Permeia há muito anos na administração pública brasileira o jargão “meu governo é um canteiro de obras”. Nem a propósito, ministros do governo federal já estão alardeando: “ O país é um canteiro de obras”.Tudo isso para encobrir a evidente paralisia desse governo. Aliás, por paralelismo, o mesmo acontece no âmbito do estadual: uma falência nos serviços públicos. Mas a propaganda enganosa sublima o contrário: a ilha da fantasia, o tudo perfeito. O país deixou de investir na infra-estrutura básica: estradas, portos, aeroportos, energia, moradia e tudo mais – é o caos que presenciamos. A falta de planejamento em todas as esferas de governo deste país tem levado a resultados medíocres, a performances desastrosas no uso do dinheiro público. O pior é que ninguém cobra o resultado positivo dos compromissos de campanha. Há um marasmo, uma aceitação, uma indolência no mormaço do comodismo, da resignação: “- Não! Deixa pra lá! É assim mesmo! Não adianta!” E as coisas vão acontecendo de qualquer forma e qualquer resultado, com a indulgência do pacato cidadão brasileiro. Voltando às obras, elas são necessárias em muitas situações, porém não tanto mais, não tanto menos. No nosso caso caímos em um erro comum, embora pouco observado pelos “fissurados” em obras: construir muito sem levar em conta a sua utilização, o retorno do capital investido – isso na iniciativa privada é um sacrilégio -, como fazer funcionar para obter resultados positivos nos seus objetivos idealizados. Por isso, muitos hospitais da rede pública não funcionam adequadamente, faltam médicos, técnicos especializados, pessoal intermediário, equipamentos, materiais, medicamentos e materiais químicos, cirúrgicos e outros. Não é somente no âmbito da saúde; em outras atividades acontece a mesma coisa.

Parece que mutas vezes a decisão de construir, executar uma obras pública é induzida pela vontade política, sem levar em conta qual o seu resultado para o cidadão: não importa se não foi planejada estrategicamente, se não está no orçamento, se não existe recurso financeiro, dá-se um jeito. É o caso da ponte sobre o Rio Negro, que ligará a cidade de Manaus ao distrito de Cacau-Pirera, no município de Iranduba: não consta da Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO, 2007 da LOA (Lei Orçamentária Anual), 2007, com isso não era prioridade do governo, não existia cobertura orçamentária. Qual a importância dessa ponte para o desenvolvimento do interior como um todo? Houve estudo e planejamento que justifique gastar 500 milhões de reais – somente a ponte – apenas para três municípios? Não é que não seja importante para esses três municípios vizinhos de Manaus. Mas os outros municípios do nosso imenso interior não merecem a mesma sorte? Imagina-se como seria importante esses 500 milhões gastos ao longo de quatro anos em todos os municípios. Aconteceria uma grande transformação no cotidiano caboclo. Enquanto isso, as cidades, as vilas, as comunidades dos municípios – incluindo-se os três beneficiados com a ponte – do interior demandam urgente tratamento de lixo, água potável, saneamento básico, portos, energia, bons serviços públicos na saúde, educação e ação social, meio ambiente, assistência e produção rural.
Com a ponte construída podem-se antever como herança maligna os mesmos problemas da urbanização da capital: invasões das terras e ocupação desordenada do solo nos municípios inter-ligados com a ponte, criminalidade, insegurança, depredação do meio ambiente e poluição da margem direita do Rio Negro.
Pelo aspecto positivo, o possível desenvolvimento desordenado dos três municípios. Um aspecto deve ser pensado: vale a pena o alvoroço, a intranqüilidade, a má qualidade de vida em troca da tranqüilidade e melhor qualidade de vida? Com certeza os três municípios não atingirão nível de uma Suíça, o mais provável é a condição de um bairro periférico de Manaus.
O futuro dirá quem tem razão, os poucos indignados ou os muitos resignados?

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