10 de abril de 2021

A reação brasileira e as lições da crise mundial

Confirma-se, paulatinamente, que o Brasil é um dos primeiros países a emergir da crise mundial, além de ter sido um dos últimos a sentir de modo mais grave os seus efeitos, após a sua internacionalização no quarto trimestre de 2008

Confirma-se, paulatinamente, que o Brasil é um dos primeiros países a emergir da crise mundial, além de ter sido um dos últimos a sentir de modo mais grave os seus efeitos, após a sua internacionalização no quarto trimestre de 2008. É importante analisar as razões que estabeleceram os diferenciais e consubstanciaram a rápida reação do país, assim como os gargalos persistentes, de maneira a potencializar o crescimento sustentado de nossa economia.
Não há dúvida de que um dos principais motivos pelos quais o Brasil tem enfrentado em melhores condições essa grande turbulência pode ser encontrado na gestão das empresas e instituições financeiras. Nosso vícios viraram virtudes: as empresas e instituições financeiras brasileiras estavam muito pouco alavancadas, devido à errada política econômica de altos juros. Embora não tenha sido por um bom motivo, o fato é que o nosso mercado preservou-se da contaminação globalizada pelo “vírus” da especulação irresponsável.
Também foram importantes as políticas públicas governamentais, como a redução dos depósitos compulsórios no Banco Central, a redução da taxa básica de juros e a redução de tributos sobre automóveis e eletrodomésticos. As reservas cambiais superiores a 200 bilhões de dólares constituem outro fator que contribuiu para a proteção da economia nacional, principalmente tornando-a mais blindada contra os ataques especulativos que os oportunistas de plantão sempre tentam fazer em momentos de incerteza.
Um dos indicadores mais positivos da reação à crise verifica-se no mercado imobiliário. Os números recém-divulgados apontam aumentos expressivos na comercialização de casas e apartamentos no segundo trimestre deste ano em relação aos três meses imediatamente anteriores. As taxas de crescimento variam de 10% a quase 100%, segundo resultados prévios dos balanços das empresas do setor. Com a queda da taxa de juros e a volta do crédito, o mercado recupera o fôlego, impulsionado também pelos programas governamentais de incentivo. Nos imóveis, os prazos eram longos, mas os preços continuavam altos. A queda dos juros e os subsídios permitiram às empresas fixarem prestações viáveis à população de baixa renda.
Trata-se de fenômeno similar ao que ocorreu nos eletrodomésticos e carros. Aliás, neste último segmento são estimulantes as notícias relativas aos investimentos programados pelas indústrias já presentes no país e montadoras de outras bandeiras que anunciam a sua próxima presença em nosso território. O foco, agora, é mesmo o consumidor nacional. Já somos o quinto maior mercado mundial.
Por outro lado, em toda essa epopeia de navegação do Brasil nos mares revoltos da crise, duas lições ficaram muito claras. A primeira refere-se à reforma tributária, que não pode mais ser adiada. O efeito positivo da queda de impostos, testada na prática e num momento muito sensível, deixa clara a necessidade de um regime de tributos menos oneroso, que estimule a produção e não sufoque o poder de investimentos das empresas. A segunda diz respeito à imprudência de manter juros muito altos quando não há risco de inflação de demanda e/ou quando as metas inflacionárias não são ameaçadas. Nesse caso, há um aspecto adicional a ser observado: o juro real ainda não está no patamar adequado, principalmente porque o spread bancário continua muito alto. É preciso revê-lo! Por fim, destacamos a repetição do erro da omissão frente à forte valorização cambial.
Mais do que comemorada, a positiva reação brasileira a uma crise que realmente balançou as maiores economias do mundo deve servir de reflexão para que entendamos o quanto é importante remover os gargalos e estruturar cada vez mais o País para o crescimento sustentado e o enfrentamento de oscilações e crashs do mercado global. Um sistema de impostos mais racional, reforma trabalhista capaz de desonerar os custos atrelados ao salário, investimentos mais amplos para melhoria da infra-estrutura, em especial de transportes, e manutenção de um patamar viável de juros são providências ao nosso alcance. Também é preponderante uma gestão do câmbio que elimine a excessiva volatilidade, que dificulta a tomada de decisões e impõe fortes perdas ao setor produtivo. Implementar todas essas medidas seria passo importante para consolidar o processo de fortalecimento e avanço do Brasil da condição de emergente à de nação desenvolvida.

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