Alta de insumos pode paralisar obras de construtoras

A escalada de preços dos insumos e o desabastecimento de alguns componentes podem levar as construtoras do Amazonas a antecipar o encerramento do ano, com um breque nos lançamentos, paralisação de obras e demissões em massa. Por consequência, o processo de recuperação e o desempenho do setor podem ser comprometidos em 2020. O alerta vem do Sinduscon-AM (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Amazonas). 

A Ademi-AM (Associação das Empresas do Mercado Imobiliário no Estado do Amazonas), concorda que os aumentos vão impactar no desempenho das empresas de construção civil, mas não vê riscos para as empresas no curto prazo. Na análise da entidade, os eventuais desdobramentos da inflação na construção civil só se dariam em um tempo posterior, com o repasse do custo adicional presente aos preços de empreendimentos futuros – inclusive nos imóveis populares.

O encarecimento dos materiais de construção fez o setor buscar ajuda do governo federal, nesta semana. A CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), juntamente com todos os Sinduscons estaduais, encaminhou um documento à Secretaria de Advocacia da Concorrência e Competitividade do Ministério da Economia, com duas pesquisas que comprovam a aceleração dos aumentos – especialmente em julho e agosto –, suas causas e consequências. Também apresentou propostas para resolução do problema.

“Nosso entendimento é de que o aumento dos preços foi fruto da falta de oferta de produtos em quantidade suficiente para atender o mercado. Se não houver um choque de oferta urgente, não conseguiremos voltar à normalidade, pois a memória inflacionária e a óbvia reindexação irão criar um caminho sem volta para a economia nacional (…) As próprias indústrias reforçam que estão com capacidade ociosa, no entanto faltam materiais, há atraso nas entregas e os preços sobem. Isso tudo de forma artificial, devido à falta de uso da capacidade produtiva”, assinalou o texto da CBIC.

Desequilíbrio nos contratos

De acordo com o presidente da entidade, Frank Souza, o documento enviado pela CBIC e a entidade à Sepec já é um apelo para que a questão da disparada de preços se estabilize, “ou pelo menos se minimize”. Caso contrário, prossegue o dirigente, o desequilíbrio dos contratos vai ter de ser revisto pelo órgão público para evitar reveses em projetos públicos e privados. 

“Os empreendimentos do Minha Casa Minha Vida não fecham valores, que vêm de cima para baixo. Em obras de infraestrutura, o problema dos preços de aço e PVC é bastante grave. Vai ter atraso de obras e desemprego. Porque, se você não consegue manter o orçamento, vai ter que afastar a equipe, até a coisa se restabelecer”, alertou. 

De acordo com o executivo, o setor defende que algo seja feito para aumentar a produtividade da indústria de materiais, reduzindo sua capacidade ociosa e, por consequência, o desabastecimento. Frank Souza considera que a situação é semelhante à do arroz, que teve sua alíquota de importação reduzida pelo governo federal, no intuito de aumentar a oferta e reduzir os preços. 

“Pedimos que zerem o imposto, pelo menos no caso do aço, cimento e PVC, embora haja um aumento geral na cadeia, incluindo cobre, telha e tijolo. Solicitamos também que reduzam a cota de exportação dos materiais e criem um comitê entre fornecedores e empresas clientes para tratar e acompanhar esse assunto. Outro fator que agrava esse quadro, que é a verticalização: a mesma empresa faz tudo. É uma questão de abuso econômico”, desabafou.

O presidente do Sinduscon-AM ressalta que o atual momento é “muito favorável para o setor”, materializado por uma taxa Selic de 2% ao ano, uma inflação baixa e mão de obra com custo estável. Mas, pondera que a subida dos preços dos insumos é um fator que se descola do cenário com força suficiente para pender a balança para um crescimento menor do que o projetado nos recentes meses de recuperação. 

“O setor deu uma evoluída e acho que dava para chegar a uns 10%. Acredito que não vai ficar negativo no Amazonas, mas deve reduzir muito. Entre zero e 5% é minha aposta. Mas, vamos aguardar para ver como fica esse cenário todo e se vai ter obra pública ou privada parada. Em breve, vamos medir o consumo, porque é por aí que se sabe se o preço já reduziu. Infelizmente, um dos fatores para fazer o fornecedor baixar preço é a baixa da demanda”, frisou.

“Momento desagradável”

O vice-presidente da Ademi, Hélio Alexandre, concorda que os aumentos já estão impactando no desempenho da construção civil, ao tornar a atividade mais imprevisível e o lucro mais incerto. O dirigente aponta que um aumento inesperado de 20%, por exemplo, terá de sair da margem de lucro das empresas, para que a obra possa ser finalizada.

“Quando você orça uma obra qualquer, tem uma estimativa de oscilações de preços. Só que o país está passando por um momento muito desagradável e os preços das coisas estão subindo muito mais do que a realidade que a gente poderia esperar. O aço já aumentou mais de 18% e o cimento, idem. São insumos muito importantes, especialmente no inicio da obra. Fora a cerâmica, esquadrias metálicas… Tudo subiu muito”, lamentou. 

A consequência do aumento dos custos além do esperado pelas empresas, segundo o dirigente, é que este deve ser incorporado aos próximos empreendimentos e repassado à clientela final. Hélio Alexandre ressalta, entretanto, que o governo federal já está conversando com as indústrias de base para indagar o porquê dos aumentos. 

“Da mesma forma que fez no caso do arroz, o governo está se mexendo, para que essa questão não se reflita muito forte junto ao consumidor final. Na minha opinião, já influiu. O que aumentou de preço, talvez não vá baixar. Só vai reduzir se a demanda por casas e por reformas também diminuir. Caso contrário, o governo vai ter que frear os aumentos”, finalizou. 

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