Otoni Mesquita é um dos principais nomes das artes

plásticas contemporâneas do Amazonas. Há quase 40 anos

vivendo em meio à arte, já perdeu a conta de quantas

exposições participou pelo Brasil. Como professor de

artes da Ufam há 30 anos, foi e é o responsável pela

formação de dezenas, talvez centenas, de artistas que

hoje existem na cidade se expressando nas mais

diversas formas.
Otoni contou que começou a desenhar ainda criança

utilizando essa atividade como válvula de escape para

esconder sua timidez. “Eu usava a arte para me

distanciar das pessoas, era mais uma fuga, a minha

vida se reduzia àqueles desenhos e eu sentia medo em

mostrá-los”, recordou.
Mas o menino tímido do interior, de Autazes, cresceu,

estudou belas artes na UFRJ e o artista falou mais

alto, o artista e sua arte. “As pessoas costumam dizer

que os trabalhos que faço são surrealistas, mas eu

prefiro dizer que sou um artista contemporâneo que

sofre influência de todos os estilos, do pré-histórico

ao moderno. Sou comprometido com meu tempo, mas

onírico”, explicou.
E em cada palavra, um ensinamento. “Meu trabalho é

intuitivo. Não gosto de vender os trabalhos que faço,

mas se alguém quiser comprar, eu vendo. Sou contra o

artista fazer algo por encomenda e isso eu ensino aos

meus alunos. Podem vender seus trabalhos, mas para mim

é ofensivo pensar na arte como investimento, imaginar

que quando o artista morrer aquele quadro vai se

valorizar”, lamentou.
Outro ensinamento de Otoni é a respeito da execução de

um trabalho. “A obra precisa ser fantasiosa. Falo para

os meus alunos não se preocuparem com regras. Uma obra

é sentido, é sentimento. À medida que eu transformo,

eu me transformo”, elocubrou.

O importante trabalho da imprensa
Com a autoridade que o seu tempo de atuação no meio

lhe permite, Otoni reclamou e criticou o pouco caso

com que as artes plásticas são tratadas no Amazonas.

“Há falta de espaços adequados para receber os

artistas e suas obras com garantia. Os poucos que

existem, deixam a desejar. Cito a Galeria do Largo

como um exemplo. É boa, é do governo, mas cada

exposição fica no local uns seis meses, como se não

tivessem outros artistas dispostos a mostrar sua arte,

sem falar que os órgãos do setor não realizam um

trabalho de base para se criar um público que goste e

passe a entender de arte. Acho que nesse ponto a

imprensa tem um papel muito importante para,

permanentemente, mostrar os artistas e seus trabalhos

e servir como um guia, dar um direcionamento para o

leitor”.
E criticou. “Pra você ter ideia de como as artes são

tratadas aqui, num evento recente organizado pela

ManausCult, órgão da prefeitura, me convidaram pra

participar, mas eu teria que doar meu quadro para a

exposição. Quem quisesse participar da exposição tinha

que doar seu trabalho. Isso é uma ofensa ao artista

alguém querer impor um preço, nesse caso nenhum, ao

trabalho de um artista”.
Atualmente Otoni se dedica à calcogravura, processo no

qual se grava um desenho numa matriz de metal e depois

ele é reproduzido em papel. “Mas eu faço diferente. É

o mesmo processo, sendo que a matriz que utilizo é o

acetato, bem mais barato que qualquer metal. Eu o

batizei de calcoaquarela. Dou aulas para alunos de

universidades públicas, a maioria com pouco dinheiro,

então é mais barato usar o acetato”, lembrou.
“Hoje temos muitos artistas, mas falta a efervescência

cultural que vivemos nos anos de 1990, com várias

galerias e mercado consumidor ativo. Temos uma

diversidade de espaços culturais que não dão espaço

para as artes plásticas, também os artistas cada um

pensa por si. Não são unidos. Precisamos seguir o

exemplo dos paraenses, que nesse quesito estão à nossa

frente”, alfinetou.
Falando em paraenses, no próxima mês Otoni Mesquita

apresenta suas gravuras em Belém na exposição “Memória

do Tempo”, na Elf Galeria, no Palacete Bolonha.

“Precisamos, em Manaus, de um local onde a arte

amazônica apareça”.

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