29 de junho de 2022
Prancheta 2@3x (1)

Na última segunda-feira, em palestra realizada no auditório Rio Solimões do Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal do Amazonas, João Paulo Saraiva Leão Viana, professor da Universidade Federal de Rondônia, expôs uma análise acerca da dinâmica do sistema político da Amazônia. Em “Da eleição de 2018 ao governo: considerações sobre a extrema-direita na Amazônia rondoniense”, o cientista político fez um exame da formação histórica de Rondônia a partir do Território de Guaporé até a sua transformação no 23º. Estado da Federação no estertores do regime militar em 1981. Para além das transformações políticas, Rondônia foi igualmente transformada na sua infraestrutura econômica, fundiária e sociocultural. As frentes de colonização de produtores vindos de todas as partes do país, sobretudo dos estados da região sul, e a sua adaptação política ao longo das décadas, ajudou a consolidar uma elite agrária, interiorana e conservadora.

A expansão agrícola brasileira vai inevitavelmente causar impactos sobre o meio ambiente e as populações locais. Os conflitos agrários e a luta política acirram ainda mais as tensões sociais nos mais diversos níveis, fato que paradoxalmente define a identidade dos grupos políticos e o seu processo de socialização nas campanhas eleitorais. Vale lembrar que a luta política é o elemento determinante da identidade dos grupos do ponto de vista dos seus valores e projetos. E é em torno dessa questão que as identidades e posições ideológicas tomam caminhos conflitivos, sendo a esquerda fundamentalmente defensora das políticas ambientalistas e a direita alinhada à causa do agro-negócio. Os dinamismos econômicos e políticos tornam-se, portanto, interdependentes e caracterizam a luta política na região.

A professora Marilene Corrêa da Silva Freitas, promotora do evento, docente da Universidade Federal do Amazonas e coordenadora local do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL), ao dar a sua contribuição para o debate, destacou o papel das elites na constituição dos estados da região norte (state-building). Na comparação, Amazonas e Rondônia são constituídas por elites bem diferentes nos seus objetivos, nas suas agendas e nas suas posições ideológicas. Se Rondônia, como já vimos, é constituída por um consistente projeto econômico-político agrário, o Amazonas é modernizado a partir de sua metrópole e de seu parque industrial. Não que isso faça da política no Amazonas algo melhor, mas evidencia, outra vez mais, tão cá quanto lá, a presença constante das elites; elites que se reproduzem como classe dirigente e governamental, lotadas em incontáveis rótulos partidários.

A certeza que temos hoje é a de que a reprodução das elites políticas rondoniense e amazonense é uma constante e a sua capacidade de sobreviver ao longo do tempo não depende de partidos ou do governo federal. Em primeiro lugar, os partidos são organizações flexíveis e reféns de resultados eleitorais. Numa eleição, os partidos podem se sair bem ou não; em geral, os partidos, dada a sua enorme fragmentação, não garantem estabilidade – líderes, sim. Em segundo, o presidente da República é uma força significativa no sistema político, todavia, a sua ponderação precisa ser relativizada e conciliada com os imperativos políticos locais, aqueles que garantem o palanque. Na política brasileira, o palanque na época das campanhas funciona como uma cerimônia de boas vindas, onde o político local associa-se com o nacional numa sofisticada aliança de interesses.

Elites locais, independente da geografia, são imperativos da política e só com o tempo são superadas por outras elites. A temporalidade da política é de longa duração e o modo de competir passa por constantes mudanças com o incremento de tecnologias sociais (redes sociais, métodos publicitários, marketing, neurociência, técnicas de mapeamento eleitoral etc.). A política eleitoral comporta as duas lógicas. A tradição e a inovação reinventam-se, irmanam-se, retroalimentam-se na luta política entre candidatos entrincheirados nas suas constantes batalhas pelo voto. A democracia inibe a guerra, mas incentiva constantes batalhas pelo poder. Afinal, é de Vilfredo Pareto o alerta: “a história é o cemitério das oligarquias”.

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