A pandemia nos obrigou a trabalhar juntos e daí saíram soluções – Entrevista com Cláudio Barrela

Cláudio Barrela é empresário, presidente do Sindicato da Indústria de Plástico, Conselheiro do CIEAM, com uma trajetória no setor produtivo que começou no chão de fábrica. Ou seja, conhece a fundo os avanços, gargalos e sobretudo os novos caminhos que precisamos trilhar. Nesta entrevista, ele compartilha sua bagagem, com dicas seguras para, desde já, resguardar e adensar a indústria do Amazonas, depois deste pesadelo chamado Covid-19.

1. FOLLOW-UP: Qual o alcance de sua preocupação mediante as demandas e mazelas da pandemia da Covid-19?

CLÁUDIO BARRELA: Minha preocupação é a mesma de todo o mundo, castigado por essa pandemia. É a preocupação com a vida, com as pessoas. Muitas estão sofrendo. Esta é a hora de estendermos a mão como manda o Evangelho. E o amai-vos uns aos outros não pode ser apenas de palavras. Temos que deixar a zona de conforto e dar um pouco de nós, retribuindo as bençãos que o Senhor nos deu, a benção da vida e da luta. Muita gente perdeu seu emprego e muitos ainda perderão. Milhares de jovens são seduzidos pela violência das drogas e da indústria do tráfico. Com essa crise, não teremos outro jeito. Precisamos pressionar o poder público para fazer como estão fazendo os países que querem salvar pessoas e a base econômica: distribuição dos recursos. Investir na atividade econômica e gerar empregos. Chega de depender quase 100% de suprimentos externos. Vamos produzir aqui. Só assim vamos sobreviver.

2. FUP: Quem conhece o Barrela, desde sua luta em chão de fábrica, sabe que faz tempo você vem alertando sobre a necessidade de uma atuação conjunta entre o setor privado e o poder público. Afinal, a indústria responde por 85% de nossa economia e tem lições a dar no trato do dinheiro e de seu uso a serviço das pessoas. Isso está funcionando?

CB: Fico pensando o que seria do Amazonas sem a economia da ZFM. Por isso, sempre defendi essa aproximação. Há que se valorizar a força das entidades que representam os investidores. Às vezes o setor público se porta como se fosse o dono da riqueza. Então, precisamos superar essa crença, por isso essa aproximação é sempre saudável. As entidades apontam seus problemas com a burocracia excessiva e emprestam sua habilidade em tratar os recursos. Ou tem outra maneira de tornar mais efetiva a administração dos investimentos e de seus frutos? Você imagina um barco, rio acima, onde estão todos os representantes da sociedade. Temos que diversificar as funções, distribuir responsabilidades, alocar as pessoas no lugar em que elas mais rendem. Se concentramos num só interesse, ou seja, todo o peso de um lado, o barco vai a pique. Temos que aprender a trabalhar em equipe. E a pandemia está exigindo.

3. FUP: E como a pandemia da Covid-19 tem propiciado isso?

CB: Só o tempo dirá, mas nós estamos fazendo nossa parte. No CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas, onde foi montado o Comitê INDÚSTRIA ZFM Covid-19, estamos há quase um mês trabalhando duro para juntar esforços. Criamos EPIs, os equipamentos de proteção individual, para os servidores públicos trabalharem com segurança. Muitos estão se contaminando por falta deles. Para os pacientes estamos já testando um ventilador pulmonar, com grife e dedicação cabocla. Dia e noite. A pandemia nos obrigou a trabalhar juntos, daí saíram soluções. Todos os dias crescem a adesão voluntária de muitos companheiros da indústria. E o que é mais gratificante: essa movimentação solidária mostrou habilidades e talentos. Em nove dias testamos um protótipo e produzimos em série um EPI para salvar vidas. Quem produziria e nos entregaria em tão pouco tempo? Ou seja, nós sabemos fazer e gerar emprego aqui. Poderia citar múltiplos exemplos mas não posso ferir suscetibilidades esquecendo de alguns. Eles, certamente, agregaram bônus na contabilidade do Bem.

4. FUP: E a depressão econômica que começa a tomar conta das empresas? O que fazer?

CB: Bem, você tocou agora numa preocupação muito forte de todos nós. Afinal, se a indústria se esvaziar, o caos se instala. O comércio não vende, não tem emprego, o governo não arrecada. Portanto, não cumpre seu papel social. Esse Comitê tem conversado com o poder público. Eles já sabem do problema e estão dispostos a trabalhar juntos. O único setor que não tem colaborado nesta crise é o setor financeiro. Essa é a hora deste segmento reatar com a sociedade, o momento é de juntar forças para vencer a pandemia. Não estou aqui apontando ninguém pois tem muita gente no sistema financeiro querendo ajudar. Posso citar técnicos do BNDES que já entenderam o tamanho do problema e querem integrar nossa romaria cívica.

5. FUP: E qual a maior lição deste momento tão difícil para o Brasil e para o Amazonas?

CB: Penso que a  dependência dos suprimentos da Ásia nos traz uma grande lição. Nós temos que revisar essa relação. O Brasil é maior do que seu agronegócio e seus minérios. Alcançamos um nível tecnológico no qual precisamos investir. Para dar um exemplo bem próximo a minha atividade, nós perdemos 6 mil postos de trabalho no setor de plásticos que produziam aqui partes do ar condicionado. Com a falta de suprimentos, é hora de fechar  um acordo comercial bom para todos, caso o governo reduza sua carga tributária. As oportunidades se multiplicarão em outros segmentos e temos a chance de recompor nosso Polo Industrial, diversificando e interiorizando a atividade econômica. Agora, já sabemos que, somando talentos e forças, iremos mais longe do que pensávamos antes da pandemia.

*Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Fonte: Cieam

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