Amazonas dá impulso à economia solidária

No atual processo de redimensionamento do trabalho assalariado e das forças produtivas parece-me contraproducente lutar pela conservação e ampliação do emprego formal pura e simplesmente. O momento presente exige que o sujeito histórico ou o ser social, conforme entende Marx, crie novas oportunidades e formas de trabalho socialmente reinventadas e auto-sustentáveis. Esta é a condição histórica de reinvenção da sobrevivência humana pautada no uso de novas tecnologias sociais, onde as pessoas buscam a sua valorização, ampliam a sua capacidade e se redescobrem empreendedoras em sua dimensão de construto-humano como nos ensina o filósofo Gian Batista Vico. Não se trata de um empreendedorismo individualizado nos moldes das pequenas e micro empresas. Estou me referindo ao empreendedorismo coletivizado e socialmente solidário, difundido pela Unitrabalho (Fundação Interuniversitária de Estudo e Pesquisa sobre o Trabalho) e assumido institucionalmente pela Senaes (Secretaria Nacional de Economia Solidária), criada em 2003, pelo Presidente Lula. A economia solidária é uma nova modalidade de trabalho que vem sendo estudada por especialistas brasileiros, desde a década de 80 do século passado. Trata-se de empreendimentos autogestionários que diferem do capitalismo, mas não sobrevivem fora de uma economia mercantilista. Entenda-se, fora de um sistema de compra e troca. É, com efeito, a partir dos anos 1990 que a economia solidária passou a ganhar vitalidade e visibilidade no Brasil.

Algumas empresas que entraram em processo de falência foram reabilitadas pelos próprios trabalhadores, que passaram a autogerí-las democraticamente com participação nos lucros e nas decisões. Mas a economia solidária não se restringe à compra de ações das empresas por parte dos trabalhadores frente à sucumbência dos negócios, abrange especialmente a massa de trabalhadores excluídos pela reestruturação produtiva. Os excluídos despertaram para a realização de negócios comunitários para satisfazer suas necessidades e abrir novos caminhos na vida, por meio do uso de suas próprias forças e recursos, associando-se a outros trabalhadores e organizando-se em grupos, associações e cooperativas. Ao tomar conhecimento do plano de governo da nova Secretaria de Estado do Trabalho, na segunda-feira, por ocasião de sua posse na pasta da Setrab, fiquei extremamente maravilhada porque o seu plano contempla a economia solidária, embora dentro de uma secretaria de Estado. Isto mostra que esta nova estratégia de produção e reprodução da existência humana começa a adentrar fortemente a gesta pública. Então, não é mais uma proposta marginal e/ou de baixa estatura intelectiva. Só agora alguns governos recobraram os sentidos adormecidos, até então, pela crise do emprego que atingiu fortemente o mundo ocidental. Parabéns à nova secretária do Trabalho pela lucidez e perspicácia que teve ao propor a criação de um Centro de Economia Solidária no Amazonas. Este tipo de organização do trabalho coletivizado resgata a condição dos indivíduos enquanto cidadãos, moradores, comunitários, companheiros e trabalhadores.
A economia solidária é uma modalidade de trabalho que surge do povo de maneira espontânea ou por indução das universidades, movimentos sociais, igreja, Cáritas, Unitrabalho dentre outros organismos da sociedade civil. É preciso, pois, que os governos potencializem os níveis de crescimento humano apoiados nos princípios de solidariedade, cooperação e democracia que balizam a perspectiva da economia solidária. Os grupos de economia solidária que nascem nos bairros e se colocam no mercado de trabalho, com o propósito de gerar renda para garantir a sobrevivência humana, são relativamente expressivos no Estado do Amazonas. Trata-se da reinvenção das classes trabalhadoras no campo da organização do trabalho e de sua identidade histórica, pois o trabalho é um direito do trabalhador e não “esmola” do Estado e das forças de mercado.

iraildes caldas torres é professora da Ufam

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