“A indústria dispõe de enorme potencial de desenvolvimento para avanços tecnológicos”

O aumento real do salário mínimo, além do avanço da queda das taxas de juros praticadas no comércio e da expansão no prazo de financiamento, fizeram a CNI (Confederação Nacional da Indústria) manter estimativas para este início de ano de um viés positivo no setor industrial, mesmo em meio a informações econômicas ainda pouco animadoras, como o aumento das commodities e o fim da política de benefícios fiscais anticíclicos. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, o empresário e vice-presidente da CNI, José Nasser, fala de contrapontos como o vigoroso desempenho dos números da China, do otimismo corrente entre os empresários em torno da dinâmica favorável à demanda doméstica e dos temores de aceleração inflacionária.

Jornal do Commercio – A indústria tem apontado estimativas positivas para a retomada do crescimento este ano. Quais os principais motivos para tanto otimismo?
José Nasser – O que primeiramente despertou o otimismo não só da indústria, mas de grande parte do povo, foi a reação do Brasil à crise financeira. As medidas adotadas pelos governos federal e estadual foram bem-sucedidas, fortalecendo políticas industriais e tecnológicas que favoreceram a recuperação daqueles setores mais atingidos e expandiram os menos afetados. Por outro lado, a indústria brasileira dispõe este ano de enormes potencialidades estruturais de desenvolvimento para preencher as lacunas das cadeias produtivas e alavancar os avanços tecnológicos produtivos.

JC – E esses motivos são baseados em quê?
José Nasser – Podemos dizer que entre os motivos do otimismo estão as oportunidades que serão criadas com a exploração do pré-sal, com os investimentos que serão gerados pelos projetos de energia renovável, infraestrutura de portos marítimos e fluviais, aeroportos, rodovias e estradas, possibilitando a criação e o crescimento de um mercado interno amplo, capaz de sustentar o crescimento econômico.

JC – Na expectativa da CNI, quais setores irão obter melhores desempenhos no cômputo geral (faturamento e contratação de mão de obra). Por quê?
José Nasser – Eu precisaria ser um mago ou adivinho para responder essa pergunta, e se soubesse investiria maciçamente nesses setores. Mas em termos de palpite (o que em economia é uma loteria!), aposto nos setores que empregam esforços no desenvolvimento de inovações tecnológicas, na produção de gêneros alimentícios, eletroeletrônicos (principalmente televisores de última geração), bens de capital necessários para equipar projetos de infraestrutura e no setor petroquímico.

JC – O desempenho da indústria ao longo de 2009 foi influenciado pela política de incentivos do governo, como desonerações tributárias e juros baixos. Sem essa influência, que possibilidades de crescimento o setor terá este ano?
José Nasser – O cenário econômico se mostra bastante favorável para o crescimento do setor industrial, a despeito da redução dos estímulos fiscais (como é esperada!) que em tese diminuirá o deficit fiscal controlando a elevação da dívida pública, em que pese o ano eleitoral. Mantendo-se os juros em patamares mais baixos, ou seja, menor que 10%, haverá ambiente favorável para financiar investimentos necessários ao crescimento. O que realmente precisa ser olhado com maior atenção é a taxa real de câmbio e o déficit fiscal.

JC – Em 2009, o que mais se percebeu foram investimentos em máquinas e equipamentos na indústria. De que forma esses investimentos vão refletir no desempenho da indústria este ano?
José Nasser – O investimento mais salutar na economia de qualquer país é aquele feito em máquinas e equipamentos, principalmente no setor industrial. Os reflexos para o ano de 2010 serão sentidos, acredito, no aumento da capacidade produtiva, acompanhando o avanço da demanda de produtos. Essa ampliação da produtividade evita que a demanda pressione a oferta e com isso resulte em aumento da inflação.

JC – Qual o principal gargalo para a indústria neste ano? Por quê?
José Nasser – No meu ponto de vista (e não estou sozinho nessa opinião), o gargalo principal será na infraestrutura, principalmente no que diz respeito ao escoamento da produção das fábricas para os centros de consumo do país e a colocação no mercado externo. Precisamos ter opções de transporte mais ágeis e baratas, efetuando integrações modais necessárias e diminuindo acentuadamente a burocracia dos órgãos de controle e fiscalização.

