A cura para o câncer pode estar no fundo das águas amazônicas

Descobrir se fungos encontrados no fundo do rio Amazonas produzem substâncias que podem curar os cânceres da mama, do colo do útero, do fígado e do sangue (leucemia). Esse é o objetivo do projeto que está sendo desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa em Metabolômica e Espectrometria de Massas da UEA (Universidade do Estado do Amazonas), em parceria com o Instituto Gonçalo Moniz, da Bahia (Fiocruz/BA), e apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), tendo à frente o pós-doutor em química orgânica e professor da UEA, Héctor Koolen.

“Os fungos existem em qualquer ambiente, até dentro de nós mesmos. Há muito se sabe que eles existem no fundo do mar, porém, nunca foram estudados no fundo de um rio, onde eles vivem na lama, num ambiente quase inacessível”, falou.

“Ano passado nosso grupo de pesquisa pegou uma voadeira e fomos para o rio, passando um pouco o encontro das águas, a uns 100 metros da margem. Lá, jogamos uma boca de lobo manual para coletar material no fundo do rio a uma profundidade de 30, 40 metros”, disse.

“Nesse material coletado vieram várias linhagens de fungos, bolores, parentes desses que aparecem no pão envelhecido. Ocorre que esses do pão são patogênicos. Podem provocar algum tipo de doença. No fundo do rio tem milhões de linhagens de fungos, mas vamos pesquisar apenas as 110 primeiras que identificarmos. Então, iremos verificar se é possível isolar essas substâncias e utilizá-las farmacologicamente contra o câncer, se atuam numa atividade antitumoral em testes em células cancerígenas in vitro”, explicou.

O poder do cipó miraruíra

“A pesquisa com esses fungos está na etapa microbiológica, ou seja, é a fase em que estão sendo conservados e identificados. Das 110 linhagens, umas cinco devem ter mais potencial para a possível cura do câncer, por isso o próximo passo é avaliar se esses fungos produzem moléculas capazes de combater a doença”, detalhou.

“As pesquisas do nosso grupo começaram em 2015, sempre tendo como linha de estudo a cura do câncer, porém, nessas pesquisas conseguimos comprovar cientificamente que o cipó miraruíra (Salacia Impressifolia) combate o diabete”, contou.

O cipó miraruira é uma planta existente nas florestas do médio rio Amazonas, região da Mundurucândia, identificada para a ciência por um pesquisador alemão, mas desde sempre utilizada pelos nativos da Amazônia, como o mais eficaz produto natural da região, no combate ao diabete.

“Essa comprovação até já foi publicada no Journal of Ethnopharmacology, de reconhecimento científico internacional. Agora queremos comprovar se as moléculas que dão a cor do chá têm potencial para tratar o câncer”, revelou.

A descoberta de novos compostos bioativos é o primeiro passo para auxiliar no desenvolvimento de medicamentos capazes de combater a proliferação de células tumorais.

“Nosso projeto tem o prazo de três anos para apresentar resultados. Até 2021 temos que entregar ao menos uma molécula capaz de matar células cancerígenas, patenteá-la e aguardar que alguma indústria de remédios se interesse pela nossa descoberta”, adiantou. “O processo é o seguinte. Este ano estamos realizando a microbiologia, identificando os fungos; no próximo ano começaremos os testes anticancerígenos; em 2020 pretendemos identificar os princípios ativos deles; e em 2021, dando tudo certo, partiremos para patentear a descoberta”, listou.

Potencialidade da biodiversidade amazônica

“A produção de medicamentos será possível se ao longo do processo de estudos as substâncias forem aprovadas nos testes pré-clínicos (in vivo) com camundongos. Mas não basta que a molécula seja ativa, ela necessita não ser prejudicial ao restante do organismo. Isso será avaliado neste projeto de modo a fomentar o interesse de alguma indústria farmacêutica para as sínteses e estudos clínicos (ensaios em seres humanos). Vale ressaltar que o processo para que um candidato vire fármaco é custoso, e leva em média 15 anos para a aprovação final. Esse projeto visa fomentar possíveis estudos clínicos”, ressaltou.

“Com os resultados alcançados, esperamos poder fomentar a pesquisa de base na área de química e farmácia no Amazonas, além de descobrir as potencialidades da biodiversidade amazônica, bem como a necessidade da preservação do ecossistema’, esclareceu.

“A Amazônia, por toda sua riqueza de recursos naturais, constitui um depósito de moléculas bioativas ainda por descobrir. Infindáveis espécies de fungos, muitas delas ainda nem descritas, habitam todo o ecossistema amazônico e podem fornecer novas moléculas com atividade anticancerígenas para o mundo”, completou.

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