‘Ainda há um longo caminho para a indústria 4.0’ diz Roberto Garcia

Com 22 anos de atuação no Amazonas, a FPF Tech (Fundação Paulo Feitosa) comemora o crescimento e o desenvolvimento de um ecossistema de tecnologia na capital amazonense impulsionado pelo chamado Polo Digital e pela demanda crescente das indústria para o padrão indústria 4.0. Nem mesmo a pandemia da Covid 19 colocou freio neste avanço. Ao contrário, esse novo normal impulsionou a tecnologia entre as prioridades até mesmo entre os que navegavam quase que exclusivamente no ambiente analógico e presencial. 

O diretor de Relações Institucionais e Novos Negócios da FPF Tech, Roberto Garcia, avalia que Manaus está num caminho sem volta para uma realidade mais tecnológica. Apesar de a jornada ser longa, Roberto considera que o caminho está mapeado e a cidade tem plenas condições de seguir o exemplo de outras cidades que fizeram essa migração e hoje são referência para um profícuo ambiente para negócios digitais. 

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, Roberto Garcia detalha sobre a importância da FPF Tech para a consolidação deste mundo novo na capital amazonense. 

Jornal do Commercio – Como podemos mapear as áreas de atuação da FPF Tech? 

Roberto Garcia – Estamos em período de festa pois em 22 de outubro completamos 22 anos de atuação no Amazonas e o nosso patrono, o desembargador Paulo Feitosa, sempre teve um sonho de deixar um legado desde o início do sonho. Tudo começou com um projeto social da FPF Tech de ensinar informática básica para pessoas carentes da periferia. É um projeto que temos até hoje com prêmios nacionais. 

Além de desembargador, Paulo Feitosa também era assistente social e sua esposa, professora, e, desde de jovens, trabalharam em assistência nas comunidades. Esse é um dos valores da nossa organização. Ao longo dos anos fomos desenvolvendo trabalhos na área de desenvolvimento de software e de hardware e, 22 anos anos depois, a gente é reconhecido no mercado como centro de tecnologia de excelência não só para a geração de empregos. 

Temos hoje um time de cerca de 250 profissionais, a grande maioria amazonenses, para o nosso orgulho. Nos orgulha saber que os caboquinhos da terra estão desenvolvendo tecnologia que se transformam em “benchmark” (ponto de referência) nas empresas multinacionais que a gente trabalha. Por isso a gente respira tecnologia e inovação no trabalho que desenvolve hoje.  

JC – E quais as principais atividades desenvolvidas atualmente no portfólio da FPF Tech? 

Roberto – A gente tem um portfólio muito grande de atividades. A nossa maior competência é tecnologia. As coisas começam com uma demanda de empresas que têm algum problema, algum desafio, daí a gente usa a tecnologia da informação para desenvolver uma solução sob medida. Algumas derivadas de desenvolvimentos que a gente já fez para algumas empresas e outras são totalmente inovadoras e vão gerar um diferencial competitivo para essas empresas. 

De um três anos e meio para cá passamos a ter uma demanda muito grande para o que mercado chama de indústria 4.0. O perfil dos nossos profissionais até então era de desenvolvedores de software, mas, a partir da demanda das multinacionais para fabricação de máquinas e equipamentos usando robôs, sensores e câmeras, nós tivemos de buscar no mercado um perfil diferente de profissionais. Hoje nós temos um time de cerca de 50 engenheiros mecânicos, mecatrônico, eletrônico para poder fazer o cálculo estrutural de um equipamento, instalar um robô ou câmera. 

E agora a gente vem se especializando na indústria 4.0 num nível mais alto, estando mais estruturado para trabalhar como automações, com vários projetos implantados nessas empresas multinacionais. Então a gente tem uma competência diferenciada para implementação dessas tecnologias na indústrias, mas, na medida que fomos fazendo essa implementação, percebemos que as pessoas não estavam acompanhando a velocidade da implementação das tecnologias. Então nós avançamos também bastante na parte de capacitação “IoT” (Internet das Coisas), banco de dados, segurança cibernética e outros. Hoje a gente tem uma grade de mais de 53 cursos de formação. Essa foi a maneira que encontramos de contribuir com a empresas na formação de pessoal. 

