Agir como filho da Mãe Selva é preservar nossa vida

A mãe selva dá abrigo, sustento e vida, não podemos aceitar passivamente tantos crimes contra ela.

Quando estudei no Japão, por cinco anos fui membro e voluntário da Associação Tóquio Meguro Unesco<https://bit.ly/3fd4TUq>, uma organização ligada à UNESCO/ONU. Anualmente, há um “Retiro” de 3 dias em uma área florestal de Nagano. Este evento reúne cerca de 80 professores, universitários, pesquisadores japoneses e estrangeiros. Temas em evidências no Japão são escolhidos para gerar debates sobre os problemas comuns entre as nações e propor recomendações. O retiro de 2001 marcou por focar no Meio Ambiente, nele houve uma palestra com um Dr. Japonês, ex-diretor da Unesco na França e que participou de uma pesquisa internacional sobre a Rota da Seda. A melhor parte foi a constatação de que, independente da civilização, povos nativos que tinham a sabedoria de usar bem os recursos naturais, educavam suas gerações com estórias de que a floresta era a casa de Deus, por conta disso precisa ser respeitada, usando-a com sabedoria e quem por egoísmo destruísse essa casa seria castigado. 

O palestrante explicou que essas estórias ajudaram parte dos povos antigos a promover uma cultura sustentável e que essa sabedoria milenar tem respaldo científico, uma vez que, destruída a floresta, com grande quantidade de árvores sacrificadas, há desequilíbrio natural, rios secam, insetos, aves e animais morrem ou somem, clima piora, doenças/pragas aparecem e a escassez dos recursos e de alimentos geram guerras. Ele proferiu uma das melhores aulas de história e meio ambiente que já tive, citando inúmeros casos de aumento da pobreza, pragas, piora da qualidade de vida e guerras ocorridas após florestas terem sido devastadas sem uma abordagem sustentável, o que para a sabedoria dos povos antigos seria o castigo divino.

Gosto das mitologias ou contos que comparam Deus como uma mulher ou mãe, tais como na mitologia: a) Grega (Gaia, a Mãe-Terra); b) Indiana (Durga, deusa do invencível); c) Egípcia (Nut, deusa-mãe); d) Maia (Ixchiel, deusa mãe); e) Nórdica (Gefjun, deusa da lavoura); f) Celta (Dana, deusa mãe), etc. No Brasil, antes de Cabral, muitas mitologias indígenas eram fortemente ligadas às deusas. Apesar de uma parcela dos missionários tentar impor sua fé, alterar contos e/ou erradicar vestígios dos cultos nativos, muitas tradições sobreviveram e nos brindam com contos cheios de sabedoria ambiental envolvendo a Tupana (mãe trovão), Coaraci (mãe do dia), Jaci, Cy, Ya-ci ou Araci (deusa da lua, mãe dos vegetais), a Iara (deusa das águas), Sypave (Mãe dos povos), Amanacy (mãe da chuva), Yaucacy (Mãe do céu), Caamanha (Mãe do mato que protege a floresta e animais), etc.

Independente da crença, o importante é entender o conteúdo, a mensagem e como o poder feminino ajudou a moldar culturas que mantinham respeito pela vida, acreditando que “mãe” se refere não somente como quem gera a vida, alimenta, protege, ensina, cura e corrige, mas também “mãe” como àquela na qual vivem, ambiente do lar. Nessa sabedoria profunda, mães são as selvas, os rios, as grandes árvores, as montanhas que lhes proporcionam o sustento material e espiritual, gerando vínculos potentes e conhecimentos milenares que poderiam sanar problemas da dita sociedade civilizada.

Nesse sentido, por que será que mesmo vivendo em grandes cidades, filmes, séries ou desenhos que nos fascinam têm algo a ver com a mãe selva? quem não se emocionou com os enredos de Tarzan, Menino Lobo ou Pokahontas? e o que dizer do Avatar lançado em 2009 e que ultrapassou Vingadores após ser relançado na China, arrecadando um total de bilheteria mundial bruto de US$ 2.798.579.794 <https://bit.ly/3wpVwWV>, sendo o filme de maior bilheteria da história? E o que pensar dos oito episódios da série colombiana <https://bit.ly/2TdOarp> filmada na Amazônia e lançada em 16/08/19 pela Netflix chamada “Fronteira Verde”? Todos tocam profundamente as mentes porque mostram os efeitos nefastos da cobiça do homem reverberada nos desmatamentos, nas queimadas, nas grilagens, nas invasões às terras indígenas, nos genocídios e guerras, mostrando o quanto nossa relação com a mãe natureza está mais em risco do que nunca.

