O catecismo das democracias é claro: liberdades individuais, direitos políticos, partidos políticos, separação dos poderes, entre outros, são as condições ideais e necessárias para a emergência de um Estado Democrático de Direito.

Todas as experiências históricas demonstraram, sem sofismas, que sacrificar as condicionantes acima listadas no catecismo das democracias implicam diretamente em polarização ideológica, radicalização política e a instauração de um Estado de Exceção. O século XX foi o grande laboratório de experiências políticas democidas objetivadas no fascismo, nazismo e comunismo. O século XX foi, em suma, o teatro diabólico das ideologias contra o homem.

Passamos por tudo isso para tiramos uma lição simples: saber que o regime democrático é o mais completo – porém imperfeito e insatisfatório – sistema político já criado pelo engenho humano. É o único capaz de assegurar um Estado de Direito pronto para conciliar as liberdades civis e coletivas, bem como a normalidade de uma economia de mercado.

De fato, o dilema mais controverso da modernidade democrática, herdeira das revoluções liberais europeias, diz respeito aos métodos de representação política. Partidos políticos, inicialmente chamados de facções, foram criados na intenção de agrupar e arregimentar os grupos de interesses – profissionais ou ideológicos – para a luta pelo poder. As velhas democracias – originalmente parlamentaristas – precisavam contar com as legendas partidárias para legitimar todo o processo político em construção.

Robert Michels, um dos mais relevantes sociólogos políticos do começo do século XX, autor da magistral obra “A Sociologia dos Partidos Políticos” (1915), identificou no partido político a mais importante instância dos mecanismos de polarização ideológica e dos conflitos políticos em sociedades pluralistas. Michels chamou a atenção para a transformação dos partidos – na antiga distinção entre partidos de quadros e de massa – em oligarquias. Assim, a lei de ferro das oligarquias é a tendência irrefreável dos partidos políticos em grêmios controlados oligarquicamente.

Tal tendência à oligarquia dos rótulos partidários, que submete todos os militantes partidários – em menor ou maior medida – aos rígidos controles dos caciques dos oligarcas partidários, provocou o aparecimento do político outsider nas modernas democracias. Os outsiders obedecem a um perfil político e psicológico único, uma vez que dependem das organizações partidárias para fazerem a democracia funcionar, porém extrapolam e excedem as mesmas para a afirmação de uma personalidade salvífica, heroica e incólume, potencialmente autoritária em alguns níveis de desenvolvimento político e institucional.

Como projeto histórico da modernidade, os partidos políticos passam por uma profunda crise de identidade. O desmoronamento do poderio soviético trouxe consequências negativas não só para as esquerdas, mas também para as direitas, que encontraram enormes resistências na promoção de políticas econômicas e sociais, sobretudo nos países em via de desenvolvimento.

No contexto de crise dos partidos históricos e de seus respectivos projetos políticos, a popularização dos meios de comunicação de massa e a urbanização radical em novas formas de sociabilidade, os outsiders encontram uma atmosfera propícia à captura de um eleitorado desideologizado, apartidarizado e não integrado aos modos tradicionais preexistentes na comunidade política. As novas mídias e a emergência dos intelectuais virtuais transformaram radicalmente a forma de se pensar e fazer política no Brasil e no mundo.

O declínio do partidarismo abre brechas para a emergência dos outsiders em praticamente todas as democracias relevantes do mundo. Resta apenas saber se estamos diante de uma nova forma de comportamento político e eleitoral, ou se se trata de mais uma onda sem consequências futuras. 

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