JC – Dos profissionais que precisaram ser agregados para essa demanda, eles foram absorvidos do mercado local ou de fora?

Roberto – A maioria dos profissionais são daqui. Começou com a incorporação de profissionais sênior que foram trazendo profissionais ainda em formação e temos muitos profissionais vindo de universidades onde, na prática, eles aprendem, com esses profissionais sênior, o que é a realidade da indústria 4.0.  

JC – A FPF Tech atua no diagnóstico do nível de prontidão tecnológico para a Indústria 4.0. Como vem acontecendo esse trabalho no PIM? 

Roberto – É muito importante para você começar um trabalho rumo a indústria 4.0 identificar o nível de maturidade que a tua empresa se encontra. Pra saber isso, você precisa ter um régua para medir de onde você está, como você está evoluindo para onde você quer chegar. Um diagnóstico do nível de maturidade é interessante porque ele vai identificar lacunas que há na organização, o estágio que você está e isso vai te dar um roadmap (mapa de evolução do projeto) para você trilhar a sua jornada até a indústria 4.0. 

É uma maneira de dar visibilidade para a organização dos gaps (lacunas) que existem em termos de tecnologia, cultura, educação para você traçar um plano para evoluir dentro desse nível de maturidade até chegar até onde estrategicamente você vaoi conseguir tornar a sua empresa mais competitiva. 

JC – Na construção desse diagnóstico a régua utilizada teve como base a experiência alemã da indústria 4.0 ou foi uma metodologia própria da FPF Tech?

Roberto – Existem várias metodologias para você fazer esse diagnóstico do nível de maturidade. Uma bastante conhecida é da Acatech (Academia Alemã de Ciências e Engenharia) uma metodologia com origem alemã que é de onde se originou toda a literatura sobre a indústria 4.0. Mas nós temos uma parceira, que nos enche de orgulho, com o professor Sandro Breval que é um dos professores dos cursos que desenvolvemos na FPF Tech com uma tecnologia aqui da nossa região que tem áreas não abrangidas pela Acatech. Por isso ela é mais abrangente em termos de diagnóstico preenchendo lacunas que não se tem com a metodologia alemã. Precisamos que falar com muito orgulho que temos pessoas daqui de casa fazendo um trabalho fantástico para nos ajudar efetivamente neste trabalho. 

JC – No fim do ano passada a FPF Tech anunciou a abertura de escola técnica. Esse projeto avançou ou a pandemia frustrou a iniciativa? 

Roberto – Existe toda uma parte burocrática para você se credenciar. Esse é um trabalho que começou no ano passado. Toda a parte documental já está em fase bastante avançada. Com a pandemia tivemos de dar um delay na velocidade de implementação. A previsão é 2021 para a gente formalizar, estruturar a Escola Técnica Desembargador Paulo Feitosa que é a nossa maneira de continuar a contribuir com a formação de técnicos de nível médio ampliando a proposta inicial de deixar um legado para a região. A nossa ideia é perpetuar esse centro de tecnologia incentivando empreendedores locais entre as pessoas que vão sendo formadas. 

JC – A ideia da escola técnica teve como base a observação da carência de técnicos em Manaus?

Roberto – A carência na verdade acontece em todo o país. Todas as estatísticas mostram que a carência de técnicos de nível médio é bastante grande. O desafio na implementação das tecnologias é a qualificação das pessoas. As universidades mais recentemente têm focado não só na formação de pessoal técnico, mas técnico com visão de empreendedores também. A gente quer contribuir para preencher essa lacuna porque acreditamos   que isso é importante não só para o Amazonas como para o país. 