Em maio há muitas datas com alguma relação com a mãe selva e que passam desapercebidas, sem reflexão séria pela maioria da população: Dia do Pau-Brasil (03/05), Dia do Marechal Rondon (05/05), Dia do Campo (10/5), Dia Mundial das Abelhas (20/5), Dia do Apicultor (22/5), Dia Internacional da Biodiversidade (22/5), Dia do Trabalhador Rural (25/5), Dia Nacional da Mata Atlântica (27/5), Dia Mundial da Energia (29/5), e Dia Mundial do Combate ao Fumo (31/5). 

E o que isso tem a ver conosco? Muita coisa, pois a queda da biodiversidade da Gaia (mãe terra) já ameaça os seres humanos <https://bit.ly/3vhIhri>. Por exemplo: 1o) quase 1 milhão de espécies animais e vegetais estão ameaçados de extinção no planeta; 2o) por outro lado, há aumento de espécies conhecidas por hospedar doenças transmissíveis aos humanos de acordo com a diminuição da biodiversidade, o que pode desencadear pandemias, valendo lembrar que mais de 500 mil vírus podem saltar para o ser humano, a partir de desmatamentos, tráfico de animais, etc <https://bit.ly/3f9lW9O>.

Infelizmente, a história do Brasil é marcada por grandes desmatamentos <https://bit.ly/3fEvokv>, sendo a Mãe Selva da Mata Atlântica a mais sacrificada. E o risco de surgimento de pandemias aumenta na Mãe Selva Amazônica por conta das “boiadas” e corrupção sistêmica que resultam no aumento acelerado da destruição ambiental nos últimos anos, com recordes sucessivos de queimadas e desmatamentos <https://bit.ly/3fderOU> durante o governo Bolsonaro. Para exemplificar como boiadas e corrupção correm soltos neste governo, na notícia-crime <https://bit.ly/3y64wlY> feita ao STF, o Ex-Delegado da PF-AM, Alexandre Saraiva, revelou de forma corajosa: a) uma apreensão recorde de 226,76 mil metros cúbicos de madeira em toras extraídas ilegalmente por organizações criminosas que atuavam nos municípios de Aveiro, Itaituba, Juruti e Santarém; b) que em virtude do valor (R$ 129.176.101,60), o setor madeireiro iniciou formação de parcerias com integrantes do Poder Executivo (Salles, Presidente e funcionários do IBAMA, bem como Senador Telmário Mota) para atrapalhar a investigação e buscar patrocínio de interesses privados e ilegítimos.

Nas 63 páginas do despacho que autorizou a Operação Akuanduba <https://bit.ly/3bIUwp2> contra Salles, funcionários do IBAMA e madeireiros, o Ministro Moraes: a) afirmou que as investigações da PF descortinaram um grave esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais; b) ressaltou que a autoridade policial: b.1) noticiou a prática de intimidação por parte de agentes públicos, a partir de depoimentos que revelariam denúncias de sucateamento dos órgãos ligados ao Meio Ambiente, o afastamento de fiscais de carreira com experiência nas funções, adoção de novos procedimentos/interpretações, em verdadeiro descompasso com os princípios constitucionais ambientais, dentre eles o da prevenção; b.2) detalhou as condutas atribuídas a cada um dos investigados, apontando que o pedido da PF para a realização das buscas contra 18 pessoas e 5 empresas foi motivado em fundadas razões, alicerçadas em indícios de autorias e materialidade criminosas; b.3) apontou, a partir de relatório do COAF, movimentação extremamente atípica envolvendo escritório de advocacia, cujo Ministro Salles é Sócio (50%), entre 01/01/12 e 30/06/20, em valores totais de R$ 14.162.084,00, situação que recomenda, por cautela, a necessidade de maiores aprofundamentos.

Parabéns à PF pela Operação Akuanduba, cujo significado vem do nome de uma divindade da mitologia dos índios Araras, a qual tocava flauta e agia firmemente para trazer ordem ao mundo quando percebia excessos (roubos, egoísmo, etc). Pode ser que haja criminosos descrentes que zombam das lendas indígenas, mas para os malditos que estão sacrificando criminosamente milhares de árvores e vidas no Pará, a flauta da divindade Akuanduba já tocou e torço para que seja implacável contra eles. 

Finalmente, é preciso repensar nossa relação com a mãe selva, pois agir como um verdadeiro filho, além de demonstrar gratidão, ajudará a preservar nossa espécie, a vida.

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