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A ciência é um fenômeno interessante. É muito difícil encontrar alguém que se considere razoavelmente racional que não a defenda, que a considere uma coisa interessante e importante. Mas, se a gente perguntar para algumas delas o que é ciência, dificilmente saberão responder. Tenho feito isso com todos os meus orientandos de mestrado e doutorado, por exemplo, e apenas uns raros respondem. E, quando respondem, demonstram explicitamente que não sabem do que falam (ao longo da orientação eles terão um pouco de compreensão da coisa). Isso já é um problema, porque denota má formação básica em ciência nas graduações. Mas a má formação adentra os mais altos níveis de formação científica. Um doutor, por exemplo, deveria ser exímio praticante do método científico. Mas, infelizmente, não é isso o que se verifica com grande parte (talvez a maioria) dos doutores recém-formados. Basta olhar os seus currículos oficiais, chamados Lattes (http://lattes.cnpq.br/). Mas vejamos, de forma sintética, o que é ciência.

Em primeiro lugar, ciência é um tipo de conhecimento. Um conhecimento é qualquer tipo de explicação sobre alguma coisa, fato ou fenômeno do mundo. Costumo dizer que um fato é algo que só acontece uma vez, como o suicídio de Getúlio Vargas, e fenômeno é tudo aquilo que se repete de alguma forma. E uma explicação nada mais é do que algum tipo de discurso, alguma fala, que ajude a compreender aquele fato ou fenômeno de que se fala. De forma bem simplória e simplista, quando alguém fala que Manaus é a cidade mais populosa da Amazônia está externando uma explicação (ser a cidade mais populosa) acerca de alguma coisa, que é a capital amazonense. Essa é a primeira coisa que todo mundo precisa saber.

A segunda coisa é que a explicação, para ser efetivamente científica, tem uma estrutura, tem um esquema lógico. A estrutura lógica das explicações científicas é composta das respostas a três perguntas básicas: 1) o que aconteceu?, b) como aconteceu? e c) por que aconteceu? Note, de imediato, que a ciência é um discurso, uma explicação do passado. Com base na explicação do passado é que compreendemos o presente e temos ideia do que pode acontecer no futuro. Isso é óbvio, mas tem muita gente que não compreende isso.

A primeira pergunta visa deixar claro do que a explicação vai tratar. Por exemplo “a gravidade é a força que atrai os objetos” é um exemplo de resposta para a primeira questão básica. Para a segunda pergunta, uma resposta poderia ser “os objetos se atraem, dependendo da sua distância e de sua massa”. Para a terceira, alguém poderia argumentar que “o corpo mais pesado faz afundar o espaço-tempo de uma forma tal que os corpos mais leves escorregam em direção a ele”. Veja que coisa interessante: o que, como e por que são a forma padrão de explicação científica. É dessa forma que os cientista comunicam as suas descobertas. Mas não é nessa sequência que as descobertas são feitas. É aqui que reside uma grande confusão na cabeça de quem não tem muita prática de ciência. Uma coisa é a estrutura da explicação científica e outra coisa é como essa explicação é produzida. É claro que tem uma terceira complicação, mas que será deixada para mais tarde, que é a estrutura de como a descoberta é divulgada, comunicada, publicada.

A terceira coisa importante é que o conhecimento científico tem uma forma que precisa ser seguida. Essa forma é chamada método científico. O método científico é um conjunto de procedimentos que começa com algo que chama a atenção dos cientistas e que é transformado em uma hipótese. É mais ou menos assim: surgiu a pandemia de covid e os cientistas da área começaram a estudar o tipo de vírus que causava a doença e seu comportamento. Eles queriam saber a) o que provoca a Covida, b) como essa causa atua e c) por que essa causa atua dessa forma. Eles primeiro buscaram informações nos conhecimentos científicos existentes, comparando, analisando, avaliando. Depois que obtiveram um certo conhecimento, resolveram ir além e começaram a gerar as primeiras explicações como “A covid19 é provoca por um vírus que ataca os pulmões levando-os à falência” e também “O vírus Covid19 desarticula o sistema imunológico das pessoas ativando suas comorbidades porque retira os elementos químicos essenciais do corpo infectado”.

Mas veja uma coisa interessante. Essas explicações, ainda que realizadas com base nas experimentações e observações cuidadosamente controladas, são apenas hipóteses, imaginação, invenção, na linguagem popular. É preciso testar para ver se elas funcionam da forma como são formuladas. Sem testar o que é afirmado, não há ciência. E os resultados obtidos por um cientista ou grupo de cientista precisa também ser confirmado pelas pesquisas realizadas por outros cientistas do mundo todo. A razão desse procedimento é que a ciência tem caráter universal, ou seja, aquilo que ela explica tem que valer para todo o mundo. Por exemplo, se fumar muito tem alta probabilidade de causar câncer de pulmão, isso deve valer para todo fumante. O conhecimento precisa ser aprovado pela comunidade científica, portanto, para ser aceito como válido.

E a última coisa que é fundamental saber sobre a ciência é: se não houver erro, não tem ciência. Como? É isso mesmo. Por mais assombroso que isso possa parecer, a existência de uma margem de erro diferencia o conhecimento da ciência dos outros tipos. No conhecimento religioso, por exemplo, o erro é inadmissível. Ali predomina a verdade, coisa que a ciência não aceita de jeito nenhum. Os conhecimentos científicos são sempre temporários, provisórios, que perdura o tempo que o outro precisa para lhe ocupar o lugar por ser mais robusto, confiável e válido. Assim, a ciência pode ser considerada como a explicação científica do que, como e por que as coisas acontecem, produzida com o uso do método científico e com uma margem de erro determinada.

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