Se pegarmos exemplo de Israel e outros países em que o uso da tecnologia está mais avançada, foi o caminho que eles encontraram para geração de renda e emprego. Não precisa nem ir muito longe. Basta ver o exemplo de Florianópolis, Santa Rita do Sapucaí, Recife que já acharam esse caminho. Com muito entusiasmo posso dizer que a gente também está nesse caminho. Para Florianópolis chegar onde eles estão precisaram de 30 anos e não tinham os recursos que a gente tem. Com o aprendizado dessa e de outras experiências no país, o nosso processo vai ser mais acelerado. A gente já consegue ver dentro do nosso ecossistema uma geração de novos empreendedores, nossas startups e aceleradoras em Manaus. 

JC – Em termos de maturidade para a indústria 4.0, como podemos identificar o Polo Industrial de Manaus? 

Roberto – Eu também sou diretor adjunto da Fieam e fizemos em cooperação com o Cieam com a ajuda do professor Sandro Breval a gente fez um diagnóstico das empresas de informática daqui e podemos perceber que não é nada diferente do restante do país. Ainda estamos numa fase inicial. Tem empresas que ainda estão no estágio em maturidade 1.0, algumas 2.0, a gente tem ilhas de empresas num estágio mais avançado, mas a grande maioria ainda tem um caminho bastante grande para trilhar, não apenas em uso de tecnologia, mas também em capacitação dos profissionais para interagir com esse novo mundo. 

JC – Durante muito foi colocada uma preocupação com o déficit de capital intelectual para as novas demandas da indústria no PIM, incluindo aí um déficit de engenheiros, por exemplo. Com o desenvolvimento de tantos centros de excelência em Manaus como a FPF Tech, conseguimos superar essa limitação? 

Roberto – A gente ainda está nessa jornada. Tudo é muito recente. Podemos ver por exemplo da Associação do Polo Digital de Manaus que poderá dar uma governança a todo esse ecossistema de tecnologia que está sendo construído e que pode, de maneira estruturada e ordenada, prover a captação de nível que se faz necessária. A minha percepção por estar interagindo com esse mundo de modo muito presente é que ainda temos muito por fazer, mas a gente está no caminho. Se pegarmos dois anos e meio para trás ainda era tudo muito disperso. A gente nem sabia o tamanho desse nosso ecossistema. Hoje a gente já tem isso mapeado, a gente já consegue enxergar um polo digital. 

Outra coisa muito importante é a participação do Governo do Estado, Prefeitura de Manaus e da Suframa está muito forte ultimamente. E esses entes são fundamentais para a gente conseguir caminhar. Isso acontece hoje de maneira bem estruturada. Tivemos ontem (segunda, dia 16) uma reunião com o general Polsin (superintendente da Suframa) e com o coronel Manoel (superintendente adjunto de Planejamento e Desenvolvimento Regional da Suframa) e você vê o entusiasmo deles com tudo o que está acontecendo e um forte interesse em ser um facilitador neste processo. Vejo com muito entusiasmo o que está acontecendo, mesmo sendo longa a jornada, você sabe que tem chance de chegar lá. 

JC – E a pandemia que mexeu e ainda continua revirando tantas áreas. O que afetou nesse ecossistema de tecnologia? 

Roberto – A pandemia causou dificuldade para muita gente, mas abriu também muitas oportunidades. Todos os estudos que a gente avaliou para onde ia esse mundo com a pandemia colocam a tecnologia como primeiro lugar em termos de aceleração. Na FPF Tech cumprimos todos os protocolos de segurança, mas não paramos nenhum momento. Entre 35 e 40 projetos que desenvolvemos em paralelo, todos eles continuaram. A grande maioria das pessoas trabalhando em home office, mas coisa que a gente já tinha prática porque muitos dos trabalhos, como desenvolvimento de software, já são feitos de uma maneira remota. Todas as projeções de que os processo de tecnologia seriam acelerados no mundo aconteceram tanto no trabalho que desenvolvemos como no dia a dia das pessoas.

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