Agricultor do Amazonas resiste a mudanças

 

As velhas práticas agrícolas continuam sendo um gargalo para alavancar a produção no setor primário do Amazonas. E ainda: o solo pobre em calcário e a falta de insumos dificultam as atividades de pelo menos 300 mil produtores rurais na região. Some-se a isso a ausência de uma ação mais efetiva por parte dos órgãos constituídos para treinar agricultores, ainda acostumados em cultivar a terra utilizando as queimadas, que esgotam os nutrientes e impactam o meio ambiente.

O homem do campo repete os mesmos hábitos de seus remanescentes em buscar o seu sustento diário de forma artesanal. E a maioria tem como meta apenas a agricultura de subsistência. A análise é de engenheiros agrônomos e de especialistas que acompanham de perto o segmento agrícola na região. Por que o setor é tão incipiente e representa quase nada em termos de Brasil? Esse é o principal questionamento de consumidores e especialistas consultados pela reportagem.

Mesmo com terras abundantes, o Estado importa hoje aproximadamente 80% de todos os alimentos que são disponibilizados no mercado interno e também nos municípios do interior. Com exceção do peixe regional, carne, frango, hortifrutigranjeiros, arroz, feijão, enfim, praticamente todos os itens levados à mesa do amazonense, vêm dos grandes centros distribuidores de outros Estados.

O frete encarece os produtos, o atravessador lucra e as grandes redes de supermercados triplicam os seus ganhos. Uma ‘roda viva’ crucial que beneficia o empresário e sufoca o bolso do consumidor, aquele de menor poder aquisitivo.  Lembrando um provérbio popular, pode-se comprar tudo em termos de alimentos em Manaus desde que se tenha dinheiro suficiente. Aqui nada falta, mesmo que o abastecimento venha de outras regiões do País.

-Atividade artesanal no setor primário leva o Estado a importar pelo menos 80% dos alimentos que chegam à mesa dos consumidores. Queimadas esgotam nutrientes –

Agregando a maior parte da população de quase 3 milhões de habitantes (números do IBGE), Manaus figura na lista das capitais brasileiras mais caras para se viver. E os motivos são um só. Aqui quase nada se produz em gêneros alimentícios. Muito consumida, até a farinha que dá como ‘praga’ nas terras do Amazonas é hoje importada do Rio Grande do Sul, um ‘disparate’ na visão de alguns consumidores.

Não que o Estado não produza nada, mas toda essa produção (considerada ainda precária) não atende às necessidades de consumo regional. Então, a saída é importar quase tudo, o que custa muito caro, principalmente para o consumidor das classes menos favorecidas.

“Devemos ver a atividade agrícola no Amazonas como muito artesanal. Por questões culturais, nossos produtores rurais ainda utilizam as velhas práticas no cultivo do solo e resistem ainda a mudanças”, avalia o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço. “As queimadas esgotam o solo, além de causar um grande impacto no meio ambiente”, acrescenta.

Segundo Lourenço, os preços dos insumos agrícolas também são outro gargalo que atinge o setor, impactando na competitividade dos produtos regionais em relação aos importados. Para agravar a situação, o milho, hoje o principal insumo utilizado nas atividades agrícolas, vem de outros Estados. E o que é produzido aqui não atende às necessidades do segmento agrícola.

Outra agravante é que o solo do Amazonas, pobre em calcário, rende muito pouco na produção do milho regional, obrigando os produtores a importarem o insumo do Mato Grosso, Tocantins e de outros Estados.

Os produtores rurais passaram, porém, a ter um novo ânimo. Um estudo da Embrapa (Empresa Brasileira de Produção Agropecuária) desenvolveu uma tecnologia para cultivo de milho em terra-firme que promete tornar o Estado independente na produção desse insumo, fundamental para a agricultura regional.

A técnica consiste no uso da bactéria Azospirillum brasiliense que é inoculada em sementes de milho. Segundo pesquisadores, a tecnologia permitiu uma economia de 20 quilos de nitrogênio por hectare e rendimento superior em 104% à média da cultura no Amazonas.

“O rendimento médio foi de 5.359 kg por hectare, enquanto a média de produtividade dos cultivos de milho no Estado é de 2.626 kg por hectare”, diz Muni Lourenço. “Com isso, o Amazonas pode se tornar autossustentável na produção do grão, que hoje também passou a ser importado de Tocantins e do Mato Grosso”, afirma Muni Lourenço. “Mas faltam políticas públicas e um maior incentivo à produção para tornar essas novas medidas viáveis”, acrescenta.

Impasse

Não faz muito tempo que o grupo Amaggi liberou a venda de milho e farelo de soja para o mercado regional. A empresa opera o Terminal Graneleiro de Itacoatiara, de onde a sua produção de grãos é exportada para a Ásia e mercados da Europa. Sua atividade é mais focada na exportação.

A holding de propriedade do poderoso empresário Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura do governo Michel Temer (MDB), só decidiu comercializar os insumos no mercado local depois de muita pressão por parte do deputado estadual Sinésio Campos (PT), que preside a Comissão de Biodiversidade da Aleam (Assembleia Legislativa do Estado).

“O grupo Amaggi deveria priorizar também os nossos produtores regionais porque foi beneficiado com investimentos liberados pelo governo do Amazonas”, disse o deputado durante o impasse gerado em torno da venda de milho e de outros insumos para agricultores do Estado

Por outro lado, surgiu um novo problema. O Amaggi só aceita vender milho e farelo de soja a partir de cinco toneladas. E poucos agricultores têm condições de comprar os insumos nessa quantidade especificada.

Hoje, a saca de milho de 60 quilos custa R$ 49 e a tonelada de farelo de soja, R$ 1.720, no Amazonas. São pelo menos 300 mil produtores rurais que dependem desses insumos para manter as atividades. E são necessárias algo em torno de 120 toneladas anuais de milho para abastecer o mercado interno.

O caroço de algodão e a casquinha de soja são outros insumos também de grande utilidade na região, mas o grupo Amaggi ainda não liberou a venda dos produtos, só disponíveis por enquanto para exportação, segundo agricultores.

Lourenço vê na mecanização um potencial para alavancar as atividades agrícolas e pecuárias no Amazonas, mas tudo de forma sustentável, sem agressão ao meio ambiente. “O que dita hoje os investimentos no agronegócio é o viés produção x projetos autossustentáveis”, disse o presidente da Faea.

Preocupado com a repercussão negativa das queimadas na Amazônia, o governador do Amazonas, Wilson Lima, anunciou recentemente um zoneamento de terras para proteger o meio ambiente e dinamizar a produção. “Devemos explorar nossas potencialidades regionais com mais responsabilidade, dando novas oportunidades de empregos e renda ao homem do interior”, ressaltou o governador.

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