A política é, sob todos os aspectos, uma imitação da vida. Afinal, os dilemas humanos estão em maior ou menor sentido refletidos nos fenômenos políticos. A verdade e a mentira, o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto, a moralidade e a imoralidade são manifestações comuns nas nossas vidas pessoais e nos processos políticos como um todo à medida que assumimos responsabilidades e fazemos escolhas quando confrontados com diferentes circunstâncias e experiências. É por isso que Ortega y Gasset, o mais importante filósofo espanhol do século XX, em Meditações do Quixote, é categórico ao dizer que “eu sou eu e as minhas circunstâncias, e se não a salvo [a circunstância] não me salvo eu”. O perspectivismo orteguiano é um libelo, uma ode, um grito de realismo para todos os estudiosos da política doméstica ou internacional.

É por esse exato motivo que conseguimos prever com relativo sucesso o curso dos acontecimentos políticos. É lógico que a previsão não é objetivamente precisa, isto é, exata na sua totalidade. Antes de tudo, a previsão é amostral, quase uma estimativa estatística, sobretudo quando conhecemos a rationale dos atores políticos, a sua história de vida e as suas estratégias dominantes. Tanto as análises de conjunturas quanto os estudos de risco político, bem como as técnicas de forecasting são importantes ferramentas de análise das contradições do poder.

Não é de hoje que Bolsonaro dá sinais cristalinos de sua estratégia política. Aquilo que defini, em outros ensaios, como método Bolsonaro consiste na aposta sistemática no conflito político, numa distinção schmittiana entre amigo e inimigo. Bolsonaro nunca foi diferente disso. Logo, é de sua natureza, do seu arquétipo, de sua psique usar o conflito como uma arma na luta política. Pensar que a sua estratégia dominante – conflitiva, em essência – vai mudar por causa de um cargo administrativo ou pela pressão de um grupo ou coletividade específica é um vão exercício de ingenuidade. Perdoe-me o truísmo, caro leitor, mas as pessoas são o que são.

Em termos newtonianos, causas têm consequências e o que fazemos neste mundo obedece à implacável lei do retorno. E, parece-me, que a conta já chegou. A insistência na estratégia do conflito aberto levou o Brasil a uma situação inédita: estamos internacionalmente isolados…

Saudado inicialmente pelos chefes de governo das principais economias do mundo como um líder pró-mercado e liberalização econômica, Bolsonaro emulou na arena internacional as mesmas posturas conflitivas adotadas na dimensão doméstica. Desde a posse do ex-chanceler Ernesto Araújo, temas como globalismo, marxismo cultural, nova ordem mundial foram colocados na pauta da política externa brasileira. Iniciou-se uma tensão ideológica com a China (principal parceiro comercial do Brasil), um distanciamento progressivo da agenda regional (sobretudo do MERCOSUL), uma parceria religiosa com Israel e uma aproximação ingênua e personalíssima com os EUA de Donald Trump.

Num mundo em transformação, afetado pela substituição hegemônica de duas superpotências, as atabalhoadas decisões brasileiras comprometeram o nosso tradicional espírito diplomático cooperativo, multilateral e pacífico. Problemas relacionados à Amazônia, falas grosseiras sobre a esposa do presidente francês, comentários inapropriados sobre as eleições argentinas, e a suspeição quanto à lisura do processo eleitoral que garantiu a vitória do democrata Joe Biden, tornaram o Brasil vulnerável e um alvo fácil no jogo de poder internacional.

O comportamento impetuoso e errático teve consequências trágicas para a nossa estratégia de política externa, pois o Brasil é hoje um ator internacional isolado nas principais arenas regionais. Não lideramos nada. Todo esforço regional está travado por conta do antiespírito de Uruguaiana de Bolsonaro e Alberto Fernández. Além do mais, estamos na condição de desconfiança mútua com os EUA dada a relação espinhosa do presidente brasileiro com o novo presidente norte-americano. Para piorar ainda mais a situação, barreiras ideológicas profundas inviabilizam uma parceria estratégica com a China.

Tal situação inédita de isolamento dos principais centros de decisão da política internacional compromete os interesses nacionais. Embora tenha um território de dimensões continentais, biodiversidade, polos econômicos integrados a cadeias globais de valor e robusta densidade populacional, o Brasil tem uma capacidade militar limitada. E, no jogo de poder das grandes nações, a capacidade militar é um fator decisivo sobre o que podemos ou não podemos fazer em termos de projeção internacional. Não se trata aqui, obviamente, de uma defesa de um nacionalismo beligerante ou de qualquer imperialismo, mas, sim, de um dado da realidade sobre o que verdadeiramente conta sobre quem é quem na política mundial. Ensina-nos Raymond Aron, no seu clássico Paz e Guerra entre as Nações, que “uma diplomacia que pretende agir sem um exército atualmente em condições de combater, uma diplomacia que dispõe de um exército incapaz de executar as missões exigidas pelos objetivos: estes dois pecados contra a racionalidade podem ser explicados tanto pela psicologia dos governantes e dos povos quanto por erros intelectuais”.

A substituição dramática do histórico esforço multilateral da diplomacia brasileira por uma postura isolacionista – sem ser unilateral – já representa na prática um retrocesso na inserção brasileira no sistema internacional das grandes potências. Ou corrigimos os rumos, ou poderemos ter problemas sérios na nossa soberania. Precisamos remover urgentemente a lógica intransigente de uma Delenda est Carthago – fórmula da inimizade absoluta – por uma diplomacia pró-ativa que bebe nas águas de Alexandre de Gusmão, barão do Rio Branco e Oswaldo Aranha. Enfim, basta apelarmos novamente à riqueza da tradição diplomática brasileira.  

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