JC – Quais as prioridades dos investimentos da indústria este ano?
José Nasser – A palavra-chave no Brasil de hoje é ‘Inovação’. Precisamos investir maciçamente em tecnologia da inovação. Muitos pensam que os EUA estão fadados ao fracasso econômico, mas se formos analisar com cuidado, verificamos que ainda é o país que mais investe em inovação tecnológica, criando para isso um vasto sistema de financiamento. Já a China, que todos têm como uma potência real na economia mundial, emprega muito da sua capacidade produtiva em copiar produtos. O tempo nos dirá quem está no caminho certo.

JC – Como a CNI observa a demanda do mercado interno?
José Nasser – A demanda interna é considerada como o grande suporte da economia brasileira, sem sua força dificilmente teríamos obtido êxito em superar a crise financeira mundial. É fantástico, por exemplo, o consumo de celulares, que coloca o país entre os três maiores mercados do mundo. Quanto à demanda reprimida, podemos visualizar a formada pela grande massa de consumidores que obtiveram capacidade aquisitiva, não só provenientes de programas sociais de estímulo ao consumo, como também decorrente da criação de empregos.

JC – Já que o senhor citou demanda reprimida, em quais setores o senhor observou o aumento dela?
José Nasser – Deverão ser demandadas em grande escala a aquisição da casa própria (indústria da construção), bens duráveis (indústria de utensílios domésticos), bens alimentícios (principalmente produtos dietéticos) e vestuário (indústria de confecções). Também a indústria pesada (máquinas e equipamentos) deverá apresentar um comportamento bastante dinâmico, tendo em vista os investimentos necessários para o Brasil bancar a realização dos eventos programados para a realização do Mundial de Futebol, das Olimpíadas, do trem-bala, dos projetos do pré-sal e do compromisso da redução do carbono, assumido no encontro de Copenhagen.

JC – Alguns analistas econômicos apontam que o aumento no consumo no mercado interno pode gerar uma bolha. Como a CNI observa essa questão?
José Nasser – Geralmente as bolhas na economia são provocadas por condições criadas artificialmente, não é o caso da demanda interna brasileira. O grande aumento do consumo ocorrido no Brasil foi proporcionado pelo combate à pobreza através de programas sociais e em função da elevação do poder aquisitivo da classe social mais inferior, proporcionado pela melhoria de vida através da geração de mais empregos que deu condições de consumo.

JC – Vários indicadores demonstram que o país já se recupera dos efeitos da crise financeira mundial. Também sinalizam essa retomada do crescimento indicadores como utilização da capacidade industrial instalada, aumento do consumo de energia, venda de automóveis e índices de confiança do consumidor. Como a CNI observa essas questões?
José Nasser – Com satisfação, porém sempre alertando para a necessidade de se manter linhas de crédito (destinadas a financiar investimentos imprescindíveis ao desenvolvimento e à criação de empregos) e priorizar empreendimentos que visem à melhoria da infraestrutura para eliminar gargalos que encarecem a circulação interna e as exportações da produção industrial e agrícola.

JC – Dólar barato, diminuição da demanda externa e redução da capacidade ociosa da indústria nacional devem segurar a alta dos preços da indústria neste ano. Que outros motivos a indústria tem para não se preocupar com a inflação em 2010?
José Nasser – A CNI prevê que a inflação neste ano fique em torno de 4,7% influenciada principalmente pelos alimentos, face ao aumento da demanda externa das commodities agrícolas, porém compensado em parte com aumento menos expressivo dos serviços e preços administrados e elevação moderada dos preços industriais. O aumento da capacidade instalada e o câmbio valorizado terão influência nos preços industriais em face da concorrência dos produtos importados. De certa forma, parte da indústria do Polo Industrial de Manaus, será beneficiada com o barateamento de importação de componentes.

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