Alta do dólar divide empresários

Exportadores esperam fortalecimento, indústria importadora e turismo estão preocupados

A valorização do dólar em relação ao real, que vem acontecendo nos últimos dias, divide a opinião de líderes empresarias e economistas amazonenses. Parte da indústria, com forte capacidade exportadora acredita que a valorização da moeda americana viabiliza mais negócios, mas à indústria que funciona à base de componentes importados e para o comércio (incluindo serviços) o receio é forte. Terça-feira (30), a valorização do dólar causou susto na economia brasileira, ao ultrapassar a cotação de R$ 2,45, impulsionado, entre outros motivos, pela melhoria do desempenho da presidente Dilma Rousseff na corrida eleitoral.
Para a indústria local, principalmente setores que exportam, os impactos serão os melhores, acredita o gerente executivo do CIN-Am (Centro Internacional de Negócios do Amazonas), Marcelo Lima. “Como exportadores, esperamos que haja uma grande entrada de recursos, impulsionados pela moeda americana. As expectativas de bons rendimentos estão à nossa frente, mas ainda esperamos por políticas de comércio exterior mais favoráveis, não podemos depender dessas variações cambiais”, disse Lima.
De acordo com Lima, a corrida eleitoral, por ser cíclica, pouco interfere no momento atual. “Não especulamos e nem acreditamos que a subida ou queda de candidatos, interfira diretamente na cotação. Com certeza teremos segundo turno, nada vai ser definido agora, então a alta da moeda apenas coincidiu com o período,” finaliza o gerente-executivo.

Voos baixos
O segmento de turismo em suas duas vertentes, oscila, sendo o emissivo o mais afetado negativamente, conta o gerente da West Central Operadora, Marcello Jobim, que lamenta quedas nas operações da empresa. “Os impactos negativos serão tão altos quanto os números, como trabalhamos com o emissivo (enviando passageiros para o exterior), tivemos uma queda de 15% nas operações. Quem se programou ‘contadinho’, com dinheiro apenas para a viagem, se quebrou. Muitas reservas foram canceladas”, afirma.
Para se manter em atividade neste período turbulento, a operadora de turismo, estuda algumas adequações drásticas. “No momento tentaremos reduzir o preço final em dólares, ou seja, afetando diretamente nossa receita. Foi uma alta muito rápida e o turismo será muito afetado. As operadoras do ramo receptivo não sofrerão tanto, mas nosso segmento lamenta as perdas,” finaliza Jobim.

Sem especulações
Não acreditando nas especulações de que a alta do dólar seja influenciada pela corrida eleitoral, o economista e conselheiro consultivo do Corecon-Am (Conselho Regional de Economia do Amazonas) Francisco Mourão, chega a classificar este pensamento como ‘ingênuo’. “Seria de muita ingenuidade acreditar que eleições influenciem no mercado e que a cotação do dólar defina uma eleição. Como exemplo tivemos Lula versus Serra, ex-ministro da Fazenda de FHC. O ex-presidente foi eleito em 2002 com o dólar em R$ 4, então esta alta não se justifica com as eleições, não vejo isso,” comenta o economista.
O economista acredita que em momentos assim deve haver mais empenho da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) e Seplan-Am (Secretaria de Estado do Planejamento do Amazonas) para resguardar a produção da ZFM, que é muito afetada por oscilações cambiais por ser quase que totalmente importadora. “Somos grandes consumidores de componentes e muitos destes importados. Em horas assim, devemos pensar em maior regionalização ou nacionalização destes insumos. Esperamos pelo empenho das entidades quanto a isso, o que iria neutralizar ou reduzir os efeitos da alta do dólar em nossa indústria”, concluiu Mourão.
Para o presidente do Corecon-Am, Marcus Evangelista, apesar do momento atual ser preocupante, a indústria local não vai sofrer tanto quanto o que aconteceu em 1990, quando a abertura das importações trouxe uma nova realidade econômica ao Brasil. “Até então o Brasil estava economicamente fechado para o mundo. Com a abertura o impacto foi bem maior que o atual, não sabíamos como e nem tínhamos como competir com os preços em dólar”, resume Evangelista.
Pouco após a abertura veio o Plano Real (1994) que tinha como objetivo reindexar a economia de acordo com a taxa de câmbio — isto é, fazer com que preços e salários variassem de acordo com o dólar. Na prática, o dólar se tornava o novo indexador. Houve aumento acentuado das reservas internacionais. Quanto mais dólares o governo tivesse em suas reservas, maior seria a confiança dos investidores internacionais na seriedade e na robustez do plano, e menores seriam as chances de um ataque especulativo e de uma fuga de capitais. Mas apesar do mito, nunca houve câmbio fixo.
Despesas financeiras atreladas ao dólar e a alta dos insumos estrangeiros, chegaram a causar a quebra de fábricas do PIM (Polo Industrial de Manaus), como o caso da Sharp do Brasil que terminou sua agonia em 2002, dando fim ao pedido de concordata iniciado em 2000. Segundo Evangelista, desta vez a indústria está mais preparada. “A crise já vem se arrastando há tempos, não será nada repentino. É cedo para falar em falências ou concordatas, ainda que alguns setores sintam mais que outros”, fecha,

Intervenção do BC
Há uma semana o Banco Central anunciou um aumento de sua intervenção no mercado cambial. A medida visa tentar conter a alta da moeda americana. O BC informou que vai elevar a oferta de contratos de “swap cambial” – instrumentos que funcionam como venda de moeda norte-americana no mercado futuro, o que tem influência no preço do dólar a vista. O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, informou que a autoridade monetária atua no mercado de câmbio “sempre que julga necessário no sentido de dar fluidez, garantir a perfeita funcionalidade e reduzir a volatilidade da cotação do dó-lar”.

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