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Para quem não tem intimidade com o cotidiano da produção científica, um problema pode parecer sinônimo de dificuldade, empecilho ou algo parecido. Acontece na ciência o que costumeiramente ocorre na prática gerencial: um problema é sempre um desafio. A ciência tem o desafio de preencher determinada lacuna, um vazio existente em algum arcabouço teórico, aprofundar ou expandir as fronteiras daquilo que ela já consegue explicar. A tecnologia se coloca a missão de solucionar determinada situação com a invenção de algum artefato material. (Há quem fale de tecnologias extrafísicas, não materiais, como as mentais. Mas isso é outra história). Contudo, para que cada uma dessas dimensões da vida humana consiga cumprir suas missões, é necessário, primeiro, que determinado problema seja formulado. Vamos compreender, aqui, com precisão o que os cientistas querem dizer com formulação de problema.

A ciência produz conhecimento de forma ordenada. Mas esse ordenamento não é linear, não segue um roteiro previamente definido. Ainda que haja muitos cientistas imbuídos de gerar esses conhecimentos, cada qual tem seus interesses diferentes. Por essa e outras razões, os conhecimentos vão formando um tecido explicativo com diversos buracos, que chamamos lacunas. Essas lacunas, ao serem preenchidas, permitem vislumbrar com mais precisão o tecido em produção. Essa precisão permite que novas propostas de preenchimento sejam formuladas para tapar outros buracos.

Outra vertente de cientistas trabalha na ampliação do tecido explicativo. Se o tecido é uma toalha de rosto, eles procuram aumentá-la para transformá-la em toalha de banho. A isso chamamos de expansão das fronteiras do conhecimento. Da mesma forma, outros cientistas, ao verem que o tecido da toalha é muito fino, se colocam o desafio de engrossá-la, torná-la mais volumosa, o que chamamos de aprofundar conhecimento. Essas duas vertentes de trabalho se fazem de diversas maneiras e todas elas estão vinculadas com a geração de tecnologias, como veremos mais tarde.

Com a tecnologia as coisas são de mais fácil percepção e compreensão. No período de pandemia ficou evidente a falta de medicamentos e imunizantes contra os poderes destrutivos do vírus. Essa era uma necessidade emergente e inadiável, que todo mundo não apenas percebia, mas exigia dos cientistas e governantes. Em termos de ciência e tecnologia, foi detectada uma lacuna, uma necessidade que demandava uma solução. Isso significava, portanto, o necessário suprimento dessas necessidades em parcerias inéditas em diversos campos da vida humana associada.

O que queremos mostrar é que três coisas estão associadas na formulação de um problema. A primeira é que todo problema exige uma pergunta. Que elementos são capazes de matar o coronavírus? Quais são os principais fatores determinantes do aprendizado de crianças surdas? Há diferença de capacidade de aprendizagem entre crianças de diferentes tonalidades de pele? A pergunta é necessária porque é ela que vai orientar todas as ações de pesquisa, tanto para a geração de conhecimentos quanto para a produção de tecnologia. As perguntas podem ser substituídas por uma hipótese. Uma hipótese é uma explicação provisória para uma determinada pergunta. Por exemplo, “Bicabornato de sódio mata o coronavírus”, “Vontade de aprender e disponibilidade de recursos educacionais são os principais fatores determinantes do aprendizado de crianças surdas” e “Há diferenças de aprendizagem entre crianças de diferentes tonalidades de pele” são exemplos de hipóteses. Quem tem uma pergunta tem pelo menos duas hipóteses.

A segunda coisa é o objetivo a ser alcançado pela investigação. Relembrando: objetivo de ciência é gerar explicação; objetivo de tecnologia é criar artefato material. Mas é preciso determinar o objetivo, torná-lo exato, retirar toda ambiguidade possível dele. Recomendamos o seguinte procedimento: retire o pronome interrogativo da pergunta, substitua-o por um verbo no infinito e ajuste a oração resultante. Nos nossos exemplos, os objetivos poderiam ser “Listar os elementos mais capazes de matar o coronavírus”, “Identificar os principais fatores determinantes do aprendizado de crianças surdas” e “Saber se há diferença de capacidade de aprendizagem entre crianças de diferentes tonalidades de pele”. Note, portanto, que todo objetivo de investigação é, por sua própria natureza, tanto uma pergunta quanto uma hipótese. Isso é importante saber, porque nos artigos e comunicações científicas não aparecem perguntas de pesquisa.

A terceira coisa é aparentemente trivial, que é o título do estudo. As revistas científicas exigem precisão entre o título e o conteúdo da comunicação. Não se pode, portanto, dizer uma coisa no título diferente do que o que está escrito no texto. Recomendamos os seguintes procedimentos: transforme o verbo do objetivo em nome, faça os ajustes na oração e deixe tudo o mais. Por exemplo: “Identificação dos principais fatores determinantes do aprendizado de crianças surdas” e “Listagem dos elementos mais capazes de matar o coronavírus”. Noutros casos, retire o verbo e ajuste a oração. Exemplo: “Diferença de capacidade de aprendizagem entre crianças de diferentes tonalidades de pele”.

A trilogia dos problemas é que permitem a coerência das comunicações científicas. Coerência é o encadeamento lógico entre a introdução, o marco teórico, metodologia, resultados, discussão dos resultados e conclusão (não coloque considerações finais, a não ser em casos muito especiais). O objetivo vai aparecer no resumo, introdução e conclusão. O título é o que primeiro vai chamar a atenção do leitor, cujo interesse vai se confirmar ou não no resumo. Se for confirmado, a leitura da introdução vai ser decisiva para que ele continue a ler o texto. O que ele vai procurar nas outras partes? Exatamente: a forma como a pergunta foi respondida e como a tecnologia foi gerada.

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