A catraia vai virar Titanic

O transporte de catraia em Manaus já teve seus dias de glória quando os igarapés da cidade não eram poluídos e as pontes ligando os bairros ao Centro ainda não existiam. Era um meio seguro de atravessar os rios e, acredito eu, nunca foi registrada nenhuma grande tragédia, até porque as distâncias percorridas eram relativamente curtas e as fortes canoas de madeira se mantinham estáveis mesmo diante de banzeiros provocados pelas embarcações que navegavam os igarapés durante as enchentes.
Para quem lembra desse tempo, e deve ser com grata recordação, bate certo saudosismo quando se podia atravessar o igarapé do São Raimundo em direção a este bairro ou então ao da Glória saindo do Centro, ou vice-versa, nas catraias impulsionadas por dois vigorosos remos presos às amuradas das canoas. Este mesmo serviço era prestado no igarapé do Educandos, unindo este bairro ao Centro. O auge da atividade era no período das cheias porque, durante as vazantes, os catraieiros construíam pequenas pontes de madeira que cruzavam os igarapés, agora reduzidos a uma pequena tira de água, e continuavam a cobrar dos transeuntes a travessia.
As catraias sobreviveram à poluição, mas não resistiram à construção das pontes, tornando-se obsoletas diante da possibilidade de atravessar os igarapés caminhando com as próprias pernas. Aqueles que sobreviviam dessa atividade tiveram de procurar outra ocupação, deixando suas canoas relegadas à areia, morte inglória a qual nenhuma embarcação deveria ser condenada.
Manaus tem vocação para o transporte fluvial por ser uma cidade cortada por igarapés, mas é preciso levar em conta os ciclos das águas, porque o sistema pode se tornar inviável durante a vazante. Talvez a construção de comportas para perenizar a navegabilidade dos igarapés fosse uma solução barata e interessante para o transporte urbano, hoje tão dependente de avenidas congestionadas. Uma viagem do Centro até a Zona Leste poderia ser feita em barcaças, pelo leito do igarapé do Mindu, numa solução que deixaria milhares de pessoas livres do Expresso e sem ter de enfrentar situações estressantes. Desta forma Manaus ganharia ares de modernidade e em muito melhoria seu Índice de Desenvolvimento Humano.
Outros igarapés poderiam favorecer o transporte coletivo barato para os moradores de todas as zonas da cidade, livrando-os assim dos transtornos diários dos engarrafamentos. Caso essa solução fosse adotada, a frota de ônibus poderia ser reduzida e sobraria mais espaço nas ruas, as viagens seriam mais curtas e não haveria tantas pessoas estressadas no trânsito. Mesmo aqueles que hoje se deslocam de carros veriam grandes vantagens em deixá-los nas garagens e tomar uma barcaça para fazer um translado diferente, percorrendo um itinerário com mais contato com a natureza, porque estas hidrovias teriam, obrigatoriamente, de ter suas margens protegidas por florestas urbanas.
Desgraçadamente, o poder público tem o grave defeito de ver soluções pela ótica do exagero e é incapaz de produzir grandes idéias com simplicidade. Agora o IMTU pretende estabelecer a volta das catraias em Manaus, criando duas linhas, ambas tendo como ponto de partida o Centro, cujos destinos seriam a Ponta Negra e o Educandos.
Como sempre, parece uma solução produzida por quem não conhece as peculiaridades de Manaus, porque os dois trajetos teriam como via o rio Negro, que em nada se parece com os tranqüilos canais de Veneza, de onde deve ter vindo a inspiração para o burocrata que pensou esse projeto. No final da tarde, as águas do rio Negro se encrespam sob quaisquer condições atmosféricas e isto é um perigo real para pequenas embarcações, principalmente canoas de alumínio transportando até dez pessoas, como pretende ser feito o transporte de catraia planejado pelo IMTU.
Será uma temeridade, além de se revelar um transporte voltado para poucos, porque o preço a ser cobrado, quatro reais como estabeleceu o IMTU e dez reais como querem os catraieiros, será restritivo a turistas desavisados dos

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