Acesso a crédito para MPEs cada vez mais longe

A parcela de micro e pequenos empresários amazonenses que dizem que foram atrás de crédito desde o começo da crise da covid-19 para garantir a sobrevivência dos negócios caiu de 54,5% para 50%, entre junho e julho. O percentual de empreendedores que tiveram seus pedidos negados, contudo, aumentou mais e passou de 50,6% para 65%. Só 4% dos solicitantes tiveram sucesso e outros 31% ainda aguardam resposta dos bancos.

Apesar das dificuldades, o endividamento teve menor extensão. Em torno de 45% dos pequenos empreendedores amazonenses estão com as contas atrasadas – contra os 50,9% de um mês antes. Isso não impediu que a proporção de empreendedores adimplentes também sofresse decréscimo, de 27,6% para 24%. Em contraste, a minoria que afirma não possuir qualquer tipo de pendência financeira aumentou de 21,5% para 31%.

Os dados foram extraídos da quinta e mais recente pesquisa do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e da FGV (Fundação Getúlio Vargas) sobre o impacto da pandemia nas MPEs (micro e pequenas empresas). O estudo foi feito em todo o país, entre 25 e 30 de junho, já com a maior parte das lojas de comércio e serviços de portas abertas em Manaus. Foram ouvidas 6.470 pessoas jurídicas – 68 no Amazonas –, sendo 57% de MEI (microempreendedores individuais), 38% de microempresas e 5% de EPP (empresas de pequeno porte).

Sem orientação

Diferente do ocorrido na maior parte das unidades federativas, a Caixa Econômica Federal – tradicional parceiro do Sebrae – foi a segunda opção para quem buscou financiamentos para sobreviver ao fechamento compulsório do mercado no Amazonas, respondendo por 35,5% da procura local – e abaixo dos 39,7% anteriores. Vale notar que 66% dos entrevistados nem procuraram orientação do Sebrae, 25% entraram em contato com a instituição, mas não foram direcionados ao banco público e apenas 9% passaram por ambos.

Assim como no mês anterior, a maioria (44,1%) recorreu a outros canais de crédito não informados na sondagem. Empresas privadas como Itaú (33,1%) e Bradesco (23,9%) tiveram maior demanda do que o Banco do Brasil (16,4%). Na sequência, vieram o Santander (9,7%), Sicoob (7,3%) e Banco do Povo (2%). Apenas o Banco do Brasil (100%), no entanto, concedeu financiamentos a micro e pequenos empresários do Amazonas, no período analisado. 

Os motivos mais frequente para a não realização dos financiamentos foram a negativação ou restrição do CPF do candidato ao empréstimo (26%), negativação da empresa no Cadin (Cadastro Informativo de Créditos Não Quitados do Setor Público Federal) e Serasa (14%), porque a taxa de juros era muito elevada (14%), motivos não informados pelo banco (11%), falta de garantias e avalistas (6%), score baixo (6%). Em torno de 20% apontaram outros motivos não mencionados e 2% não souberam responder.

Demanda e desconfiança

A maior parte da demanda micro e pequeno empresarial por crédito no Estado se concentrou na faixa dos R$ 10 mil a R$ 20 mil (33,5%). Em torno de 27,3% buscaram em financiamentos de menor valor (R$ 5.000 a R$ 10 mil) e outros 14,2% precisavam de bem mais (R$ 75 mil a R$ 100 mil). Os empréstimos inferiores a R$ 5.000 concentraram 12,1% de demanda, ao passo que 3,6% arriscaram um pedido entre R$ 20 mil e R$ 30 mil e uma fatia idêntica mirou o teto da oferta – acima de R$ 100 mil.  

A pesquisa constatou também que, entre os proprietários amazonenses de micro e pequenos negócios que evitaram os bancos, 39% tomaram essa decisão por considerar que não precisavam do financiamento. Pesou também nessa decisão o medo de não conseguir pagar o compromisso (21%), a consideração de que “a economia está fraca” (16%), desconfiança em relação à política econômica (9%), aversão a empréstimos (2%) e outras razões não mencionadas (12%).

Obstáculos ao crédito

A gerente da unidade de Gestão e Estratégia do Sebrae-AM, Socorro Correa, lembra que crédito sempre foi uma dificuldade para o pequeno negócio e observa que isso não mudou, a despeito das medidas governamentais adotadas nos últimos meses no sentido de oxigenar os negócios em meio aos impactos negativos da pandemia e evitar quebradeiras e demissões. 

A executiva cita vários fatores para dificultar as operações, especialmente o cadastro negativado – acentuado pela crise da covid-19 – restrição à liberação de recursos apenas para correntistas do banco em questão, e o fato de a análise bancária levar em consideração o nível de endividamento da empresa que tenta o financiamento. 

“Nesse período, mais do que nunca, o endividamento das micro e pequenas empresas é altíssimo. Enfim, esses três fatores por si só já eliminam parte dos interessados. Mas, existem outros motivos que dificultam a oferta, como o tempo mínimo de constituição da empresa. Para quem tem menos de um ano de operações, por exemplo, é bem mais restritivo”, lamentou, ressaltando que não vê soluções de curto prazo.

Recursos esgotados

Já o coordenador de Acesso a Crédito pelo Sebrae-AM, Evanildo Pantoja, tem avaliação diferente e diz que o cenário começou a melhorar em julho, com a liberação do Pronampe. Ele pondera que, em virtude de seu custo menor, houve redução na demanda pela linha de crédito Sebrae/Caixa. No entendimento do executivo, o problema de acesso se deu menos pela burocracia e mais pelo fato de que os recursos se esgotaram rapidamente. 

“Esperamos um aumento na demanda pelos recursos da linha Sebrae/Caixa neste mês, exatamente por esse motivo, e porque a segunda remessa do Pronampe ainda não foi liberada, apesar de anunciada. Esse novo cenário deve ser retratado na próxima pesquisa. Em nossa análise, o cenário melhorou bastante, porque Itaú, Caixa e Banco do Brasil aplicaram todo os recursos liberados em nosso Estado”, concluiu.

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