectare; a soja, US$ 100 ano/hectare; e a extração da madeira, de US$ 200 a US$ 400 por um período de 20-25 anos/hectare. “Já o armazenamento de carbono, supõe-se que valha US$ 20 a tonelada de carbono”, ressaltou.
Enquanto o carbono não for um serviço ambiental rentável e os governos da região Norte não bancarem os incentivos necessários, é urgente encontrar alternativas para as atividades predatórias. “Há uma população que vive na franja da floresta, especialmente na fronteira do Centro-Oeste, com 15 milhões a 20 milhões de pessoas que precisam de ocupação econômica com mais valor que as atividades predatórias”, ressaltou Luciano Coutinho, do BNDES.
Transformar a biodiversidade da Amazônia em produto de valor agregado não será fácil. “Será necessário des­vendar a riqueza que está escondida na floresta -algo que só poderá ser abreviado com o conhecimento via comunidades locais”, disse Adalberto Val. Exigirá também mais investimentos em infraestrutura de pesquisa. “Costumamos dizer que todas as universidades e centros de pesquisas da Amazônia juntos não dão uma USP [Universidade de São Paulo]”, brincou Val, referindo-se a essa limitação.

“Região necessita de cientistas engajados”

Para o presidente da ABC, Jacob Palis, além de infraestrutura, serão necessários pesquisadores estimulados e engajados. “A única forma de isso acontecer é buscar uma remuneração maior para atrair doutores para a região”, ressaltou.
“Caminhamos para um programa em que nenhum aluno da região Norte deixará de fazer mestrado ou doutorado por falta de bolsas”, disse Emídio de Oliveira Filho, da Capes. “No entanto, a velocidade de concessão de bolsas ainda é pequena, quando o necessário seria crescer o dobro da média das outras regiões”, acrescentou.
A explicação para isso, além do crescimento lento da população na região, é a falta de estrutura dos programas de pós-graduação para atender mais alunos. O Brasil tem 3.891 cursos de pós-graduação e toda a região Norte apenas 189 (4,86%). “A Capes não tem tido problemas financeiros para conceder bolsas, mas faltam candidatos”, disse.
A urgência em definir caminhos e adotar medidas foi unânime entre os conferencistas. O Brasil está diante de uma encruzilhada estratégica: ou se posiciona rapidamente para se tornar líder em desenvolvimento ambiental sustentável ou corre o risco de ser a “vanguarda do atraso”, como disse Guilherme Leal, da Natura.
“Falta um plano que una os aspectos de ciência e tecnologia com políticas públicas”, lembrou Emídio de Oliveira Filho. Ou, nas palavras de Guilherme Leal, falta um “chamamento” do governo federal. Nos EUA, enfatizou, o governo mostra para onde quer levar o país nos próximos anos, mas isso não ocorreria no Brasil.

Modelo de aprendizado

Há dez anos, a Natura se viu diante de uma encruzilhada parecida com a que o Brasil se depara hoje. Com mais de 30 anos, a empresa valia em torno de US$ 800 milhões, mas estava aquém dos grandes “players” do setor, que investiam US$ 300 milhões em pesquisa e desenvolvimento por ano, enquanto a firma apliava US$ 10 milhões. Se fizesse uma fusão, corria o risco de ser engolida. Resolveu apostar na biodiversidade brasileira para obter diferencial comparativo e, no futuro, diferencial competitivo no mercado global.
Em 2003, lançou seu primeiro produto da nova linha, mas antes teve de enfrentar o risco de desenvolver e aprender a gerenciar um novo modelo de negócios. Em vez de fornecedores “just in time” teve de lidar com sazonalidade de safras de espécies nativas; em vez de contratos convencionais teve de negociar com povos da floresta, líderes comunitários, agentes de governo, representantes do Ministério Público, e resolver impasses de marcos legais indefinidos.
Hoje, o valor da Natura se multiplicou oito vezes e a firma tem espalhadas por todo o país 34 comunidades fornecedoras.

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