A farinha e as castanhas da Jutica

A cidade de Tefé, as margens do lago homônimo, no Solimões, distante 522 km em linha reta de Manaus, está ganhando destaque na economia do Amazonas graças a Jutica, uma pequena comunidade localizada a 60 km da sede do município. Jutica, (palavra indígena que significa “caminho cerrado, espinho furou”, segundo os moradores mais antigos), também é o nome da empresa responsável pela grande produção de farinha e castanha naquela região. À frente desse boom na economia da comunidade, o empreendedor tefeense Márcio Mota da Cunha, proprietário da Jutica. “Nasci em Manaus, mas fui ‘fabricado’ em Tefé, pois minha mãe chegou grávida aqui”, brincou.
A história dos Cunha, em Tefé, começou com o avô de Márcio, o pernambucano José Alves, que deu início à comunidade nos primeiros anos do século 20.
José Alves além de explorar o extrativismo, também montou um engenho de cachaça nas terras que comprara do Estado. Um dia, ao tomar satisfações com um castanheiro acusado de roubo, foi assassinado por este. Os filhos de José Alves deram continuidade aos negócios, mas acabaram por deixar tudo ir à falência.
Em 1935, então com 15 anos, Washington Cunha, filho mais novo de José Alves e pai de Márcio, resolveu montar um porto de lenha em frente à comunidade que atravessava grandes necessidades.
Um vapor que passava pelo local viu a lenha e comprou tudo. Washington agora tinha dinheiro, mas para gastar onde? Foi tanta a sorte do garoto que nem demorou para passar um regatão pelo local. Washington, então, comprou mantimentos para todos os moradores da comunidade e passou a ser respeitado por eles e liderá-los.
Manteve o porto de lenha e começou a praticar o extrativismo, seguindo os passos de José Alves. Só tinha um porém. Seus irmãos mais velhos tinham feito tantas dívidas que as terras da Jutica estavam empenhadas para um rico empresário de Manaus.

Crescendo degrau por degrau
Durante a Segunda Guerra, Washington veio a Manaus, se alistar no Exército, mas acabou sendo recusado. Na capital amazonense o jovem resolveu negociar com o rico empresário as dívidas da Jutica. E a proposta não poderia ser melhor.
O empresário se propôs a ajudá-lo no que fosse possível, afim de que ele tocasse os negócios na comunidade, desde que pagasse as dívidas. Washington aceitou e por 20 anos trabalhou como extrativista até liquidar a dívida com o empresário.
Em 2003, então com 83 anos, Washington morreu e Márcio entrou em cena. Tendo vivido a vida toda em Manaus, o filho de Washington resolveu ir até Tefé e se desfazer de tudo o que seu pai deixara. Mas, durante uma missa no distante município, ele resolveu que ficaria na cidade e voltaria a tocar os negócios do pai que estavam praticamente abandonados.
“Fui dar aula na cidade ao mesmo tempo em que comecei a adquirir farinha e castanha para vender em Manaus. E os negócios foram indo bem até aquela crise econômica mundial de 2008. Meus compradores compravam toda minha castanha para exportação e como não conseguiam vender, também não me compravam. Fiquei endividado. Até que o empresário Anacleto Gonçalves, da distribuidora Alibec, de São Paulo, comprou todo o meu estoque. E pagou na hora. Desde então tem sido o meu principal cliente”, contou.
Mas o crescimento da Jutica, ano a ano tem sido degrau por degrau.
“A farinha sempre teve menos problemas que a castanha. Bastava ensacar e vender, mas eu resolvi beneficiá-la e dar-lhe sabor. Hoje a farinha da Jutica tem o sabor de alho, pimenta e cebola. E é ovinha, tudo testado e desenvolvido por nós”. Com a castanha o processo é mais complicado.

Em busca de parceiros

Para ser descascada, a castanha passa por todo um processo, em máquinas que a esquentam para facilitar o descascamento. “Antes eu fazia isso em Amaturá e agora em Beruri, onde têm essas máquinas. Vejam no mapa a distância dessas cidades para Tefé. Quanto ao óleo da castanha é obtido com uma empresa no Rio Grande do Sul. Por aí você vê quanta dificuldade nós temos que enfrentar para comercializar produtos que estão aí, na floresta. Até os sacos onde ensacamos a farinha e a castanha vêm de São Paulo”, reclamou.
Atualmente o empreendedor está recebendo apoio da Sepror (Secretaria de Produção Rural) para mecanizar toda a produção, tanto de farinha quanto das castanhas, e junto com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) está desenvolvendo pesquisas para realizar o mapeamento das castanheiras nativas e melhorar geneticamente a espécie. “Nossa produção gira em torno de 25 toneladas de farinha/mês e 80 toneladas de castanha/ano. A farinha é toda comercializada em Manaus, enquanto as castanhas vão para, além de Manaus, São Paulo, Rio, Goiânia, Belo Horizonte e até pro exterior. Temos oito funcionários na empresa, que funciona em três flutuantes, em Tefé, empacotando a farinha, e na representação, em Manaus. 50 famílias de agricultores tefeenses têm toda a sua produção comprada pela Jutica. Para o futuro estamos atrás de parceiros que queiram investir em empresas em Tefé ou em Manaus, beneficiando os dois produtos. Também estão nos nossos planos acrescentar outros produtos à Jutica, como o açaí, o guaraná… Penso que meu avô e meu pai estão satisfeitos com os rumos dos negócios que eles começaram”.

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