A geração do novo é sempre um desafio. É quando a capacidade inventiva humana é colocada em seu teste máximo para fazer emergir o que não existe. Evidentemente que se tem uma ideia, algumas vezes bastante precisas, de vários aspectos da inovação na qual se está trabalhando, mas por mais exatas que elas sejam há sempre enorme expectativa em termos da materialização dessa exatidão.

É como se soubesse que em determinado planeta fora do sistema solar há gravidade porque os testes e cálculos indiretos realizados apontam neste sentido, mas o envio de uma sonda ou tripulação para lá se reveste de um conjunto de ansiedade, expectativa e angústia indescritíveis. Até para esquemas inovativos mais singelos do cotidiano das organizações esse clima organizacional ou grupal também é gerado.

Conhecer o foco do acompanhamento das inovações ajuda não apenas a reduzir esse clima muitas vezes sombrio e sobrecarregado, mas principalmente a realizar essa fase com adequação. Neste sentido, este ensaio tem como objetivo apresentar os dois focos do acompanhamento da inovação.

Diferentemente do que muitos imaginam, o foco do acompanhamento não é o comportamento das pessoas ou qualquer aspecto substantivo associado, mas o processo de produção e a própria produção.

O desafio de todo acompanhamento é duplo, portanto: primeiro, garantir que a produção efetivamente aconteça; e segundo, que esteja em conformidade com o previsto – ou o que pode ser considerado satisfatório, na ausência de indicadores precisos.

Como o que vai emergir é inédito, ainda não realizado anteriormente, é necessário que, primeiro, apareça, seja materializado, para que se possam aferir seus atributos e decidir acerca de sua conformidade ou não em relação aos atributos aferidos; caso não haja conformidade, ajustam-se-lhes os atributos ou altera-se o processo de produção. Evidentemente que que o produto estiver em conformidade, prossegue-se para a etapa seguinte.

Focar o processo de produção significa analisar cada atividade desenvolvida a partir de suas especificações. Geralmente utiliza-se o esquema dos 5W2H para isso: que atividade deve ser desenvolvida (what), quem deverá fazê-la (who), onde deverá ser feita (where), quando a atividade tem que ser feita (when), por que ela precisa ser feita (why), como a atividade deverá ser feita (how) e quanto custa fazer a atividade (how much).

Inúmeras outras ferramentas operacionais podem ser utilizadas aqui, mas sempre com a finalidade de garantir a conformidade do produto final com os seus atributos e a maior taxa de eficiência possível. Em primeiro plano aparecem, portanto, as atividades, que devem ser em número suficiente para produzir a inovação desejada, em seguida os recursos, incluindo o fator tempo. Combinados, atividades e recursos geram a conformidade e a eficiência perseguida.

A consequência do acompanhamento do processo de produção é a alteração das atividades. Isso pode acontecer tanto em quantidade quanto em qualidade. Altera-se em quantidade quando são suprimidas ou acrescidas atividades. Acresce-se quando, por algum motivo, as atividades atuais estejam causando desconformidade e suprime-se quando se pode ganhar em eficiência unindo-se atividades ou eliminando-se as que não agregam valor. Essas alterações precisam repercutir positivamente no artefato físico para que possam ser devidamente validadas e documentadas.

O segundo foco do acompanhamento é sobre o produto. Entenda-se tanto o produto final, que é a inovação pretendida propriamente dita, quanto os subprodutos, que representam a fase final de cada atividade desenvolvida. Em termos esquemáticos, ao final de cada atividade tem-se um produto, denominado subproduto, que representa a entrega ou matéria-prima para a próxima etapa do processo de produção, que é a próxima atividade a ser desenvolvida. A etapa posterior agrega valor à etapa anterior, de maneira que a antecessora é a fornecedora da atividade sucessora. Na prática isso significa que a etapa anterior precisa alcançar os atributos desejados pela posterior.

A consequência das alterações nos subprodutos e produto é o aprendizado da equipe e a reformulação do processo de produção. Como toda inovação, o que há nas mentes dos projetistas e cientistas são apenas possibilidades, por mais reais e factíveis que possam parecer e estar presentes nos diversos diagramas produzidos e seguidos pela equipe de produção. As coisas acontecem, portanto, em termos de ensaio-e-erro muitas vezes, como se fossem pequenos experimentos que, dependendo de seus resultados, alteram as previsões subsequentes. Se forem confirmadas positivamente, passam a fazer parte do protocolo de inovação; se não o forem, são submetidos a novos testes e experimentos, refazendo-se o ciclo de validação.

O ciclo de produção, que muitas vezes é o que, de fato, está sendo perseguido, é construído de forma incremental, experimental a cada etapa. Depois que todas as atividades que compõem o processo de inovação estiverem testadas e aprovadas, cuja demonstração de eficácia e eficiência é a materialização de diversos protótipos, o processo de inovação termina e começa-se o processo de produção. Acompanhar o processo de inovação significa trabalhar continuamente na elaboração de um esquema validado que garanta a geração do novo diversas e contínuas vezes, o que é o mesmo que dizer que é a geração de um processo de produção do artefato que não existe e que passará a existir, muitas vezes em escala.

Acompanhar a inovação é um desafio porque é um processo parecido com a construção de uma estrada por meio de uma densa floresta. Há os projetos, todos muito bem determinados, mas o terreno real pode apresentar alguma surpresa aqui e ali. Mais do que isso, é preciso trabalhar metro por metro do terreno, adentrando-se na floresta, para que o maquinário e todos os equipamentos possam seguir adiante. À medida que se avança na construção, avança-se também no seu uso, que constitui muitas vezes a validação daquilo que foi construído. Se não estiver em conformidade, altera-se a estrada e o projeto. A diferença é que a estrada só será feita uma vez. No mundo da inovação, quase sempre o artefato gerado será produzido inúmeras vezes. E, a cada vez, com mais perfeição.

*Daniel Nascimento-e-Silva é Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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